Metamorfose
Escrita pelo poeta romano Ovídio por volta do ano 8 d.C., “Metamorfoses” consolidou-se como uma das obras mais influentes da literatura universal. Ao longo de quinze livros e mais de duzentos mitos, o autor tece uma vasta tapeçaria narrativa em que a única constante é a transformação. Ambientada na Era de Ouro de Roma, sob o governo de Augusto, a obra afasta-se do tom patriótico de seus contemporâneos para mergulhar nos caprichos dos deuses e nas paixões dos mortais. Mais do que um mero compêndio de mitologia, o épico de Ovídio explora a fragilidade da identidade e a impermanência da vida, constituindo uma ponte atemporal para a compreensão da natureza humana.
Vamos à resenha?
O conceito central de “Metamorfoses” é a mutabilidade. Nada permanece igual no universo de Ovídio; a única coisa constante é a própria mudança. Trata-se de um poema épico e mitológico dividido em 15 livros, reunindo mais de 250 mitos gregos e romanos. O fio condutor que une todas essas histórias diferentes é a transformação: seres humanos e deuses convertem-se em plantas, animais, pedras ou constelações.
O amor e a paixão aparecem como forças avassaladoras, viscerais e frequentemente responsáveis pelas metamorfoses. Também se destacam o poder dos deuses, seus caprichos, atos de vingança e formas de justiça sobre os mortais. Temas como a natureza humana, a identidade, a dor, o orgulho (hybris) e o destino permeiam toda a obra.
“Metamorfoses” não é apenas um catálogo de mitos antigos, mas um espelho da própria condição humana. Sua influência atravessou os séculos, marcando profundamente a arte e a literatura ocidentais, da Renascença aos dias atuais.
Ovídio começa com a transição do Caos primordial – uma massa rústica e desordenada – para o Cosmo organizado por um deus ou pela própria força da natureza. O poeta descreve a separação dos elementos: o fogo subindo aos céus, o ar logo abaixo, e a terra e a água encontrando seus lugares no universo.
“Metamorfoses” inicia-se de forma grandiosa e filosófica. Antes de apresentar heróis ou deuses específicos, Ovídio narra a origem do universo, partindo de um estado primordial de desordem: o caos.
“A natureza era toda igual, um disforme
Caos, constituído de matéria grosseira,
Nada além de uma massa inerte, dentro da qual uma tensão
Discordante de átomos guerreava: não havia sol
Para iluminar o universo, não havia lua
Com raios prateados completando vagarosamente sua silhueta crescente.
Nenhuma folha balançando ao vento;
Não havia mar para além da linha da praia.
Terra, para ser exato, havia, e o ar e o oceano,
Mas terra em que o homem não poderia ficar, e água
Em que nenhum homem poderia nadar, e ar que nenhum homem poderia respirar.
Ar sem luz, substância em eterna transformação,
Sempre em guerra; sem que nenhum único corpo
Quente lutasse com o frio, o molhado com o seco, o duro
Lutasse com o macio, as coisas tendo um peso contido
Por coisas sem peso.
Até que Deus, ou a bondosa natureza,
Arrumou tudo e separou
O céu da terra, a água da terra, nosso ar
Da estratosfera, uma liberação total,
E então a coisas evoluíram, e fora do caos.
Cada coisa encontrou o seu lugar, e se ajeitou numa ordem eterna” (pág. 9)
Ovídio inicia “Metamorfoses” invocando os deuses e pedindo sua inspiração para narrar as origens do mundo e sua evolução até o tempo presente (o reinado de Júlio César). Logo nos versos iniciais, o poeta apresenta o tema central da obra — a transformação — e anuncia a amplitude de seu projeto narrativo:
“ Minha intenção é contar histórias sobre corpos que
Assumem diferentes formas: os deuses,
Que promovem essas transformações
Me ajudarão – pelo menos assim espero – com um longo poema
Que discorre sobre o início do mundo e se estende até os nossos dias.” (pág. 9)
Diferentemente dos demais seres vivos, que mantêm o olhar voltado para o chão, o homem foi criado com o rosto voltado para os céus, sinal de sua origem elevado e de sua inteligência superior. Segundo Ovídio, foi Prometeu quem moldou os seres humanos a partir de uma mistura de água da chuva e lama, matéria que ainda conservava elementos celestiais. Dessa forma, o homem teria sido criado à imagem dos deuses.
A humanidade passou por quatro eras:
A Era do Ouro foi um tempo de perfeição absoluta regida por Saturno. Não havia juízes, tribunais ou leis escritas, pois o homem era bom por natureza e agia com retidão, sem medo de punições. A terra desfrutava de uma primavera eterna e oferecia espontaneamente tudo o que era necessário para a vida. Rios de leite e néctar corriam livremente, enquanto o mel escorria das fendas dos carvalhos. Não havia exércitos nem cidades cercadas por fossos ou muralhas. O homem não viajava pelos mares: cada pessoa permanecia onde havia nascido, satisfeita com os limites do próprio mundo.
A Era da Prata teve início com a queda de Saturno e a ascensão de Júpiter. Sob seu governo, ocorreu a primeira grande transformação do mundo. A primavera eterna chegou ao fim, dando lugar às quatro estações do ano: primavera, verão, outono e inverno. Pela primeira vez, os seres humanos experimentaram os rigores do frio e do calor extremos. As mudanças climáticas trouxeram novas exigências à vida humana. As pessoas deixaram de viver ao ar livre e passaram a construir abrigos, como cavernas, cabanas feitas de galhos e estruturas cobertas por cascas de árvores. O trabalho foi instituído nesse período. A terra já não oferecia seus frutos espontaneamente; tornou-se necessário cultivá-la. Foi então que os bois passaram a ser submetidos ao jugo, e os homens aprenderam a semear, arar e colher para garantir sua subsistência.
A Era do Bronze representa um estágio de decadência em relação à Era da Prata. Nessa fase, o temperamento humano muda drasticamente: os homens tornam-se mais agressivos e mais propensos à guerra. Embora já guerreiros, ainda não eram perversos nem sacrílegos. Havia algo que impedia o mal absoluto.
A Era do Ferro marca o auge da corrupção e da degradação humana. Nela desaparecem a modéstia, a lealdade, a verdade e a boa-fé, substituídas pela fraude, pela traição, pela violência e pela ganância. O homem deixa de se contentar com os recursos oferecidos pela superfície da terra e passa a escavar suas profundezas em busca de metais preciosos. O ferro alimenta as guerras; o ouro, a ambição e a corrupção. Nesse período, o homem desafia os mares transformando árvores em navios para buscar riquezas em terras distantes, o que Ovídio vê como violação da natureza. A degradação atinge ainda as relações familiares e sociais. A confiança desaparece, e os laços de convivência são corroídos pela suspeita e pelo interesse. O convidado não se sente seguro com o anfitrião; genros e sogros vivem em conflito; e até irmãos tornam-se rivais. Maridos e esposas tramam uns contra os outros. A deusa Astreia, a deusa da justiça, é a última das divindades a abandonar a Terra, deixando a humanidade entregue ao seu próprio caos.
