Quem matou meu pai
O livro de que falaremos hoje, “Quem matou meu pai”, é do autor Edouard Louis. Esse autor esteve na Flip em 2024 e foi homenageado com toda a pompa e circunstância. Sua passagem pelo Brasil mobilizou muitos admiradores e ajudou a impulsionar a autobiografia como gênero literário.
Eddy Bellenguele, seu nome de batismo, nasceu na cidade Hallencourt, no norte da França. Louis cresceu em uma família pobre, como veremos ao longo do livro. Seu pai foi operário de fábrica até que sofreu um acidente e teve que viver sob efeito de morfina e viver de pensão, pois ficou impossibilitado de trabalhar.
Sua mãe trabalhava muitas vezes dando banho em idosos, vivia na pobreza. Edouard Louis foi o primeiro da família a frequentar a Universidade. Em 2011, foi admitido por duas Universidades, a École Normal Superieure e a Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais em Paris. Em 2013, mudou oficialmente seu nome para Édouard Louis.
Édouard Louis começa o seu livro dizendo:
“Se este texto fosse um texto teatral, deveria começar com estas palavras: Um pai e um filho estão alguns metros um do outro num grande espaço, vasto e vazio. Esse espaço poderia ser um campo de trigo, uma fábrica desativada e deserta, a quadra emborrachada de uma escola. Talvez seja nevando. Talvez a neve cubra os dois pouco a pouco até que desapareçam. Pai e filho quase nunca se olham. Só o filho fala, as primeiras frases que diz são lidas numa folha de papel ou numa tela, ele tenta se dirigir ao pai, mas não sabe por quê, é como seu pai não pudesse ouvi-lo. Estão perto um do outro, mas não se veem. Às vezes suas peles se encostam entram em contato, mas mesmo assim, mesmos nesses momentos, eles continuam distantes um do outro. O fato de apenas o filho falar, e somente ele, é algo violento para os dois: o pai está privado dessa possibilidade de contar a sua própria vida e o filho queria uma resposta que jamais obterá. (pág. 7)
Louis se utiliza de um certo distanciamento onde se aproxima de sofrimentos específicos e depois se afasta para mostrar que eles são resultados de intenções políticas.
O livro traz as marcas de alguns vestígios. Denota uma incompreensão diante de um pai que oscila entre o ataque ao filho e a defesa do filho em situações determinadas, onde a violência, nas palavras do próprio filho, não é a causa da violência. A violência salvou todos da violência.
Édouard Louis dedica seu livro a Xavier Dolan, diretor do filme “Eu Matei Minha mãe”. O livro mostra uma certa semelhança com o filme do homenageado.
“Quando lhe perguntaram que significado a palavra “racismo” tem para ela, a intelectual americana Ruth Gilmore responde que o racismo é a exposição de algumas populações a uma morte prematura.
Essa definição funciona também para o machismo, a homofobia ou a transfobia, a dominação de classe e para todos os fenômenos de opressão social e política. Se considerarmos a política como governo de seres vivos por outros seres e a existência de indivíduos dentro de uma comunidade que não escolheram, então política é a distinção entre populações com a vida sustentada, encorajada, protegida, e populações expostas a morte, à perseguição e ao assassinato.” (pág. 9)
O livro centra-se na relação do filho (Louis) e seu pai doente. Embora doente e praticamente inválido, o pai de Louis parece estar vivendo os seus momentos derradeiros, parece estar na última fase da vida. Apesar do título do livro, o pai de Louis não morre no decorrer das memórias, mas sim é exposto a uma morte prematura após ser ferido em um acidente na fábrica onde trabalhava.
“Quem matou meu pai” não é uma pergunta, é uma resposta que nos faz lembrar de “J’accuse”, de Émile Zola, ou seja uma carta aberta. Uma denúncia pública sobre o caso Dreyfus, a carta acusa o governo de injustiça e antissemitismo. E o livro vai na mesma direção, mas sem antes fazer relatos íntimos sobre a relação de Louis com a sua família.
Louis deixa claro em seu texto quem matou seu pai: e eles são os sucessivos governos franceses de Chirac, Sarkozy, Hollande e Macron. Os crimes desses presidentes residem no corte ao acesso a benefícios sociais e de invalidez (e humilhar aqueles que dependem deles). Esses governos e presidentes quebraram as costas de seu pai de novo, depois que ele ficou incapacitado por um acidente de trabalho, condenando-o a trabalhar como gari, ou seja, tendo que se curvar o dia todo limpando os lixos dos outros.
