A Morte Feliz
“A Morte Feliz” começou a ser escrita em 1936, mas esta obra, na verdade, nunca foi concluída. Esse projeto foi deixado de lado para que Camus começasse “O Estrangeiro”. “A Morte Feliz” foi publicada mais tarde, em 1971, ou seja, onze anos depois da morte do autor. Esse livro foi escrito quando ele tinha vinte e poucos anos, pode ser considerado como o seu primeiro romance – embora tenha sido deixado de lado e encontrado entre os seus papéis pessoais após a sua morte.
O livro tem algo de autobiográfico, pertence à sua juventude, às suas memórias. O personagem Patrice Mersault nasceu pobre e compartilhou sua pobreza com a sua mãe, como foi a infância e parte da juventude de Camus.
“A Morte Feliz” é narrada na terceira pessoa. Patrice Mersault tem o mesmo sobrenome de Mersault de “O Estrangeiro”. Não há nenhuma semelhança entre os dois personagens. Ambos os romances têm protagonistas com nomes semelhantes e vários personagens com o mesmo nome ou nomes semelhantes. Ambos os romances incluem um assassinato e ambos têm um personagem principal que é isolado por uma total falta de empatia e apatia. O Mersault de “O Estrangeiro” é um personagem não emocional, não se importa com nada. É a visão mais refinada da filosofia do absurdo de Camus. O Mersault de “A Morte feliz” nos lembra o personagem Raskolnikov de Dostoievsky (“Crime e Castigo”). Ambos têm uma forma semelhante de se comportar diante do absurdo da vida, como vocês verão a seguir.
Vou dar uma dica a todos que acompanham este site: “A morte feliz requer um pouco mais de concentração – eu, pelo menos, precisei. É um livro de 139 páginas, dá para ser lido em um dia. Eu demorei dois dias e valeu muito. Suas ideias são intensas, reflete o mundo e a natureza da existência. A grande pergunta que Camus nos faz nesse livro é: como viver feliz a tal ponto que a própria morte seja feliz?
Vamos à história?
O livro divide-se em duas partes. A parte 1 é intitulada “Morte natural”. Patrice Mersault é um funcionário francês argelino, que vive e trabalha na Argélia ocupada pelos franceses. Ele é totalmente indiferente ao seu trabalho em um escritório. Ele segue uma rotina de trabalhar, almoçar com um colega e voltar para a casa. Ele tem uma namorada chamada Marthe, mas os dois não se amam. Eles frequentam sexualmente seus corpos, e vão ao cinema juntos como uma rotina de lazer. Mersault nutre por ela apenas o prazer sexual, sem nenhum vínculo mais profundo.
No entanto, certa vez, Marthe falou sobre seus ex- namorados e um deles se chamava Zagreus:
“- E esse Zagreeus, quem é? É o único que eu não conheço.
- Esse – disse Marthe, rindo – eu o vejo ainda.
Mersault apertou o dedo sobre a pele.
- Foi o meu primeiro, compreenda. Eu era muito jovem. Ele era um pouco mais velho. Agora tem as duas pernas cortadas. Vive sozinho. Então as vezes eu vou vê-lo. É um sujeito fino e instruído. Lê o tempo todo. Naquela época, ele era estudante. É muito alegre. Um tipo, sabe. Aliás ele fala como você, ele me diz: “ Venha cá aparência”.
Mersault refletiu. Soltou Marthe, que revirou na cama, fechando os olhos. Momentos depois, sentou-se a seu lado e, inclinando-se sobre os lábios entreabertos, procurou os sinais de sua divindade de animal e o esquecimento de uma dor que achava indigna. Mas abandonou a boca sem ir adiante.
Ao acompanhar Marthe de volta, ela lhe falou de Zagreus.