A cada era, os seres humanos se corrompem cada vez mais, guerreando entre si e abusando de seu poder sobre a Terra e os animais. Fartos dessa degradação moral, os deuses, liderados por Júpiter, decidem destruir a humanidade por meio de um grande dilúvio, que extermina todos os mortais, exceto dois sobreviventes devotos: Decalião e Pirra. Esses dois sobreviventes, após humildemente pedirem instruções aos deuses para restaurar a vida, lançam pedras por cima dos ombros, as quais se metamorfoseiam em uma nova raça humana. O mundo também passa por um processo de renovação quando Faetonte desvia a carruagem de Febo, incendiando a Terra.
Nesses episódios, vemos a essência do primeiro livro: a metamorfose como escape ou punição. O mito de Apolo e Dafne constitui uma das narrativas centrais do Livro 1. Nele, Ovídio demonstra que nem mesmo os deuses escapam do poder do Amor (Cupido). A transformação de Dafne em loureiro não é um “truque de mágica”, mas uma mudança de estado físico que preserva a sua integridade espiritual e liberdade diante de uma força avassaladora.
Já o episódio de Júpiter e Io introduz o tema da violência divina e do ciúme implacável de Juno. Transformada em novilha para ocultar os desejos de Júpiter, Io torna-se símbolo do sofrimento causado pelos caprichos divinos.
A essência de “Metamorfoses” é o movimento. O Livro 1 demonstra que a história do mundo consiste em uma sucessão de formas que se desfazem e se refazem, movidas pela vontade dos deuses, pelas falhas humanas e, acima de tudo, pela capacidade da natureza de se reinventar.
O Livro 2 dá continuidade a essa visão de que o universo é instável, mas desloca o foco da criação do mundo para as consequências catastróficas da ambição humana e dos caprichos divinos.
A narrativa se abre com o mito de Faetonte, filho de Febo, que tenta conduzir o carro do Sol (seu pai, Febo) para provar sua linhagem divina. No entanto, ele não tem a habilidade necessária para controlar as forças da natureza. Sua imprudência quase incendeia o mundo, explicando miticamente a formação dos desertos e a cor da pele dos povos africanos. Para impedir a catástrofe, Júpiter o abate com um raio. Após sua morte, suas irmãs, as Helíades, transformam-se em choupos (árvores) de tanto chorar.
O Livro 2 também explora como os sentimentos humanos podem moldar o sentimento dos indivíduos. Aglaura, consumida pela inveja diante do de sua irmã Herse e o deus Mercúrio, acaba petrificada. Nesse episódio, a metamorfose funciona como uma exteriorização do estado interno da personagem: Aglaura torna-se uma estátua de pedra negra, refletindo sua alma sombria e endurecida.
Ovídio encerra o Livro 2 com o episódio de Júpiter e Europa, demonstrando que o poder absoluto não garante dignidade quando o desejo fala mais alto. Para seduzir e raptar a princesa fenícia, o rei dos deuses abandona sua majestade e assume a forma de um manso touro branco.
Como sugere o poeta, a majestade e o amor não falam a mesma língua. Para conquistar o objeto de seu desejo, Júpiter precisa renunciar temporariamente à imponência de sua condição divina e recorrer ao disfarce e ao engano.
Se o Livro 1 narra a passagem do caos para a ordem, o Livro 2 revela a fragilidade dessa ordem recém-estabelecida. A transformação continua sendo o mecanismo central da narrativa, utilizada tanto para punir o excesso de confiança quanto para satisfazer os instintos.
O Livro 3 marca uma transição importante na narrativa: saímos da cosmogonia e das divindades puras para focar na fundação de Tebas e nas tragédias que envolvem sua linhagem real. A essência do livro gira em torno da relação perigosa entre visão e conhecimento, mostrando como os humanos podem ser punidos por verem aquilo que lhes é proibido.
A narrativa começa com Cadmo à procura de sua irmã Europa. Seguindo uma vaca enviada pelos deuses como guia, ele chega ao local onde fundará Tebas. Antes, porém, precisa cumprir uma missão: matar uma serpente sagrada consagrada a Marte. Após derrotá-la, semeia seus dentes na terra, de onde surgem guerreiros armados que imediatamente passam a lutar entre si até se matarem. O episódio mostra que Tebas nasce da terra, mas também do conflito e do sangue.
Como já foi dito, o tema central do Livro 3 é a transgressão visual. Acteão, por exemplo, é um caçador que, por acidente, vê a deusa Diana nua. Sua punição é imediata: é transformado em cervo e acaba devorado pelos próprios cães. A essência aqui é a ironia cruel: o caçador torna-se a caça.
A história de Sêmele, filha de Cadmo e mãe de Baco (Dionísio), constitui um dos relatos mais dramáticos do Livro 3. O mito, posteriormente desenvolvido de forma magistral por Eurípides em “As Bacantes” (já resenhada neste site), explora os perigos de uma aproximação excessiva da essência divina.
Sêmele, uma mortal de extraordinária beleza, chama a atenção de Júpiter (sempre ele!) e engravidando dele. Quando Juno (esposa de Júpiter), descobre a traição do marido, decide destruir a jovem tebana. No entanto, em vez de recorrer à força bruta, ela utiliza a astúcia.
Disfarçada de uma velha serva chamada Béroe, Juno aproxima-se de Sêmele e semeia a dúvida em sua mente. Sugere que seu amante pode ser um impostor e a convence a exigir uma prova de sua divindade.
Ignorando a cilada em que caiu, aborda Júpiter e lhe pede um presente. Júpiter, apaixonado, jura fazer qualquer coisa que ela pedir. Quando ela revela o desejo de vê-lo em sua forma total, Júpiter toma um susto. Ele sabe o que aconteceria a Sêmele se ele revelasse a sua verdadeira natureza. Preso ao juramento, ele não recusa. Júpiter escolhe seus raios mais leves e menos destrutivos, mas, mesmo assim, a visão é insuportável para Sêmele, que acaba consumida pelo fogo divino.
O mito mais famoso do livro 3, sem dúvida, o de Narciso e Eco. Tudo começa com o nascimento de Narciso, jovem de beleza perturbadora. Sua mãe, Liríope, consulta o adivinho Tirésias para saber se o filho terá uma velhice longa. A resposta é profética:
“Sim, se ele nunca descobrir a si mesmo” (pág. 61)
Traduzindo: se Narciso chegar a conhecer a si mesmo, seu destino será fatal.
E Eco, quem era ela? Eco era uma ninfa tagarela que costumava distrair Juno com longas conversas para que outras ninfas pudessem deitar-se com Júpiter sem serem pegas. Quando Juno finalmente percebeu isso – como era de costume –, puniu Eco de forma implacável: ela perdeu a capacidade de iniciar uma conversa e passou a repetir apenas as últimas palavras que ouvia.
