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As meninas

Lygia Fagundes Telles é conhecida como a “dama da literatura Brasileira”. Nascida em São Paulo no ano de 1923, se interessou pela literatura desde a adolescência. Seu primeiro livro foi publicado quando ainda tinha quinze anos. Formada em direito pela USP, a literatura sempre fez parte de sua vida. Atualmente ocupa a cadeira de número 16 da Academia Brasileira de Letras.

Você sabia que, no ano de 2016, Lygia Fagundes Telles foi indicada ao Prêmio Nobel de literatura? Não? Nem eu sabia. A imprensa deu pouca importância a essa indicação. A União Brasileira de Escritores (UBE) a indicou para o prêmio. O vencedor no ano de 2016 foi Bob Dylan. A alegação do prêmio dado pelos membros da Academia foi por ele “ter criado uma nova expressão poética dentro da tradição americana da canção”. Não que eu não goste dele, pelo contrário, eu adoro, mas Lygia merecia esse prêmio. “As Meninas” é um livrão. Romance este que recebeu inúmeros prêmios: o Prêmio Jabuti, o Prêmio Coelho Neto da Academia brasileira de Letras, foi premiado pelo PEN Clube do Brasil. Não é à toa que Lygia é uma das escritoras brasileiras mais traduzidas no exterior. Portugal, França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Holanda Suécia, Espanha e República Tcheca, entre outros.

Eu vejo em Bob Dylan um certo enfado com a vida de prêmios. A sensação é que ele não está nem aí para prêmios. Ele nem foi receber esse prêmio, alegou que tinha shows marcados. E com isso deixou-se de premiar uma escritora brasileira de primeira linha. Uma pena. Mas Bob Dylan será sempre “o” cara, sempre.

O estilo de Lygia Fagundes Telles, pelo menos nesse livro, o único que li até agora da autora, é intimista. Ela explora a psicologia feminina. E, ao explorar a psicologia feminina, ela se declara uma feminista convicta. Lygia explora o universo de três meninas. Lorena, Lia e Ana Clara, onde o foco narrativo em primeira pessoa desloca-se para o fluxo de consciência de cada uma delas. E é assim que elas se apresentam ao leitor. Minha esposa Paula foi quem me indicou esse livro, e serei eternamente grato por essa indicação.

“As Amigas” explora vários temas, como a opressão e a violência contra a mulher, sendo que cada uma delas, em posições e aspirações diferentes, nos faz entender a representação feminina na sociedade, tanto social como politicamente. O livro foi escrito em 1973, mas a ação se passa em 1969, no contexto da ditadura militar. E cada uma delas narra suas histórias em um curto espaço de tempo, mas o suficiente para conhecê-las a fundo e entender a violência que sofrem. Um outro ponto importante de ser colocado é que nesse período começa a surgir o movimento feminista no mundo.

O contexto de 1969, quando se passa a ação, foi conhecido como um período negro da nossa história. Na época, o governo Garrastazu Médici era o presidente. E todos que viveram essa época sabem do que estou falando. Em seu romance “As Meninas”, Lygia Fagundes Telles registra uma posição de clara recusa ao regime militar. Em 1973, ano em que o livro foi publicado, era o ano de Médici, e não sabemos como esse livro não foi censurado, já que a censura era uma das poucas coisas que funcionavam de maneira implacável na burocracia do regime. Em 1976, ela fez parte de um grupo de intelectuais que foi a Brasília falar com o General Geisel, levar um manifesto contra a censura, conhecido como “Manifesto dos Mil”, o que só evidencia que “as Meninas” era uma metáfora da história do Brasil nesse período.

Mas é bom que se diga que o romance não oferece apenas uma interpretação, cabem várias interpretações. Não é à toa que o livro é estudado por muitos estudantes de letras do Brasil inteiro. O livro pode ser interpretado por vários ângulos. É bom que se diga que o machismo e a opressão sobre a mulher não foram uma invenção da ditadura militar, ela está presente na história do Brasil, só que, no período da ditadura, isso se potencializa pela violência do próprio regime.