Na verdade, o pai de Louis já tem mais de 60 anos, sua saúde está muito deteriorada e gravemente comprometida por doenças cardíacas, obesidade que ele mal consegue respirar ou andar, muito menos a sair de casa ou trabalhar. Louis nos conta não apenas uma morte lenta e precoce de seu pai. Mas denuncia o sintoma de um sistema político e econômico que degrada grupos inteiros de pessoas, bem como vastas áreas conhecidas como “a França Profunda”.
O livro começa:
“Durante toda a minha infância ansiei por sua ausência. Voltava da escola n fim da tarde, lá pelas cinco horas. Quando me aproximava de casa, sabia que o seu carro não estivesse estacionado na porta queria dizer que você tinha ido ao bar ou à casa do seu irmão e que voltaria tarde, talvez no início da madrugada. Se eu não via o seu carro na calçada da frente de casa, sabíamos que ir[íamos comer sem você, que minha mãe lhe daria de ombros e nos servindo o jantar que eu só o veria dia seguinte. Todos os dias, quando eu me aproximava da nossa rua, pensava no seu carro e implorava em silêncio: faça com que ele não esteja lá, faça com que ele não esteja lá”. (pág. 11; pág. 12)
O autor começa contando a história do pai, que começa a trabalhar logo depois da infância, sem viver os momentos conhecidos como “juventude”, seguindo a vida de seus pais.
“Você nasceu numa família de seis ou sete filhos. Seu pai trabalhava na fábrica, sua mãe não trabalhava. Eles só conheceram a pobreza .Não tenho quase mais nada a dizer sobre a sua infância.
Seu pai foi embora, quando você tinha cinco anos. É uma história que conto bastante. Um dia ele saiu para trabalhar na fábrica e não voltou a noite. Sua mãe , minha avó, me contava que tinha esperado por ele, de qualquer forma ela não poderia fazer outra coisa, por toda a metade a primeira metade da vida dela, esperar por ele: Eu tinha preparado o jantar, esperamos como sempre, mas ele nunca mais voltou. Ase pai bebia muito e algumas noites, por causa do álcool, batia na sua mãe. Pegava pratos, pequenos objetos, às vezes até mesmo cadeiras, e jogava na cara dela, antes de avança-la para acertá-la com socos. Não sei se sua mãe gritava ou se aguentava a dor em silêncio. Você olhava para eles sem poder fazer nada, impotente, preso em seu corpo de criança.” (pág. 17)
“Quando fazia perguntas sobre você, minha mãe me dizia que o desparecimento de seu pai impôs a vocês lima miséria ainda maior. Sua mãe ficou sozinha com sete filhos.” (pág. 23)
Acabou vivendo todas as experiências de forma intensa e agressiva, para compensar a ausência de juventude que viveu. Sem dinheiro não pôde estudar, não pôde viajar, não pôde realizar seus sonhos. Sua vida é composta de negações.
“Você tentou ser jovem por cinco anos. Quando saiu do ensino médio, poucos dias depois de ter começado, foi contratado na fábrica da cidade, mas também não ficou por muito tempo ali, só algumas semanas. Não quis reproduzir a vida de seu pai e de seu avô. Eles começaram a trabalhar logo após a infância, com quatorze anos, quinze anos. Passaram sem transição da infância para o esgotamento, depois veio a preparação para a morte, sem direito aos poucos anos de esquecimento do mundo e da realidade da realidade que os outros homens chamam de juventude – é a formulação meio besta, os poucos anos de esquecimentos que os outros chama de juventude. (pág. 32; pág. 33)
Morou no sul da França apostando que ali seria o seu momento de tranquilidade, mais bela, menos opressiva, mas...
“Por cinco anos você lutou com todas as forças para ser jovem, foi morar no sul da França, dizendo que ali a vida seria mais bonita, menos pesada por causa do sol, roubou mobiletes, passou noites em claro, bebeu o quanto pode. Viveu todas as experiências da forma mais intensa e mais violentas possível porque tinha a sensação de estar roubando alguma coisa – é isso, é aí que eu queria chegar: há aqueles a quem a juventude é oferecida e aqueles que só podem se obstinar em roubá-la.” (pág. 33)
Por falta de dinheiro acabou voltando para a cidade onde seus pais moraram, onde tinha nascido, para ingressar em uma fábrica onde toda a família havia trabalhado. E aí veio os mecanismos de compensação. Como roubaram a juventude através do trabalho duro, ele tentou compensar, ou seja, vivê-la de uma maneira ou de outra. Esse é o problema (como observa o filho desse pai) das coisas roubadas. Todas as vezes que ele tentou recuperá-la não conseguiu.