Certo dia, ao avistar Narciso durante uma caçada, Eco apaixonou-se perdidamente por ele. Quando o jovem se afastou de seus companheiros e se perdeu na floresta, começou a chamá-los:
“Tem alguém aí?” E Eco respondeu: “Aí!” (pág. 62)
O diálogo prosseguiu de forma confusa até que Eco se revelou e tentou abraçá-lo. Narciso, extremamente orgulhoso e frio, rejeitou-a bruscamente. Humilhada, Eco escondeu-se em cavernas. Sua dor e autoestima estavam em frangalhos. Sua dor era tão profunda que seu corpo foi definhando, até que nada sobrou além de sua voz, que continua repetindo pelos montes os sons produzidos por outras pessoas.
Não foi a primeira vez que Narciso esnobou aqueles que o amavam. Homens e mulheres sofriam igualmente com sua indiferença. Um deles lançou uma maldição. E foi nesse momento que a deusa Nêmesis (a vingança) ouviu a súplica.
Certo dia, exausto e com sede, Narciso encontrou uma fonte de águas tão cristalinas que nunca havia sido tocada por pastores ou animais. Ao inclinar-se para beber, deparou-se com uma beleza extraordinária. Sem perceber que contemplava a própria imagem refletida na água, apaixonou-se instantaneamente.
Ele tentou abraçar o objeto do seu desejo, mas a imagem se desfazia ao toque na água. Narciso passa então a sofrer a mesma dor de Eco: um amor impossível de ser consumado. Aos poucos, Narciso compreende a verdade: que a imagem é o seu próprio reflexo. Nesse instante, a profecia de Tirésias se cumpre. O conhecimento de si não traz libertação, mas sofrimento. Incapaz de possuir aquilo que ama, Narciso consome-se em dor.
Ovídio constrói Narciso e Eco como espelhos um do outro. Eco tem voz, mas não tem vontade própria, só repete as palavras alheias. Narciso tem vontade própria, mas sua comunicação é fechada em si mesmo. Essa foi a primeira profecia de Tirésias, o destino de Narciso.
Ao se apaixonar pelo próprio reflexo. A essência do mito é a incapacidade de Narciso de distinguir o “eu” do “outro”. Ele não morre apenas por egoísmo, mas por um erro de percepção visual. Ele transforma-se na flor que leva o seu nome, eternizando a sua beleza estática à beira da água.
O livro 3 termina com a resistência do rei Penteu ao novo deus, Baco (Dionísio). Penteu, Filho de Equíon e neto de Cadmo, Penteu assume o trono de Tebas. Ao contrário do avô, é um racionalista cético, considera os ritos báquicos uma fraude e uma simples desculpa para a embriaguez e a desordem.
Quando o culto de Baco se espalha pela Grécia, Penteu fica furioso. Convencido de que o deus não passa de um impostor, Penteu ordena a seus servos que o capturem. Eles não conseguem encontrar o próprio Baco, mas trazem à sua presença um de seus discípulos, Acetes. Interrogado por Penteu, Acetes relata os prodígios associados ao deus e tenta adverti-lo sobre seu poder. Penteu ignora todos os avisos, manda prendê-lo e submetê-lo a castigos. Contudo, de forma misteriosa, as correntes se soltam e as portas da prisão se abrem sozinhas, evidenciando a intervenção divina.
Incapaz de conter sua curiosidade e raiva, Penteu resolve ir pessoalmente ao Monte Citerão para observar os ritos proibidos das bacantes (seguidoras de Baco). Sob o efeito do delírio báquico, a percepção das mulheres é alterada: elas não enxergam Penteu como um homem ou como um rei, mas como um javali selvagem que invadiu um espaço sagrado. Entre as mulheres, encontra-se sua própria mãe, Agave, acompanhada das irmãs. Dominadas pelo frenesi divino, elas atacam Penteu com violência. Agave arranca a cabeça do próprio filho, sem perceber quem realmente matou. O rei é despedaçado pelas próprias parentes e oferecido ao deus Baco, que tanto desprezou.
O destino de Penteu encerra o ciclo de horrores do Livro 3. A cidade de Aterrorizada pelos acontecimentos, Tebas acaba aceitando o culto a Baco.
Mais uma vez, a metamorfose ocupa o centro da narrativa. Neste caso, a transformação acontece nos olhos das bacantes, que veem uma fera onde existe um homem. Essa escolha torna a tragédia ainda mais irônica e cruel, pois demonstra que a realidade pode ser deformada pela ação divina sem que a vítima tenha qualquer possibilidade de defesa.
Se os primeiros livros tratavam da criação do mundo e das consequências da ambição humana, o Livro 3 concentra-se na percepção e na identidade. A grande lição do Livro 3 talvez seja: aquilo que vemos pode nos transformar, mas também pode nos destruir.
O Livro 4 encerra o ciclo de Tebas e aprofunda temas como a resistência às divindades, o poder transformador do amor trágico e a inevitabilidade do destino. Sua principal característica é a presença de narrativas dentro de narrativas.
Nesse livro, as filhas de Mínias recusam-se a participar do culto a Baco. Enquanto a cidade se entrega ao êxtase religioso, elas permanecem em casa fiando lã e contando histórias.
A primeira história é a de Píramo e Tisbe, dois jovens apaixonados impedidos de viver seu amor livremente. Separados por suas famílias, comunicam-se através de uma fenda na parede que divide suas casas e combinam um encontro secreto. Contudo, um mal-entendido leva ambos a acreditar que o outro morreu. Desesperados, acabam tirando a própria vida. Como memorial dessa tragédia, os frutos da amoreira, antes brancos, tornam-se vermelhos, tingidos pelo sangue dos amantes. A essência do mito está na força do amor, capaz de superar barreiras físicas, mas incapaz de escapar dos erros e mal-entendidos que conduzem ao destino trágico.
A terceira filha de Mínias conta a história de Salmacis e Hermafrodito. Salmacis é apresentada por Ovídio como uma ninfa vaidosa e preguiçosa. Em vez de caçar ou praticar exercícios, ela prefere banhar-se, colher flores e admirar a própria beleza refletida nas águas. Ao avistar Hermafrodito, filho de Mercúrio e Vênus, ela fica fascinada por sua beleza juvenil. Tenta seduzi-lo, mas é rejeitada. Mais tarde, quando o jovem mergulha em um lago, Salmacis o segue e o envolve à força em seus braços.
Ovídio descreve esta cena de forma intensa, comparando-a a uma serpente enrolada em uma águia. Enquanto Hermafrodito luta para se soltar, Salmacis dirige uma prece aos deuses:
“Que nunca chegue o dia em que irão nos separar.” (pág. 82)
Seu desejo é atendido. Os corpos de Salmacis e Hermafrodito fundem-se em um só, criando um ser com características de ambos os sexos. Surge, assim, uma nova identidade, resultado da união irreversível dos dois.
A essência dessa narrativa reside no desejo possessivo levado ao extremo. A metamorfose simboliza a anulação das fronteiras entre dois indivíduos, transformando o amor em uma força capaz de apagar a individualidade do outro.