Vamos ao livro?

Vou logo avisando que vocês sentirão um certo estranhamento quando lerem o livro. Eu senti por uma simples razão: em um primeiro momento, tive problemas para identificar o estilo de cada personagem. O estilo a que me refiro é a voz de cada personagem que obedece às diferenças sociais. O livro “As Meninas” é dividido em 12 capítulos, tendo três narradoras contando suas histórias em primeira pessoa, além de um narrador onisciente. A dificuldade reside no foco narrativo, que muitas vezes se alternam. E os monólogos interiores, as memórias, são alguns dos recursos que Lygia Fagundes Telles nos oferece com muita elegância para identificá-las.

Mas, à medida que exploramos as histórias, que as intimidades são reveladas, podemos identificar a linguagem utilizada por cada uma delas. O pensamento de Ana Clara, cuja história é cercada de tragédias, é muitas vezes confuso. Mas com o tempo vocês conseguirão sacar que não é tão difícil assim, basta um pouco de atenção. Lorena, por exemplo, é uma menina culta e tem um nível de sofisticação intelectual, mas totalmente burguesa. Estou contando a minha dificuldade, mas pode ser que nenhum de vocês tenham essa dificuldade.

O enredo se passa em um pensionato católico onde as freiras de uma certa maneira tornaram-se cúmplices. Para ser mais preciso, o quarto de Lorena, por ser mais acolhedor, e por elar ter a melhor situação financeira, tornou-se o ponto de encontro das amigas. É nesse quarto que Lygia Fagundes Telles nos apresenta cada personagem. Lorena é a personagem central da trama, o elo entre as meninas. E é a partir de suas memórias e monólogos que os detalhes da narrativa vão se desenrolando.

As personagens se diferem em classe social, ideologia e personalidade. Lorena, estudante de Direito, é a jovem oriunda de uma família tradicional e de classe social elevada. Uma jovem sonhadora, romântica, virgem, amante de poesia e Jimmy Hendrix, que não tem interesse nenhum por política, vive em um mundo imaginativo onde cria história para si própria, muitas vezes tendo o amor como foco. Idealiza um amor platônico com um médico mais velho, casado e com filhos, a quem chama de M.M. O quarto de Lorena funciona como um espaço de fuga, perfeito e organizado. É ali que Lorena vive totalmente ausente do mundo exterior, vivendo o conforto familiar perdido, que sua família decadente não lhe pode mais proporcionar.

 “Sentei na cama. Era cedo para tomar banho. Tombei para trás, abracei o travesseiro e pensei em M.N., a melhor coisa do mundo não é beber água de coco verde e depois mijar no mar, o tio da Lião disse isso, mas ele não sabe, a melhor coisa mesmo é ficar imaginando o que M.N. vai dizer e fazer quando cair meu último véu. O último véu! escreveria Lião, ela fica sublime quando escreve, começou o romance dizendo que em dezembro a cidade cheira a pêssego, imagine, pêssego. Dezembro é tempo de pêssego, está certo, às vezes a gente encontra as carroças de frutas nas esquinas com o cheiro de pomar em redor, mas concluir daí que a cidade inteira fica perfumada, já é sublimar demais” (pag 3)

Lorena tinha dois irmãos gêmeos, Rômulo e Remo, e um deles matou o outro sem querer com um disparo de arma. Não sabemos se existe verdade nessa história, o que confirma o fato de Lorena viver em um mundo da imaginação, e vermos um conflito entre o seu interior psicológico e o exterior que a persegue, e onde ela habita.

Outra personagem é Lia, estudante de Ciências Sociais, cujo apelido é Lião, filha de um ex-nazista e uma mãe baiana. Tem uma militância política intensa, uma comunista, que tem como referências teóricas Hannah Arendt, totalmente intensa e comprometida com as causas sociais. Flertou com o homossexualismo antes de entrar na universidade.