- Falei sobre você com ele- disse – Contei-lhe que meu querido era muito bonito e muito forte. Então ele me disse que gostaria de conhecê-lo. Porque como ele disse: “ Ver um corpo belo me ajuda a respirar”. ( pág. 43;pag 44)
Marthe teve um breve caso com Zagreus. Zagreus é um intelectual que passa os dias lendo, pois perdeu suas pernas em um acidente. Mersault falava sobre o possível ciúmes de Zagreus:
“- Não perca o seu tempo. Não consigo ter ciúmes de um sujeito que não tem pernas. Por menos que pense em vocês dois, eu o vejo como um grande verme em cima de você. Então sabe, isso me faz rir. Não se canse meu anjo.” (pág. 45)
Quando Mersault conhece Zagreus, tem uma certa admiração por ele, por aquele pedaço de tronco, como ele diz em suas reflexões. Os dois travam um relacionamento onde vários temas são abordados. Mas não desenvolvem nenhum tipo de afeição e conversam sobre algumas ideias filosóficas, como, por exemplo, se uma pessoa pode ter um autoconhecimento e ser feliz ao mesmo tempo, e se o dinheiro é uma ajuda ou um impedimento para a felicidade.
“- Oh! Bem sei que a maioria dos homens ricos não tem nenhuma noção da felicidade. Mas não é esta a questão. Ter dinheiro é ter tempo. Ter dinheiro é ter tempo. Não saio disso. O tempo se compra. Tudo se compra. Ser ou ficar rico é ter tempo para ser feliz quando se é digno de sê-lo.” ( pág. 52; pag53)
Os dois conversaram, e o que chamava a atenção é que Zagreus refletia o que dizia, coisa que Mersault não fazia. Zagreus entrava em temas que surpreendia Mersault. Até que Zagreus disse:
“Aos 25 anos, comecei a minha fortuna. Não recuei diante das trapaças. Não teria recuado diante de nada. Em alguns anos havia realizado toda a minha fortuna líquida. Calcule Mersault, quase dois milhões. O mundo se abria para mim. E com o mundo, a vida que eu sonhava na solidão e no ardor. ...
Depois de algum tempo Zagreus continuou, num tom mais abafado: - A vida que eu teria tido, Mersault se não fosse o acidente que, logo depois, levou as minhas pernas. Não soube como terminar. E agora, veja. Você é capaz de entender que eu não tenho querido viver uma vida diminuída. Há vinte anos o meu dinheiro está ali, perto de mim. Vivi modestamente. Mal toquei na quantia. – Passou as mãos duras sobre a pálpebras e disse um pouco um mais baixo: - Não se deve nunca sujar a vida com beijos de inválidos.
Nesse momento Zagreus abrira o pequeno baú que estava encostado à lareira e mostrara um grande cofre de aço, havia uma carta e um grande revólver preto. Ao olhar involuntariamente curioso de Mersault, Zagreus respondera com um sorriso. Era muito simples. Nos dias em que sentia demais a tragédia que o privava de sua vida, ele punha diante de si a carta que não datara, e que fazia parte de seu desejo de morrer” ( pág. 53; pág. 54)
Patrice Mersault já sabia que Zagreus não queria viver, tendo confessado para ele diversas vezes e havia inclusive deixado uma carta de despedida onde dizia que sua vida se tornara um fracasso, caso viesse a tirar sua própria vida. Deixou uma arma sob a cômoda e um cofre cheio de dinheiro. É aí que o espírito de Raskonikov aparece para Mersault.
“No dia seguinte, Mersault matava Zagreus e voltou para casa, voltava para a casa e dormia a tarde toda. Acordava com febre. E, à noite, sempre deitado, mandou chamar um médico do bairro, que o considerou gripado. Um empregado do escritório veio saber notícias, levando de volta seu pedido de licença. Alguns dias depois, tudo se arranjara um artigo, um inquérito. Tudo justificava o gesto de Zagreus. Marthe veio ver Mersault e disse:
- Há dias em que gostaria estar no lugar dele. Mas, às vezes, é preciso mais coragem para viver do para se matar.