Após a terceira filha de Mínias concluir sua história, as três irmãs continuam tecendo e ignorando as celebrações em homenagem a Baco. No entanto, sinais inquietantes começam a surgir. Sons de tambores ecoam pela casa, perfumes desconhecidos invadem o ambiente e seus teares ficam cobertos por folhas verdes e ramos de hera. A noite chega, mas a casa enche-se de uma luz sobrenatural, semelhante ao brilho de inúmeras velas. Assustadas, as irmãs tentam se esconder nos cantos escuros. Subitamente, membranas começam a unir seus dedos e seus braços tornam-se asas. Em pouco tempo, as três se transformam em morcegos. Penduram-se no teto, sem conseguir falar.
Ovídio também narra as aventuras de Perseu, filho de Júpiter (Zeus) e da mortal Dânae. O herói derrota a Górgona Medusa utilizando um escudo de bronze como espelho, evitando ser petrificado. Nesse episódio, o poeta relembra a origem do monstro: outrora uma jovem de extraordinária beleza, Medusa foi punida por Minerva após ter sido violentada por Netuno em um templo dedicado à deusa. Seus cabelos transformaram-se em serpentes, e seu olhar passou a petrificar todos aqueles que o encontrassem. Ovídio relata ainda que, após derrotá-la, Perseu depositou a cabeça da Medusa sobre algas marinhas espalhadas pela areia. O contato com o sangue da Górgona provocou uma nova metamorfose: as plantas endureceram e transformaram-se em corais. Mais uma vez, a transformação atravessa as fronteiras entre diferentes formas de vida, convertendo matéria orgânica em estrutura mineral.
Se o Livro 3 era sobre o “ver”, o Livro 4 é sobre “contar histórias” e “cruzar fronteiras”. As irmãs usam a história para ignorar o divino, mas fracassam. Paredes separam amantes, corpos fundem-se em um só, sangue vira pedra. O livro termina com a transformação de Cadmo e sua esposa, Harmonia, em serpentes inofensivas, encerrando o ciclo trágico da fundação de Tebas de forma melancólica.
A lição que fica do Livro 4 é que nem a clausura doméstica nem o heroísmo épico estão a salvo da mudança imposta pelos deuses.
O Livro 5 começa com um banquete de núpcias que termina em massacre. Fineu, tio de Andrômeda e seu antigo pretendente, interrompe a festa para reivindicar a noiva. Isso desencadeia uma batalha sangrenta na qual Perseu, em desvantagem numérica, vê-se cercado pelos aliados do rival.
Ovídio descreve a cena não como um duelo heroico, mas como uma confusão generalizada. Perseu luta inicialmente com armas convencionais, mas logo percebe que não conseguirá vencer apenas pela força da espada. Então decide recorrer ao seu recurso mais terrível: a cabeça da Medusa. Antes de utilizá-la, adverte seus aliados:
“Se algum amigo aqui estiver, que vire seu rosto para o outro lado.” (pág. 99)
À medida que os inimigos olham a Medusa, são transformados em estátuas de mármore, mantendo para sempre as expressões de fúria ou medo que exibiam no momento do combate. Fineu, desesperado, implora perdão a Perseu, que o obriga a olhar para a cabeça da Medusa e o transforma em uma estátua, que permanece para sempre em uma pose de súplica.
Após esse episódio, Perseu continua a vagar pelo mundo, utilizando sempre a cabeça da Medusa para transformar em pedra aqueles que se tornam seus inimigos.
A narrativa muda de tom quando Minerva visita as Musas no Monte Hélicon. Ao chegar, percebe nove pegas empoleiradas nos galhos de uma árvore, imitando incessantemente as vozes das pessoas ao redor. Intrigada, pergunta quem são aquelas aves. Uma das Musas explica que se trata das Piérides, filhas de Píero, jovens mortais que ousaram desafiar as próprias Musas para uma competição de canto.
Ela conta que as noves Musas escolheram uma delas – Calíope – para cantar em nome de todas. Em sua apresentação, Calíope narra o mito de Ceres, a deusa dos grãos (conhecida em grego como Deméter).
Calíope relata em sua canção que, certa vez, Plutão deixara o submundo para inspecionar seus domínios quando foi visto por Vênus, a deusa do amor. Desejando ampliar sua influência até mesmo sobre o reino dos mortos, a deusa ordena que Cupido dispare uma flecha contra Plutão. O plano funciona: tomado por uma paixão súbita e irresistível, o deus apaixona-se por Prosérpina, filha de Ceres, e a leva consigo para o submundo.
A ninfa Ciane tenta convencer Plutão a não raptar Prosérpina, mas ele a ignora. Ciane, de tanto chorar, transforma-se em água, tornando-se um só lago.
Ceres, que não sabia o que havia acontecido com a sua filha, procura por ela em toda a face da Terra. Ceres arranca os cabelos em luto quando vê o manto de Prosérpina na piscina das ninfas. Ceres amaldiçoa toda a Sicília, onde Plutão e Prosérpina haviam entrado no submundo. Por ser a deusa da colheita, as plantas começam a morrer em todo mundo.
É então que Aretusa revela a Ceres o destino da jovem e informa que Prosérpina se encontra no reino de Plutão. Ceres dirige-se aos céus pedindo que ela seja resgatada Júpiter ouve os apelos de Ceres, mas impõe uma condição: Prosérpina passará seis meses do ano no subsolo com seu marido, Plutão, e os outros seis meses do ano com a mãe. Quando retorna à Terra, Ceres recupera sua alegria e a natureza floresce, dando origem à primavera e ao verão. Quando desce novamente ao submundo, a tristeza da deusa provoca o outono e o inverno.
Após a apresentação de Calíope, os juízes declaram as Musas vencedoras. Revoltadas com o resultado, as Piérides passam a insultar as deusas. Como castigo pela arrogância e pela língua solta, elas são transformadas em pegas, aves conhecidas por sua tagarelice incessante.
Em resumo, o Livro 5 trata do conflito entre a ordem e a insolência. Seja pela força bruta de Fineu, seja pelo talento das Piérides, aqueles que desafiam os heróis protegidos por Júpiter ou a autoridade das Musas acabam sendo punidos por meio da metamorfose. Transformados em pedra, aves ou outras formas de existência, tornam-se exemplos dos limites que os mortais não devem ultrapassar.
O Livro 6 é um dos mais intensos e sombrios da obra de Ovídio. seu tema central é a húbris (a arrogância humana diante dos deuses) e as vinganças divinas, que se tornam cada vez mais cruéis e desproporcionais.
A narrativa inicia-se com o célebre confronto entre Minerva e Aracne, uma jovem tecelã cuja habilidade lhe rendera fama em toda a região. Convencida de que sua arte superava a da própria deusa, Aracne passa a vangloriar-se publicamente e desafia Minerva para uma competição.
Minerva produz uma tapeçaria que exalta a majestade dos deuses e retrata os castigos infligidos àqueles que ousaram desafiar a autoridade divina. Aracne, por sua vez, cria uma obra tecnicamente impecável, mas de conteúdo provocador: nela aparecem os enganos, disfarces e abusos cometidos pelos deuses, especialmente por Júpiter.