Vive um relacionamento com um revolucionário que é preso e torturado pelos militares. Suas convicções parecem muito com as de Lênin, são inquebrantáveis. É a personagem que mais difere das demais. Não possui vaidade, é uma menina com uma aparência mais desleixada. O que importa para Lia são os acontecimentos de sua vida militante, ou seja, com a realidade objetiva. Conheceu Miguel e se apaixonou, e ela só espera ele sair da prisão para fugir do país.

“Nunca o povo esteve tão longe de nós, não quer saber. E se souber ainda fica com raiva, o povo tem medo, ah! Como o povo tem medo. A burguesia toda aí esplendorosa. Nunca os ricos foram tão ricos, foram tão ricos (...). Resta a massa dos delinquentes urbanos. Dos neuróticos urbanos. E a meia-dúzia de intelectuais (...). Não sei explicar, mas tenho mais nojo de intelectual do que de tira (pag 9)

Ana Clara é a personagem mais sofrida das três amigas, perdeu a mãe ainda criança, nunca conheceu o pai, teve uma infância marcada pelo sofrimento, pelos abusos. Ela se tornou uma modelo fotográfica, mas gastava seu dinheiro com luxos e drogas e sempre recorria a Lorena. Seu único amor se chamava Max, um traficante que facilitava o acesso às drogas, mas que ironicamente era sua referência sobre amor verdadeiro. Ana Clara, estudante de Psicologia, é a mais bonita das três, viciada em drogas. Numa passagem do romance, Ana Clara narra sobre o seu passado:

 

“Minha mãe já tinha apanhado feito um cachorro e agora estava deitada e encolhida gemendo, gemendo, aí meu Jesus aí meu Jesus, meu Jesusinho. Mas o Jesusinho queria distância da gente. Então catei a minha primeira barata que passou pelo fogão e joguei dentro da panela de sopa. Aí parei de chorar chorava de ódio e o choro de ódio é estimulante as minhas melhores ideias nasceram do ódio. Fiquei olhando a barata atravessar num nado de peito toda piscina de sopa e transpor a ilha enrugado a ilha enrugado que era a folha de couve e chegar em outra margem juntando as mãos e pedindo pra sair da panela fervente. Chegou a subir até a borda com as asas compridas pingando e me olhou sentimental como sentimental como a minha mãe me olhava aí meu Jesus meu Jesusinho. Com a colher empurrei a baratona profundo não. Madre Alix não quero mentir agora. Agora não. Não tive pena nem nada quando ela veio me dizer que tinha de tirar mais um filho porque o Sérgio não queria nem saber, nesse tempo era o Sérgio. ‘Não quero nem saber’, ele disse dando-lhe um bom pontapé. Uivou de desgosto o dia inteiro e nessa noite mesmo tomou formicida. Morreu mais encolhidinha do que uma formiga, nunca pensei que ela fosse assim pequena. Escureceu e encolheu como uma formiga e o formigueiro acabou. Rua dos Guaianases fundos. Não tinha cal, mas tinha violão e futebol. O Gaúcho também cantava. Chutou na perfeição. Ou foi aquele outro. Não interessa. “Ele matou seu irmãozinho” – ela choramingou apertando a barrigona. Quando voltei de noitinha a primeira coisa que vi foi a lata aberta no chão. Fiquei olhando. Não chorei nem nada, mas por que havia? Não senti nada” (pág. 72)

Ana Clara vai se casar com um homem rico e tradicional, por quem guarda uma certa repulsa. Mas esse sentimento esbarra em um outro muito mais potente, que é ter uma vida confortável proporcionada por essa união. Entre todos os traumas vividos por Ana Clara, os abusos sofridos por ela e por sua mãe durante a sua infância eram o maior fantasma que a perseguia. Em suas memórias, a lembrança desses abusos era constante:

