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O Tratado de Versalhes: a paz depois da Primeira Guerra Mundial

Harold Nicolson, filho de britânicos, nascido em Teerã, era um homem de múltiplos talentos: diplomata, político, jornalista, historiador, biógrafo, romancista, professor, crítico literário, ensaísta e jardineiro. Tinha pouco mais de trinta anos quando atuou como membro júnior da delegação diplomática inglesa, no que ficou conhecido como Tratado de Versalhes. Seu livro “O Tratado de Versalhes” foi publicado quatorze anos após o evento em 1933, e agora está disponível a todos que gostam de História e de seus bastidores. Esse livro nos lembra dos efeitos dessa paz. E suas consequências estão presentes até os dias de hoje. Você entenderá os motivos.

A Conferência de Paz de Paris começou no dia 18 de janeiro de 1919, com vinte e uma nações presentes, inclusive o Brasil. Só uma breve informação: a entrada do Brasil na Primeira Guerra ocorreu em outubro de 1917, quando a Alemanha torpedeou dois navios e um cargueiro brasileiros. Sua participação consistiu somente em fornecer médicos, aviadores para Europa, alimentos e matérias-primas para a “Tríplice Entente”, constituída por Inglaterra, França e Rússia.

Foi controversa a escolha de Paris para essa Conferência, que foi realizada em Versalhes, na Galeria dos Espelhos, dividida em seções: uma seção para a imprensa; no meio, uma mesa em forma de ferradura para os plenipotenciários; e em frente a isso, como uma guilhotina, a mesa para as assinaturas.

Os representantes da Alemanha e de outras nações derrotadas não foram autorizados a sentar-se na mesa da Conferência, assim como a União Soviética, por ter feito um acordo separado em 1917, o famoso acordo de Brest-Litovski. O presidente Woodrow Wilson dos Estados Unidos, o primeiro-ministro Lloyd George da Grã-Bretanha, Georges Clemenceau da França e o primeiro-ministro Vittorio Orlando da Itália dominaram a Conferência. Vocês verão no livro o programa de paz mundial que se formava com base nos Quatorze Pontos, nos Quatro Princípios e nos Cinco Detalhamentos.

O livro de Harold Nicolson começa definindo a diplomacia:

 

“Diplomacia é essencialmente o sistema organizado de negociação entre estados soberanos. O mais importante fator em tal organização é o elemento da representação – a necessidade fundamental de qualquer negociador ser plenamente representativo de seu próprio soberano. Pequenas mudanças que têm ocorrido nos procedimentos diplomáticos não devem portanto, ser descritas como um rompimento abrupto entre conceitos éticos de uma geração e os de uma geração seguinte. É menos uma questão de ética e mais de método: em outras palavras, foi a incidência da soberania que tem se deslocado, e não os princípios essenciais por que uma diplomacia eficiente se conduz. Hoje que a democracia significa a soberania de todos nós, certas transformações óbvias na prática diplomática foram, estão sendo e serão introduzidas. Mas descrever estas mudanças em termos de valores éticos e não práticos é uma interpretação equivocada de toda função diplomática”. (pg.4)


O que Harold Nicolson quer dizer é que no processo diplomático existe uma quantidade de variáveis imprevisíveis, por isso precisamos estar  preparados para as constantes mudanças, essa é a negociação diplomática. E é aí que reside a delícia do livro.  Harold Nicolson, usando de toda a franqueza e de toda a sua experiência, nos ajuda a entender os infortúnios, erros e acertos não só dele, mas de todos os jovens diplomatas. Ele vai relatando cada caso com todas as minudências da Conferência de Paz. Resumindo todo capítulo em poucas frases. Mas o aconselhável é ler tudo, para entender os sentimentos e o verdadeiro sentido de uma Conferência de Paz.

A ideia básica da Conferência de Paris era construir, a partir das cinzas da Primeira Guerra Mundial, uma nova ordem mundial e um sistema de segurança coletivo internacional sob a Liga das Nações. Mas vamos percebendo os egoísmos nacionais, que esmagavam as possibilidades de acordo, e a consternação de jovens idealistas sentindo o peso da responsabilidade recaindo sobre os ombros.

O livro relata todos os movimentos dessa Conferência de Paz e nos dá uma perspectiva dos eventos em questão, percebida por quem esteve dentro de todo esse processo. “O Tratado de Versalhes - A paz depois da Primeira Guerra Mundial” pode ser considerado um manual para diplomatas, mas também para o público leigo que se interessa pela História em um dos períodos mais conturbados da humanidade. É um livro simplesmente maravilhoso. Não tinha a menor ideia de como se desenrolava um processo político de tamanha complexidade.

O livro se divide em duas partes: 1) Memórias da paz de Versalhes e 2) Diário da Conferência de Paris. Na primeira parte, o autor descreve o nível de tensão do pós-guerra. Um clima muito hostil, em que as emoções de milhões de mortos e feridos pesariam sobre as decisões. Todos queriam punição ao agressor, a Alemanha.  Os ventos da histeria popular foram capitalizadas pelo jornal “Times”, sob controle de Lord Northcliffe: “Nenhuma compensação é alta demais para que não possamos pedi-la”, proclamou Mr. Austen Chamberlain, em Birmingham. Mr. Lloyd George estava imobilizado pela onda de patriotismo oriunda de seus seguidores e do jornal Times. Como não perder a cabeça em um clima como esse? O ódio sobreviveu. Mas Mr. Lloyd George tinha que equilibrar as vozes vindas das ruas com os princípios que norteavam sua consciência. Na segunda parte do livro, estão os pensamentos retrospectivos, leitura que considero essencial, principalmente para os leitores mais familiarizados com o tema.