Com o tempo, nos últimos, anos o pai havia se transformado em outra coisa, uma outra pessoa. Chega o momento dos ajustes de contas entre o filho e o pai. A crítica pelo que seu pai havia se tornado, sua dureza, pelo seu silêncio, pelas cenas violentas que presenciou, pela falta de compreensão. Desejaram-se mal em determinados períodos, ódios, vinganças. O autor o queria ver morto. Brigaram, e incitou o irmão mais velho a bater no próprio pai.
“Quando você bebia demais, baixava os olhos e dizia que me amava, que não entendia por que no resto do tempo era tão violento. Chorava confessando que não sabia como interpretar essas forças que o atravessavam, que o faziam dizer coisas das quais se arrependia no minuto seguinte. Você era vítima da violência que exercia como daquela que sofria.” (pág. 55)
A relação entre pai e filho sofria altos e baixos e às vezes de maneira agressiva, como foi no dia em que o pai doou um brinquedo preferido de seu filho chamado Docteur Maboul. E perguntado o motivo pelo qual ele deu o seu brinquedo preferido, o pai disse: ”É a vida”. E numa noite no bar da cidade, seu pai disse que preferia ter outro filho, e não o seu próprio filho.
No entanto, os problemas começaram a surgir quando houve um terrível acidente:
“Contei no meu primeiro romance, O fim de Eddy, que numa tarde recebemos um telefonema da fábrica informando que um peso caíra em cima de você. Suas costas haviam sido trituradas, esmagadas, nos falaram que você não poderia mais andar por muitos anos, não andar mais.” (pág. 57; pág. 58)
Chirac, presidente da França por doze anos juntamente com seu ministro da saúde anunciaram cortes nos medicamentos para distúrbios digestivos. Em outras palavras, o que era direito transformou-se em um transtorno para o pai. Em seguida, Sarkozy dizia que os inativos roubavam dinheiro da sociedade francesa por não trabalharem. Ele declarou:
“O trabalhador [...] vê o assistido se dar melhor do que para fechar as contas do mês sem fazer nada”. (pág. 61)
O pai, para equilibrar as contas, foi obrigado a trabalhar de varredor de rua em outra cidade, curvando-se o dia todo, deteriorando a sua coluna já fragilizada. François Hollande aprovou a “lei do trabalho”, uma lei que facilita as demissões e permite que as empresas façam os assalariados trabalharem ainda mais. Em outras palavras, o problema de coluna do pai se destrói cada vez mais, juntamente com as dificuldades de respirar.
Macron culpa os inativos, que, segundo ele, impedem as reformas. Quem nunca ouviu falar dessas reformas? No Brasil sofremos de problemas semelhantes.
“Não existe orgulho sem vergonha: você se orgulhava de “não ser um inativo” porque tinha vergonha de fazer parte daqueles que podiam ser designados por essa palavra. Para você a palavra “inativo” é uma ameaça, uma humilhação. O tipo de humilhação vinda dos poderosos que o faz curvar ainda mais as costas”. (pág. 65)
“Hollande, Valls, El Khomri, Hirsh, Sarkozy, Macron, Bertrand, Chirac. A história do seu sofrimento tem nomes. A história de sua vida é a história dessas pessoas que se sucederam para abatê-lo. A história do seu corpo é a história desses nomes que se sucederam para destruí-lo. A história do seu corpo acusa a história política. (pág. 67)
Se antes o seu pai sempre repetia que o problema da França eram os estrangeiros e os homossexuais, agora tornou-se outra pessoa, pergunta sobre seu namorado. Fala do orgulho em vê-lo escritor, comprando livros do filho para dar a amigos. Critica o racismo da França. A violência que havia sofrido o transformou e desvendou a pessoa que havia se tornado. O pai pergunta se ele ainda mexe com política, já que havia se filiado a um partido de extrema esquerda quando era estudante secundarista. O filho responde que sim.
“Você silenciou por três ou quatro segundos, me olhou e disse por fim: “Você tem razão. Você tem razão, acho que uma boa revolução seria necessária” (pág. 68)
“Quem Matou meu pai”, de Edouard Louis, é um livro que narra os contrastes vibrantes entre Louis e o mundo reduzido de seu pai. “Quem matou meu pai” não tem ponto de interrogação. Isso porque o autor sabe quem são os assassinos, sabe quem são os culpados. E mais do que isso, pela franqueza de Édouard Louis. Um livro que merece um lugar de “HONRA” na sua estante.