Sua confiança é expressa de forma explícita:
“Eu a desafio e, se perder, não me recusarei a pagar a aposta” (pág. 112)
Enfurecida com a perfeição do trabalho de Aracne e com o tema insultoso, Minerva destrói a obra e golpeia a moça. Aracne tenta se enforcar de vergonha, mas Minerva a transforma em aranha, condenando-a a tecer para sempre.
“Viva, iníqua moça; continue a viver, mas fique para sempre pendurada, e apenas para mantê-la mais ponderada no futuro, esta punição será reforçada para sempre, e toda a sua descendência” (pág. 116)
Outra narrativa marcante apresentada por Ovídio é a de Níobe, rainha de Tebas. Orgulhosa de sua posição e de sua numerosa descendência, ela comete o erro de se considerar superior à deusa Latona, mãe de Apolo e Diana. Enquanto a deusa possuía apenas dois filhos, Níobe vangloriava-se de ter quatorze.
O castigo vem a seguir. Apolo e Diana matam todos os filhos de Níobe com suas flechas. Incapaz de suportar a dor, seu marido se suicida. Niobe fica paralisada pelo luto e se transforma em uma estátua de pedra que, mesmo sem vida, continua a verter lágrimas, convertendo-se em uma fonte.
Ovídio reforça o poder de implacável dos deuses por meio de outros episódios. Os camponeses da Lícia, por exemplo, são transformados em rãs por Latona após tentarem impedir a deusa de beber água de um lago. Da mesma forma, Mársias, o sátiro que desafiou Apolo em uma competição musical, é derrotado e condenado a ser esfolado vivo pelo deus.
O livro 6 encerra-se com uma história trágica e violenta. Tereu, rei da Trácia e marido de Procne, estupra a cunhada Filomela. Para impedir que ela o denuncie, corta-lhe a língua e a mantém prisioneira. Privada da fala, Filomela encontra outra forma de se expressar: borda sua história em um tecido e o envia secretamente à irmã.
Ao descobrir o ocorrido, Procne é tomada por uma fúria devastadora. Juntas, as irmãs elaboram uma vingança extrema: assassinam Ítis, filho de Procne e Tereu, e servem sua carne ao próprio pai durante um banquete. Quando Tereu descobre a verdade e parte em perseguição às duas mulheres, os deuses intervêm e todos são transformados em pássaros. Tereu torna-se uma poupa; Procne, uma andorinha; e Filomela, um rouxinol.
Há uma ligação forte entre os mitos de Aracne e Filomela. Ambas têm sua voz silenciada — Aracne pela punição divina, Filomela pela violência humana —, mas encontram na arte da tecelagem um meio de preservar a verdade.
Diferentemente dos livros anteriores, no Livro 6 os deuses agem por vingança pura, muitas vezes punindo mortais que tinham razão técnica ou agindo com sadismo.
O Livro 7 é um dos mais complexos de “Metamorfoses”. Seu tom oscila entre o romance trágico, a magia sombria, a vingança e o horror. No centro da narrativa está a feiticeira Medeia
A narrativa começa na Cólquida, para onde Jasão e os Argonautas viajam em busca do velocino de ouro. Ovídio dedica especial atenção ao monólogo interno de Medeia, dividida entre a lealdade ao pai, o rei Eetes, e a sua paixão pelo estrangeiro Jasão. Vencida pelo amor, ela decide ajudá-lo por meio de suas artes mágicas. Medeia lhe fornece ervas, encantamentos e instruções que permitem ao herói dominar os touros que cospem fogo, vencer os guerreiros nascidos da terra e adormecer o dragão que guardava o velocino. Graças a essa ajuda, Jasão triunfa e foge levando o velocino de ouro.
De volta à Grécia, a magia de Medeia adquire um novo papel. Jasão deseja restaurar a juventude de seu pai, Éson, já demasiado velho. Comovida — ou talvez desejosa de demonstrar o alcance de seu poder —, Medeia realiza um elaborado ritual de rejuvenescimento. Em vez de transferir anos da vida de Jasão para o pai, ela recorre a ervas, encantamentos e poções para devolver vigor a Éson, rejuvenescendo-o de forma milagrosa.
Esse feito, porém, também revela a ambiguidade moral da personagem. Depois de conquistar fama como feiticeira capaz de restaurar a juventude, Medeia utiliza a própria reputação para praticar o mal. Ela engana as filhas do rei Pélias (inimigo de Jasão), prometendo rejuvenescer o pai delas também. Ela as convence a esfaquear o próprio pai para libertar o sangue velho, mas desta vez ela não usa a poção real, deixando-o morrer.
O episódio mais sombrio de sua trajetória nasce da traição de Jasão. Depois de tudo o que Medeia fizera por ele — trair a família, abandonar a pátria e usar sua magia em benefício do herói —, Jasão decide repudiá-la e casar-se com a filha de Creonte, rei de Corinto, buscando uma aliança politicamente vantajosa. Consumida pelo ódio e pelo sentimento de traição, Medeia mata a noiva de Jasão por meio de um presente envenenado e causa também a morte de Creonte. Em seguida, para ferir o marido de maneira profunda, ela mata os próprios filhos. Ovídio descreve o horror desse ato de forma direta, apresentado Medeia como uma mãe que faz do sangue dos filhos o instrumento máximo de sua vingança.
Após o crime, Medeia foge em um carro puxado por dragões alados, presente de seu avô Hélio, o Sol. Seu percurso a leva até Atenas, onde se casa com o rei Egeu. Quando Teseu retorna para reivindicar sua posição como herdeiro, Medeia, temendo perder espaço e influência, tenta envenená-lo. No último instante, porém, Egeu reconhece a espada do filho e derruba a taça antes que o veneno seja bebido. Mais uma vez, Medeia escapa, desaparecendo envolta em uma nuvem mágica.
Depois de sua fuga, Ovídio desloca o foco da narrativa e passa a tratar de outros episódios ligados à guerra e à memória, o que nos leva a uma das sequências mais famosas da obra. Surge então o relato de Céfalo, que conta ao rei Éaco a história trágica de seu casamento com Prócris. O casamento dos dois é corroído pela suspeita, pelo ciúme e por sucessivos mal-entendidos. Prócris passa a acreditar que Céfalo a trai com “Aurora” e decide segui-lo em segredo até a floresta. Ao ouvir um ruído entre os arbustos, Céfalo imagina tratar-se de uma fera e arremessa sua lança infalível, matando sua amada esposa por acidente.
Éaco, por sua vez, narra como sua ilha foi devastada por uma terrível peste enviada por Juno. Diante da destruição e da perda de sua população, ele suplica a Júpiter que devolva vida ao lugar. O deus então transforma formigas em seres humanos, dando origem aos Mirmidões, povo célebre por sua disciplina e força.
Os principais temas do Livro 7 dizem respeito ao poder das ervas, das drogas e da magia. Medeia encarna de forma exemplar essa dimensão da transformação química e mágica: por meio de poções, encantamentos e rituais, ela altera corpos, destinos e relações.