“A memória tem um olfato memorável. Minha infância inteira é feita de cheiros. O cheiro frio do cimento da construção mais o cheiro de enterro morno daquela floricultura onde trabalhei enfiando arame no rabo das flores até chegar à corola porque as flores quebradas tinham que ficar de cabeça levantada na cesta ou na coroa. (...). Comigo vai ser diferente. Di-ferente repetia com os ratos que roque-roque roíam meu sono naquela construção embaratada, di-ferente, di-ferente, repeti enquanto a mão arrebentava o botão da minha blusa. Onde será que foi parar meu botão eu disse e de repente ficou tão importante aquele botão que saltou quando a mão procurava mais embaixo porque os seios já não interessavam mais. Por que os seios não interessavam.” (pág. 30)

Ana Clara se lembra de uma construção onde sua mãe vendia marmitas e onde, também, ela se prostituía, sofrendo abusos sexuais do dentista chamado de Dr. Algodãozinho.

Essas amigas, como já disse, são mulheres oriundas de meios diferentes, com sonhos, convicções e interesses diferentes. No entanto, em alguns momentos da narrativa, elas apresentam alguns temas que são comuns a ambas. E esses temas dizem respeito à conjuntura da época que em estão vivendo. Em um momento falam sobre independência financeiras, desejos e sonhos de encontrar alguém, casamentos e filhos.

“Ana Clara distendeu as pernas. Deslizou pelo corpo nu as mãos abertas. Fechou-as na altura do ventre e golpeou-os com fúria. O olhar intenso se fixou no púbis. Deixou tombar sobre ele a mão fechada num último murro enfraquecido. Mais depressa. Mais chateação. “Engravidar de um duro desses. E agora dorme como um anjo. Pois agora não dorme” (pg82;83)

“As meninas” é uma obra que se caracteriza pela fragmentação da memória e a pluralização das vozes que guiam o fluxo de toda a narrativa. O enredo se dilui no fluxo de consciência das personagens. Os personagens, de uma maneira ou de outra, vivem o presente, vivem os seus medos e seus fantasmas, vivem o presente com lembranças do passado. Todas buscam a procura de um futuro que ainda é incerto, vivem a grande trama do medo, do isolamento e a angústia, como os indivíduos do mundo contemporâneo.

 

“Lembro da ampulheta quebrada, entrei no escritório do pai pra pegar o lápis vermelho e esbarrei no vidro do tempo. Fiquei em pânico, vendo o tempo estacionado no chão: dois punhados de areia e os cacos. Passado e futuro. E eu? Onde ficava eu agora que o era e o será se despedaçara? Só o funil da ampulheta resistira e no funil, o grão de areia em trânsito, sem se comprometer com os extremos. Livre” (pág. 237).

A ampulheta é um objeto simbólico de extrema importância. Lia, ao falar da ampulheta quebrada no escritório do pai, faz referência ao tempo que parou, a mais pura metáfora sobre o tempo discursivo da narrativa de Lygia, e também ao tempo em que as meninas vivem no Pensionato Nossa Senhora de Fátima.

Os homens, no livro, aparecem pouco e não temos tanto acesso a eles. São ora fruto de amor ou de pena, ora atores de ameaças e, mesmo assim, não são mal representados: são apenas elementos coadjuvantes da história.

A pergunta que fica é a seguinte: como esse livro, publicado em 1973, época de chumbo do Brasil, driblou a censura da época? A resposta talvez esteja na estruturação textual do livro, onde vozes distintas não podem ser captadas por nenhum censor, nem muito menos por um leitor desatento que se desliga das entrelinhas do livro. Isso faz de “As Meninas” um livro muito especial, que merece um lugar de HONRA na sua estante.


Data: 21 dezembro 2021 (Atualizado: 21 de dezembro de 2021) | Tags: Romance


< Perdoa-me por me traíres A Paixão Segundo G.H. >
As meninas
autor: Lygia Fagundes Telles
editora: Livraria José Olympio
gênero: Romance;

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