Uma semana depois, Merrsault embarcava para Marselha. Para todo mundo ele ia repousar na França. De Lyon, Marthe recebeu uma carta de rompimento, com o qual apenas seu amor próprio sofreu. Ao mesmo tempo ele anunciava que lhe haviam oferecido uma situação excepcional na Europa Central escreveu-lhe sobre seu sofrimento para uma caixa postal. Essa carta jamais chegou jamais chegou às mãos de Mersault que, no dia seguinte ao de sua chegada a Lyon teve um violento acesso de febre e pegou um trem para Praga. No entanto, Marthe lhe anunciavam que, após vários dias no necrotério, havia sido enterrado, e que foram necessárias várias almofadas para acomodar o tronco no caixão” (pág. 61; pág. 62)
Mersault mata Zagreus com um tiro na cabeça, esvazia o cofre contendo uma grande quantia de dinheiro, termina com a sua namorada Marthe e parte para Marseille.
Na segunda parte do livro, chamada “Morte Consciente”, , ele pega um trem de Marseille e vai para Praga. Com todo o dinheiro roubado de Zagreus, ele vagueia pela cidade.
“ O deus que se adorava ali era o que se teme e glorifica, não aquele que ri com o homem diante de jogos cheios de calor do mar e do sol. Deixando o cheiro frio da poeira e do vazio que reinava sob as arcadas sombrias. Mersaul se via sem pátria. Todas as tardes dirigia-se ao mosteiro dos monges tchecos, a oeste da cidade. No jardim do claustro, as horas voavam com os pombos, os sinos tocavam suavemente sobre a grama, mas era ainda a febre que falava a Mersault. Ao mesmo tempo, contudo, as horas passavam. Mas agora era o momento em que as igrejas e os monumentos fechavam e os restaurantes ainda não estavam abertos.” (pág. 72)
O medo o assombra, especialmente quando passa por edifícios religiosos, o antigo cemitério. Sente imensas emoções quando vê um cadáver cercado por vários curiosos.
“A cabeça do morto banhada em sangue tinha caído para o lado da ferida e imobilizara-se. Nesse canto retirado de Praga, na luz escassa sobre o calçamento ainda gorduroso, os longos deslizamentos molhados de automóveis que passavam perto, a passagem longínqua de bondes barulhentos e espaçados, a morte revelava-se enjoativa e insistente, e foi seu próprio chamado e seu sopro úmido que Mersault sentiu no momento em que se afastou dali , em largas passadas, sem se voltar.” (pág. 74; pág. 75)
“... Com o coração vazio e o ventre contraído, sua revolta explodia. Nos olhos afloravam imagens de sua vida. Algo dentro dele chamava por gestos de mulheres, braços que se abrem e lábios mornos. Do fundo das noites dolorosas de Praga, com odores de vinagre e melodias pueris, chegava até ele o rosto angustiado do velho mundo barroco que lhe acompanhava a febre.” (pág. 75)
Naquele momento, ele embarca para Viena e depois, Gênova. Procura algumas prostitutas. Mas decide voltar para Argel por Gênova. Na viagem, reflete:
“Com a paz estranha que o penetrava diante da tarde subitamente mais fresca sobre o mar, com a primeira estrela lentamente fixada no céu onde a luz morria verde para renascer amarela sentia, que depois desse grande tumulto e dessa tempestade, o que havia nele de obscuro e de mau se depositava, para deixar transparente a partir de agora, a água clara de uma alma que voltava à bondade e à decisão. Ele via claro. Tinha esperado por muito tempo pelo amor de uma mulher. E ele não era feito para o amor. Através de sua vida, do escritório do cais, de seu quarto e de sono, de seu restaurante e de sua amante, perseguira, numa busca única, uma felicidade que no íntimo, e como todo mundo, julgava impossível. Brincava de querer ser feliz. Nunca o quisera com uma vontade consciente e deliberada. Nunca até o dia... E a partir desse momento, por causa de um único gesto calculado com toda a lucidez, sua vida mudara, e a felicidade lhe parecia possível. Sem dúvida, ele dera à luz esse novo ser com sofrimento. Mas o que era isso diante do preço da degradante comédia que desempenhava antes? Via, por exemplo, que estivera preso a Marthe mais por vaidade do que por amor” (pág. 83; pág. 84).