Outro eixo fundamental do livro é a paixão como força destrutiva. Tanto Medeia quanto Prócris agem movidas por sentimentos extremos — amor, ciúme, ressentimento, medo da perda — que acabam conduzindo à ruína.
Também se destaca, no Livro 7, a fragilidade da vida humana. Seja pela peste que devasta a ilha de Éaco, seja por um erro de julgamento, como no caso de Céfalo, a existência aparece como algo instável e sujeito a mudanças súbitas. A morte, a perda e a transformação podem surgir a qualquer momento.
O Livro VII encerra, assim, o ciclo das grandes sagas heroicas ligadas a Medeia e Jasão e começa a preparar o terreno para as lendas mais próximas de Atenas e, gradualmente, da tradição que conduzirá a Roma.
Desse modo, o livro termina sob o signo da tristeza e da ironia trágica, preparando o terreno para o Livro 8. Este, por sua vez, se destaca por explorar a tensão entre piedade e impiedade, devoção e transgressão, além de reunir algumas das metamorfoses mais célebres da mitologia clássica, como a história de Dédalo e Ícaro.
O Livro 8 é um dos mais famosos e variados de “Metamorfoses”. Reúne histórias de tragédias familiares e grande feitos de engenho humano.
A narrativa começa com o cerco do rei Minos de Creta à cidade de Mégara. Cila, filha do rei Niso, apaixona-se perdidamente pelo inimigo. Cega de paixão, ela trai o próprio pai e a própria pátria: corta, enquanto ele dorme, a mecha púrpura da qual dependia sua vida e a entrega a Minos, acreditando que assim conquistará o amor do rei de Creta.
O desfecho, porém, é cruel. Minos se horroriza com a impiedade de Cila e a rejeita justamente por causa do crime que ela cometeu em seu favor. Depois de conquistar a cidade, parte com sua frota, deixando-a para trás. Desesperada, Cila lança-se ao mar e agarra-se à popa da embarcação. Nesse momento, o espírito de seu pai, já transformado em ave marinha, investe contra ela. Abandonada e sem lugar no mundo, Cila é metamorfoseada em pássaro. Ovídio constrói aqui uma ironia trágica: Cila destrói tudo o que ama — o pai, a cidade e a própria honra — para obter o objeto de seu desejo, mas é justamente esse desejo que a conduz à ruína. Cila representa a impiedade máxima ao trair o próprio sangue.
Em seguida, Ovídio desloca a narrativa para Creta e introduz um dos episódios mais célebres de toda a mitologia: a fuga de Dédalo e Ícaro. Depois de construir o Labirinto para aprisionar o Minotauro, Dédalo percebe que, embora Minos domine a terra e o mar, ainda não governa os céus. Decide, então, fabricar asas de penas e cera para si e para o filho. Antes do voo, adverte Ícaro a manter-se no meio do caminho: não voar muito baixo, para que a umidade do mar não encharque as penas, nem muito alto, para que o calor do sol não derreta a cera.
Ícaro, porém, deslumbrado, ignora as orientações paternas e sobe cada vez mais. O calor do sol derrete a cera o jovem cai no mar, que desde então passa a chamar-se Mar Icário.
Enquanto Dédalo enterra o filho, uma perdiz (o pássaro Perdix) observa a cena e canta alegremente. Trata-se de Pérdix, sobrinho de Dédalo, um jovem talentoso que o tio, tomado pela inveja, lançara de uma torre no passado. Minerva, porém, salvara o rapaz ao transformá-lo em ave.
A narrativa segue para a Grécia Central com a história do javali de Calidão. O rei Eneu esquece de oferecer sacrifícios a Diana, deusa da caça, e a ofensa é punida com o envio de um javali monstruoso, que devasta os campos da região. Para enfrentá-lo, o príncipe Meleagro reúne alguns dos maiores heróis da Grécia, entre eles a célebre caçadora Atalanta. É ela quem desfere o primeiro golpe no animal, despertando a admiração e o amor de Meleagro.
Depois de matar o javali, Meleagro decide entregar a pele e a cabeça da fera a Atalanta, reconhecendo seu mérito. A escolha, porém, provoca a indignação dos tios do herói, irmãos de sua mãe, Alteia, que se revoltam com a ideia de uma mulher receber tal honra. Furioso, Meleagro mata os próprios tios. A resposta vem de dentro da própria família: consumida pela dor da perda dos irmãos, Alteia lança ao fogo o pedaço de madeira ao qual estava ligada a vida do filho. À medida que a madeira se consome, Meleagro também definha e morre.
Depois dessas narrativas marcadas pela tragédia, Ovídio insere uma das histórias mais lindas do livro, a mais poética, sem dúvida alguma: a história de Báucis e Filemon. Disfarçados de mendigos, Júpiter e Mercúrio descem à Terra para testar a hospitalidade dos homens. Batem em inúmeras portas pedindo abrigo e são repelidos por todos os ricos da região. Apenas um casal de idosos, pobre, mas feliz, os acolhe em sua humilde cabana. Báucis e Filemon oferecem aos visitantes o pouco que possuem: azeitonas, legumes, queijo, ovos e vinho simples. Quando se preparam para sacrificar o único ganso da casa em honra aos hóspedes, os deuses impedem o gesto e revelam sua verdadeira identidade.
Como recompensa pela hospitalidade e pela piedade do casal, Júpiter e Mercúrio concedem-lhes um desejo. Báucis e Filemon não pedem riqueza nem juventude; pedem apenas continuar servindo aos deuses e não terem de suportar a morte um do outro.
“Podemos discutir um pouquinho? E conversaram em separado, e então Filemon falou pelos dois: o que queremos é ser seus sacerdotes e tomar conta do tempo. E já que passamos tanto tempo felizes juntos; não deixe que um fique sem o outro, que eu nunca veja o funeral da minha mulher, nem que ela venha ver tenha de rezar por mim!“ (pág. 175)
Anos depois, já muito velhos, os dois percebem folhas brotando de seus corpos enquanto permanecem diante do templo. À medida que a casca os envolve, ainda conseguem despedir-se um do outro. Transformam-se, então, em duas árvores entrelaçadas — um carvalho e uma tília —, símbolo eterno da hospitalidade, da fidelidade e da recompensa concedida àqueles que honram os deuses com simplicidade e amor.
O livro, porém, termina em tom de horror com a história de Erisícton, um homem que despreza abertamente os deuses. Certo dia, decide derrubar um carvalho sagrado dedicado a Ceres, árvore adornada com oferendas e habitada por uma dríade. Mesmo advertido do sacrilégio ele destrói a árvore. As ninfas pedem justiça a Ceres, e a deusa escolhe uma punição à altura da impiedade: envia-lhe a Fome personificada.
A criatura aproxima-se de Erisícton durante o sono e o contagia com um apetite insaciável. A partir desse momento, quanto mais ele come, mais fome sente; quanto mais tenta saciar-se, mais se consome. Dissipa toda a sua fortuna em banquetes, vende tudo o que possui e, por fim, chega a vender a própria filha para conseguir dinheiro e comprar alimento. Quando já não resta nada fora de si que possa devorar, volta-se contra o próprio corpo e consome a si mesmo até desaparecer.