Esse tratado garantia que a Alemanha não seria desmembrada ou punida, mas sim que manteria intactos a sua integridade e o seu poder. O armistício foi aceito, tendo como base os Quatorze Pontos e mais uma compensação por danos de guerra aos países diretamente envolvidos. Os alemães concordaram em deixar as armas nessas condições.

No entanto, o que os alemães e os austríacos não sabiam era que o enviado especial de Woodrow Wilson, o coronel House, representante dos Estados Unidos no “Conselho de Guerra Aliado”, havia feito uma reunião secreta com Clemenceau e Lloyd George e transmitira um comunicado telegrafado, sob forma de “comentário”, para o presidente Wilson em Washington, jamais comunicado aos alemães e austríacos. Nesse comunicado, tiravam todas as vantagens dos pontos anteriormente aprovados, que incluíam o desmembramento da Áustria e Hungria, a perda das colônias alemãs, a separação da Prússia por um corredor polonês e mais as reparações. O tratado não foi baseado na premissa da “culpa de guerra”, mas girava em torno do princípio de “recompensas” aos vitoriosos e castigo aos vencidos.

Outro ponto abordado por Harold Nicolson foi a catástrofe da desorganização. Não havia nada estruturado. Apenas um comportamento antigermânico que predominava em todo o processo, tanto na substância como na forma. No começo, pensava-se que o Tratado de Paz seria estabelecido pelos aliados entre si e que depois os alemães e seus parceiros apareceriam para negociá-lo.  Pois fora exatamente assim que acontecera no Congresso de Viena.

Woodrow Wilson, presidente dos Estados Unidos, era a estrela da Conferência de Paz, com a chancela de ser o homem mais poderoso do mundo e de ter a habilidade de se pronunciar na hora dos grandes impasses. Para ele, a proposta de organização de um novo mundo tornou-se o objeto central da Conferência, assunto sobre o qual, até então, não demonstrava grande entusiasmo. No entanto, um acordo entre os próprios aliados estava muito difícil.

Quando finalmente foi permitida a chegada dos Alemães a Paris, descobriram que não negociariam a paz, mas que ela seria imposta. Tendo já concordado com o armistício, tudo agora não passava de um grande embuste. O comportamento de Clemanceau, que insistiu numa punição mais severa aos alemães, era, na verdade, uma pequena vingança à guerra de Bismarck, que humilhara a França em 1871 na famosa guerra franco-prussiana.

Quando o acordo foi assinado, finalmente, em meio a protestos, Lloyd George tentou amenizar os termos, especialmente na fronteira alemã-polonesa. Ele temia uma nova guerra, que anos mais tarde aconteceu. O que os alemães conseguiram diante das hostilidades de Clemenceu e de Wilson hostis foi um plebiscito para Silésia Superior.

O relato de Nicolson sobre a Conferência de Paz traz muitas polêmicas, como qualquer livro de memórias ou lembranças pessoais. Ele dá um destaque especial a Lloyd George, assim como a toda a delegação britânica, dando um tom de equilíbrio, alardeando ora seus sucessos, ora seus fracassos. Culpa as delegações francesas e italianas pelo nacionalismo vaidoso. Não poupa Clemenceau, mas também não alivia o presidente americano Woodrow Wilson.

John Maynard Keynes, economista famoso que trabalhou no tesouro britânico e foi conselheiro da delegação britânica nas negociações de paz durante a Primeira Guerra Mundial, também participou da Conferência. Seu foco era outro, não se interessava por questões militares, fronteiras, transferências de povos, revanches, menosprezava esses assuntos. Para ele, para que aconteça um entendimento, é necessária uma paz verdadeira, que iria depender da agilidade com que um acordo permitisse o crescimento do índice de emprego e o reerguimento do comércio e da indústria. Seu argumento era simples. Para ele, se houvesse uma penalidade, teria que ser algo em torno de dois bilhões de libras, mas de forma que a Alemanha não fosse arruinada. Keynes achava mais sensato a Grã-Bretanha perdoar seus devedores. E queria que Wilson usasse sua autoridade e os recursos dos EUA para lançar um vasto programa de crédito que revitalizasse a indústria europeia. Keynes chamou essa proposta de “um grande esquema para a revitalização da Europa”. A antipatia de Keynes com Woodrow Wilson e com os americanos o fez se retirar da Conferência. O tesouro americano ficou chocado com suas ideias.  Fez duras críticas a todo o processo. Acusava os americanos de impor uma paz cartaginesa, traduzindo, uma paz brutal, que esmaga o inimigo. Saiu da Conferência desapontado para escrever mais tarde o livro “As consequências econômicas da Paz”. Um livro que fez muito sucesso.

Segundo Nicolson, seu livro “O Tratado de Versalhes”, foi um exercício de futilidades e a causa de todos os males do século XX. Um livro destinado a todos aqueles que gostam de História e para os que são estudiosos sobre o assunto. O estilo de Nicolson é seco, mas é um livro que vale a pena ler, para entendermos o lado humano de um período chave na História, e que até hoje repercute. Eu recomendo.

 


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: História


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O Tratado de Versalhes: a paz depois da Primeira Guerra Mundial
autor: Harold Nicolson
editora: Globo Livros

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