“... Essa presença de si mesmo em si mesmo, seu esforço a partir de agora era mantê-lo diante de todas as imagens de sua vida, mesmo a custa da solidão que, agora, sabia tão difícil de suportar. Não cederia. Toda a sua violência ajudava-o nisso e levava-o a um ponto no qual o amor a ela se juntava, como uma furiosa paixão de viver.” ( pág. 84;pag85)
A fortuna recebida é insuficiente para que a felicidade aconteça para Mersault. Quando chega à cidade de Argel, entra em contato com velhos amigos e vive em um curto período com três jovens mulheres. Ao se isolarem do mundo, todos esperam encontrar a felicidade. Todo cenário idílico não deixa Mersault feliz, sem contar que volta e meia o fantasma de Zagreus invade seus pensamentos. Decide se mudar mais uma vez, desta vez para uma pequena vila de Chenoua, uma cordilheira nos arredores de Argel. Ele se casa com Lucienne, mas ao longo da convivência ele é questionado por sua esposa se ele a ama.
Após um silêncio, Lucienne acrescentara com uma voz neutra:
“- Você não gosta de mim.
Mersault ergue a cabeça. Ele estava com os olhos cheio de lágrimas. Ele se enterneceu.
- Mas nunca lhe disse isso, minha pequena.
- É verdade – respondera Luciene – É por isso mesmo.
Mersault levantou-se e encaminhou-se para janela. Entre os dois pinheiros, as estrelas fulguravam na noite. E Patrice talvez não tivesse sentido, ao mesmo que sua angustia, uma total repulsa pelos dias que acabavam de passar.
- Você é bela, Luciene. Só vou até aí. Não lhe peço mais nada. Isso basta para nós dois.” (pág. 108)
Luciene o abandona. Mersault faz amizade com um médico local chamado Bernard. É um uma pessoa silenciosa, com um espírito amargurado. Havia trabalhado na Indochina por algum tempo. Há nele uma capacidade de se adaptar a todos os lugares. Todos gostavam dele. Ele apresenta Mersault à comunidade. Mas Mersault mostra a sua indiferença em relação ao mundo. Seus amigos o visitam, incluindo Luciene. Nesse período, adoece. As imagens de Zagreus começam a aparecer em seus olhos, dentre outras:
“ A noite começou. Vinham imagens, grandes animais fantásticos que balançavam a cabeça por cima de paisagens desérticas. Mersault afastava-se suavemente para o fundo de sua febre. Deixava ficar apenas o rosto de Zagreus em sua fraternidade sangrenta. Aquele que matara ia morrer. E, da mesma forma que Zagreus, o olhar lúcido que mantinha sua vida era de um homem. Desse grande e devastador arrebatamento que o levara para a frente, da poesia fugaz e criadora da vida, nada mais restava agora senão a verdade sem rugas que é o contrário da poesia.” (pág. 135)
Pela manhã, Luciene chega e Bernard o diagnostica com insuficiência cardíaca. Mersault pede uma injeção de adrenalina para que esteja consciente quando morrer. Pensava em Zagreus.
“ Ele se tomava de um amor violento e fraternal por esse homem do qual se sentira tão distante, e compreendia que ao mata-lo consumia com ele núpcias que os ligavam para sempre.” (pág. 137)
Merault respira cada vez mais rápido, como se visse morrendo. Ele olha para Lucienne. Sorri um sorriso vindo do interior. Recosta-se na cama. olha os lábios de Lucienne com o mesmo desejo:
“ Daqui a um minuto, daqui a um segundo”, pensou. A subida terminara. E pedra entre as pedras, ele retornou na alegria de seu coração, à verdade dos mundos imóveis” (pág. 139)
Vemos a morte consciente de Mérault respirando até o último minuto com Luciene ao seu lado.
“A Morte Feliz” é uma das melhores introduções à obra de Albert Camus para aqueles que, como eu, gostam muito de sua visão de mundo. Ilustra temas importantes que aparecem em suas obras posteriores.
“A Morte Feliz”, de Albert Camus, é um livro que merece um lugar de HONRA na sua estante.