Os principais temas do Livro 8 giram em torno da desobediência, da impiedade e das consequências devastadoras dos excessos humanos. Ícaro desobedece ao pai e paga com a própria vida; A simplicidade piedosa de Baucis e Filêmenon versus a ganância e impiedade de Erisicton. Erisícton desafia os deuses e é consumido por uma fome sem fim. Em ambos os casos, Ovídio associa a transgressão à ruína, mostrando que ignorar limites — sejam eles humanos, familiares ou divinos — conduz à destruição.
O Livro 9 é quase inteiramente dedicado à figura de Hércules (Héracles), explorando tanto sua força bruta quanto sua vulnerabilidade humana, e encerra-se com sua transformação em deus.
O livro inicia-se com uma disputa narrativa. O deus-rio Aqueloo conta a Teseu por que lhe falta um dos chifres: ele e Hércules lutaram pela mão de Dejanira. Durante o combate, Aqueloo, como divindade mutável, assume sucessivamente a forma de serpente e de touro. Hércules, porém, vence-o com sua força extraordinária e quebra um de seus chifres. Mais tarde, esse chifre é recolhido pelas ninfas e transformado na Cornucópia, o célebre chifre da abundância.
Após vencer a disputa, Hércules parte com Dejanira, mas o casamento já nasce marcado pela tragédia. Ao tentarem atravessar um rio, o centauro Nesso se oferece para transportar Dejanira e, aproveitando-se da situação, tenta violentá-la. Hércules reage imediatamente e o atinge com uma flecha envenenada com o sangue da Hidra. Antes de morrer, porém, Nesso ainda consegue arquitetar sua vingança: entrega a Dejanira uma túnica embebida em seu sangue e afirma que se trata de um filtro amoroso capaz de preservar a fidelidade do marido.
Anos depois, tomada pelo medo de perder Hércules para Íole, Dejanira envia ao esposo a túnica envenenada. O veneno, ativado pelo calor do corpo do herói, adere à pele e passa a consumi-lo de forma insuportável. Sem conseguir suportar a dor e incapaz de morrer como um homem comum, Hércules manda erguer sua própria pira funerária no monte Eta. É então que Júpiter intervém: a parte mortal do herói é consumida pelo fogo, mas sua essência divina é conduzida ao Olimpo, onde Hércules é finalmente acolhido entre os deuses. A metamorfose, aqui, assume a forma da apoteose: a dor extrema e a morte do corpo tornam-se o caminho para a divinização.
Após a morte de Hércules, o foco da narrativa se desloca para sua mãe, Alcmena, já idosa, que lamenta os sofrimentos do filho e relata a Íole as circunstâncias extraordinárias de seu nascimento. Ovídio retoma, então, os ciúmes de Juno, que tentara impedir o parto enviando Lucina, deusa dos nascimentos. Sentada diante da porta, com as pernas cruzadas e os dedos entrelaçados, Lucina recita encantamentos que “trancam” o útero de Alcmena, prolongando por sete dias a agonia do parto.
É a serva Galântis quem rompe esse bloqueio. Astuta e leal, ela engana Lucina ao anunciar que Alcmena já dera à luz. Surpresa, a deusa desfaz involuntariamente o feitiço, e Hércules nasce naquele instante. Como punição pela mentira, Galântis é transformada em doninha — animal que, segundo a crença antiga, dava à luz pela boca.
Íole, por sua vez, narra a história de sua irmã Dríope. Casada com Andremon e mãe de um menino, Dríope colhe flores de lótus sem perceber que a planta havia sido, outrora, uma ninfa metamorfoseada. O gesto involuntário desperta a ira sagrada, e a jovem começa a enraizar-se no chão, transformando-se em árvore diante dos olhos da família. Antes de perder por completo a forma humana, implora que cuidem de seu filho e o levem para visitá-la.
Mais adiante, surge o episódio de Iolau, sobrinho de Hércules, cuja juventude é restaurada por Hebe. A raridade desse rejuvenescimento provoca um debate entre os deuses, pois outros também desejam o mesmo privilégio para seus protegidos. Júpiter, no entanto, impõe um limite: nem mesmo os deuses podem alterar livremente o destino. A intervenção divina existe, mas encontra fronteiras impostas pela própria ordem do cosmos.
Ovídio então muda o foco para a Ásia Menor, mergulhando na psicologia do desejo proibido por meio da história de Bíblis. Filha de Mileto, ela se apaixona pelo próprio irmão, Cauno. A princípio tenta reprimir esse sentimento, mas o desejo cresce até converter-se em obsessão. Bíblis racionaliza a paixão lembrando que os deuses Júpiter e Juno também eram irmãos casados. Incapaz de suportar o silêncio, escreve ao irmão uma carta em que confessa seu amor.
A reação de Cauno é de horror. Ele rejeita a irmã e abandona a terra natal para fugir da situação. Bíblis, enlouquecida de dor, rasga suas roupas, percorre florestas e montanhas atrás do irmão e, finalmente, exausta, cai no chão e chora sem parar. Comovidas — ou talvez incapazes de suportar tamanho sofrimento —, as ninfas a transformam em uma fonte (a fonte de Biblis), cujas águas continuam a jorrar como lágrimas eternas.
O livro 9 termina com uma narrativa ambientada em Creta, centrada na figura de Ífis, e que introduz o tema da identidade de gênero. Ligado, homem pobre, avisa à esposa, Telétusa, que não poderá sustentar uma filha e que, se a criança nascer menina, ela deverá ser morta. Durante a gestação, porém, a deusa Ísis aparece em sonho a Telétusa e a orienta a preservar a criança, qualquer que seja seu sexo. Quando nasce uma menina, a mãe decide criá-la como se fosse menino e lhe dá o nome Ífis, ambíguo o suficiente para ocultar a verdade.
Criada com roupas e educação masculinas, Ífis cresce sem saber como resolver o impasse que sua própria existência encarna. Quando o pai arranja seu casamento com a bela Iante, as duas jovens se apaixonam genuinamente. O drama se instala porque Ífis ama e é amada, mas sabe que a sociedade não aceitará a união de duas mulheres e que a verdade será inevitavelmente revelada.
Na véspera do casamento, Telétusa e Ífis vão ao templo de Ísis implorar por ajuda. A deusa atende à prece. Ao sair do santuário, Ífis percebe que seus passos se tornam mais firmes, seus traços se modificam, a força do corpo aumenta. A jovem é transformada em homem, e o casamento com Iante acontece no dia seguinte com a benção de Vênus e Juno.
O Livro 9 articula alguns dos temas mais sensíveis de “Metamorfoses”. A elevação de Hércules antecipa o motivo da divinização que reaparecerá no final do poema, quando Ovídio tratar de Júlio César e de Augusto. Ao mesmo tempo, os episódios de Galântis, Dríope, Bíblis e Ífis mostram que o poeta se interessa cada vez mais pelos dramas íntimos, pelos conflitos de identidade e pelos laços de solidariedade — sobretudo entre mulheres — diante da violência patriarcal e das forças divinas opressoras
No Livro 10, Ovídio abre a narrativa com a tragédia pessoal de Orfeu. Hímen, deus do matrimônio, é chamado à Trácia para abençoar o casamento de Orfeu com Eurídice, mas sua presença já surge envolta em maus presságios. A cerimônia, longe de anunciar felicidade, é marcada por um clima sombrio, e o presságio logo se cumpre: pouco depois do casamento, Eurídice pisa em uma serpente venenosa e morre.
Devastado, Orfeu faz uma visita ao Hades, onde implora a Plutão e Peséfones que Eurídice lhe seja devolvida, argumentando que, sem ela, a própria vida perdeu o sentido. Os soberanos do submundo cedem, mas impõem uma condição: Orfeu não poderá olhar para trás até que ambos cheguem ao mundo luminoso. No entanto, dominado pela ansiedade e pelo medo de tê-la perdido novamente, ele se volta para verificar se Eurídice ainda o seguia. Nesse instante, ela desaparece para sempre.
Após essa segunda perda, Orfeu permanece por sete dias à margem do Estige, entregue ao luto. De volta à Terra, recusa o amor de outras mulheres e se recolhe à música e à memória da esposa morta. Sua arte passa, então, a dominar a natureza: ao tocar a lira, ele faz com que árvores cresçam ao seu redor. É nesse cenário que Ovídio introduz uma série de narrativas cantadas por Orfeu, quase todas ligadas ao amor, à perda e à transformação de jovens em flores, árvores ou outros elementos da natureza.
Uma dessas histórias é a de Ciparisso, um jovem apegado a um cervo sagrado, animal manso e ornamentado como se fosse um companheiro querido. Certo dia, por acidente, Ciparisso atinge o cervo com uma lança e o mata. Consumido pela dor, deseja morrer também. Apolo, comovido, transforma o jovem em cipreste, árvore associada ao luto. A transformação de Ciparisso sugere que uma pessoa nunca morre, apenas muda de forma.
Orfeu também canta os amores dos deuses por mortais. Um dos exemplos é Ganimedes, jovem de beleza extraordinária por quem Júpiter se apaixona. O deus assume a forma de águia e o leva aos céus, onde Ganimedes passa a servir como copeiro divino, para desgosto de Juno. Outro caso é o de Jacinto, amado de Apolo. Durante uma competição atlética, o disco lançado por Apolo atinge acidentalmente o rosto do rapaz, matando-o. Do sangue derramado nasce a flor jacinto, marcada pelo lamento do deus. Em ambos os episódios, a beleza juvenil é interrompida pela violência ou pela perda, mas preservada por meio da transformação.
A canção de Orfeu segue com os Cerastae e as Propoétides, grupos que atraem a ira de Vênus. Os Cerastae, homens que praticavam sacrifícios humanos em honra a Júpiter, são punidos com a transformação em touros. Já as Propoétides, mulheres que negavam a divindade de Vênus, perdem pouco a pouco a vergonha e acabam endurecendo até se transformarem em pedra.
É nesse contexto que surge uma das histórias mais célebres do livro: a de Pigmalião. Horrorizado com o comportamento das Propoétides, o escultor cipriota decide viver no celibato. No entanto, esculpe em marfim a imagem da mulher perfeita e se apaixona pela própria criação. Durante o festival de Vênus, ele reza para ter uma esposa semelhante à estátua. Vênus atende ao desejo oculto dele: ao voltar para casa e beijar a escultura, Pigmalião percebe que o marfim ganha vida. Da união entre os dois, nasce Pafos.
A linhagem de Pafos conduz à história de Mirra, sua neta. Filha de Cíniras, Mirra se apaixona pelo próprio pai. Incapaz de suportar o próprio sentimento, ela pensa em se matar, mas é impedida pela ama, que insiste em descobrir a causa de seu sofrimento. Ao ouvir a confissão, a ama decide ajudá-la.
Durante um festival em honra a Ceres, quando muitas mulheres se ausentam de casa, a ama aproxima-se de Cíniras — embriagado e dominado pelo desejo — e lhe promete o encontro com uma jovem misteriosa. Sem saber de quem se trata, ele aceita. Mirra, então, vai ao leito do pai e se une a ele em segredo por várias noites. Quando finalmente Cíniras ergue a luz e descobre a identidade da amante, tenta matá-la. Grávida, Mirra foge e vaga sem rumo, dilacerada pela vergonha e pela culpa.
Sem desejar continuar viva, mas também sem se julgar digna da morte, Mirra implora aos deuses que a retirem de ambos os mundos. Sua prece é atendida: ela é transformada na árvore de mirra, e suas lágrimas de resina tornam-se o famoso perfume. Mesmo metamorfoseada em árvore, ela continua a gestar o filho. No momento do parto, a casca da árvore se abre e dela nasce Adônis, acolhido pelas ninfas e destinado a se tornar um dos mais belos jovens da mitologia.
Adônis cresce e desperta a paixão de Vênus, que, ferida acidentalmente por uma flecha de Cupido, apaixona-se perdidamente por ele. A deusa abandona o Olimpo para acompanhá-lo nas caçadas, mas o adverte repetidas vezes a evitar animais ferozes, sobretudo javalis e leões. Vênus deita-se nos braços de Adônis e conta-lhe a história de Atalanta e Hipômenes.
Atalanta, célebre por sua velocidade, havia recebido do oráculo o aviso de que o casamento lhe seria funesto. Para afastar pretendentes, estabelece uma prova cruel: só se casaria com quem conseguisse vencê-la numa corrida; os derrotados pagariam com a própria vida. Hipômenes, ao vê-la, apaixona-se e decide enfrentá-la. Antes da disputa, suplica ajuda a Vênus, que lhe entrega três maçãs de ouro. Durante a corrida, Hipômenes lança as maçãs no caminho, e Atalanta, atraída por seu brilho, desvia-se para recolhê-las. Assim ele vence e conquista sua mão.
O problema é que Hipômenes se esquece de agradecer à deusa. Ofendida com a ingratidão, Vênus instiga um desejo súbito entre os dois amantes, que fazem sexo em um espaço sagrado dedicado a Cibele. Como punição pelo sacrilégio, Cibele transforma ambos em leões. Esse é o fim do relato de Vênus.
Depois da partida de Vênus em sua carruagem de cisnes, Adônis ignora as recomendações da deusa e enfrenta um javali feroz. Fere o animal, mas é mortalmente atingido por ele. Ao ouvir seus gemidos, Vênus retorna e encontra o jovem agonizante. Em luto, derrama néctar sobre o sangue do amado, e dele faz nascer a anêmona, flor delicada e efêmera, cujas pétalas o vento arranca com facilidade.
O Livro 10 é, acima de tudo, um livro sobre o poder da arte, o excesso da paixão e a fragilidade da beleza. A música de Orfeu move árvores e comove o submundo. A arte também aparece em Pigmalião, cuja escultura ultrapassa os limites da mat&am
