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Ler e escrever no escuro - A literatura através da cegueira

O livro “Ler e Escrever no Escuro – A literatura através da cegueira”, da escritora Denise Schittine, foi um dos melhores livros que li este ano. Já começo recomendando de cara. Destaco a originalidade do tema e uma erudição sem nenhuma afetação nem pedantismo. Uma escrita que flui, nos levando a uma viagem que vai de Ulisses de Joyce a Ulisses de Homero, passando por Sherazade, a primeira ledora, que narra para se manter viva, da qual falaremos mais adiante. Viajaremos pela mitologia grega. Denise Schettine pega a mão do leitor levando-o até Dante Alighieri, Jorge Luis Borges, José Midlin e João Cabral de Melo Neto e, claro, vai até os cegos do Instituto Benjamin Constant. Denise Schittine nos ensina que o amor incondicional aos livros não se ensina: vive-se.

Como já foi dito, Denise Schettine passeia por várias obras de escritores que ficaram cegos e nos conduz a uma viagem em que, para enxergar esse mundo, o leitor não precisa de olhos externos, e sim de olhos internos. O livro é uma boa sugestão para um clube de leitura, pois nos leva a refletir sobre o ato da leitura.  É possível ler um texto mesmo sem enxergar? A autora nos convida a exercitar outro olhar, porque as imagens estão além da folha de papel e seus caracteres. Escrever é colocar em palavras o equivalente àquelas imagens visuais que se formam no pensamento. E ler é fazer o caminho inverso: partindo dessa expressão verbal, dessas palavras, cabe ao leitor construir imagens visuais imaginativas através do seu cinema mental.

Cada indivíduo tem uma leitura que é única, baseada no seu imaginário individual. Quando conversamos sobre uma determinada obra com um amigo ou em um grupo de leitura, por exemplo, podemos constatar que cada leitor tem uma interpretação baseada na sua própria imaginação. E o mais interessante: na discussão sobre a mesma história, cada leitor fornece a sua intepretação À medida que conversamos, essa imagem (sobre a obra) pode se transformar, enriquecendo a imagem que formamos do livro lido. Os leitores se apoderam de maneiras diferentes de uma mesma escrita, e as apropriações obedecem a critérios pessoais.

O mesmo texto pode ser lido de maneiras distintas por leitores com  formações intelectuais diversas  e que possuem relações diferentes com a escrita, assim como posturas e valores sobre o mesmo ato: o de ler um texto.

Denise Schittine traz para a discussão um dos maiores expoentes da estética da recepção, Hans Robert Jauss, que destaca que no triângulo formado pelo autor, obra e leitor, o último (o leitor) jamais foi um elemento passivo, mas uma fonte de energia poderosa que contribui para a constituição do texto. A mágica de entender um texto está no fato de que, ao compreendê-lo, o leitor compreende a si mesmo. Lemos e sentimos os efeitos daquela escrita em nosso corpo, nos nossos batimentos cardíacos e nos centros nervosos que regem as emoções. Uma voz interior, a nossa voz que compreende e acompanha o texto, transforma a estrutura das palavras nos sons que vão tocar de forma diferente, em momentos diferentes.

Essa recepção nunca é a mesma. A atividade silenciosa e aparentemente passiva da leitura ajudou em muitos momentos uma série de leitores a manterem-se vivos. Um dos exemplos citados por Denise Schittine são os livros de W. H. Auden, poeta anglo-americano, tido como um dos grandes autores do século XX. Esses livros foram a força motriz do poeta Aleksandrovich Brodsky, preso por cinco anos sob a acusação de “parasitismo social”, para aguentar o frio nos campos de trabalhos forçados na Sibéria. Ou no campo de concentração de Birkenau, onde havia uma biblioteca com cerca 10 livros em que as crianças buscavam o prazer da leitura num ambiente de terror.

Antes da invenção de Gutemberg, o ato de leitura permaneceu coletivo por muitos séculos, tal como se dava com o discurso oral. A palavra mesmo escrita estava submetida à atenção do grupo social. Não era de bom tom intepretá-la de maneira silenciosa e solitária, inclusive porque o grande número de analfabetos clamava pela chance de ouvir alguém que pudesse ressuscitar as palavras da superfície estática do papel, dando-lhes vida, de modo que fecundassem o ouvido humano com as luzes de uma sabedoria longínqua.

Walter Benjamin, em seu ensaio “O Narrador”, diz que a experiência coletiva era transmitida oralmente; era a fonte de onde todos os narradores extraíam suas estórias. O narrador tinha um vínculo estreito com o seu povo, em suas camadas artesanais, diferenciadas – camponesas e marítimas. O marinheiro, o comerciante e o agricultor produziam seus narradores no decorrer dos séculos.

Vemos aqui que o conhecimento de terras estrangeiras e do passado era onde residia o cerne da narrativa em sua forma mais antiga. A existência da narrativa estava relacionada ao aconselhamento. Sua permanência dependia de sua conservação na memória do ouvinte.

As leituras populares, antes teatralizadas e aplaudidas por numerosos ouvintes, passaram aos poucos, com o advento da invenção da tipografia por Gutemberg, a não ser mais compartilhadas com outras pessoas. O indivíduo passou a ler em silêncio, aproximando-se de conceitos de modo direto, permitindo que seus pensamentos fluíssem em um nível superior de consciência, fazendo referências cruzadas e comparações, ponderando e avaliando. A leitura transcendeu a sua função social, tornando-se uma leitura mais baixa ou murmurada, quase como uma prece.

A leitura silenciosa, mesmo feita em locais públicos, é caracterizada pelo isolamento, por um muro invisível que separa o leitor do mundo à sua volta. Mesmo em espaço coletivo, sua leitura será privada. Essa leitura silenciosa será palco das especulações intelectuais e associadas a heresias, por serem realizadas individualmente. Um novo pensamento começa a encontrar liberdade para heterodoxias. É nesse momento que o ponto de vista ganha forma.

Outro ponto abordado pela autora Denise Schettine é a figura do ledor. O que vem a ser isso? Ledor é aquele que lê o texto e mantém a ligação entre o leitor e o texto. E a autora pega, como exemplo, Sherazade, que pode ser considerada, segundo ela, como “ponto zero” do que chamamos de ledor. Sherazade conta para manter-se viva. Sherazade é o próprio Adão vítima da ira de um soberano absoluto. O destino de todas as esposas dele é a morte. É a palavra de poder do sultão que lhe dá a possibilidade de casar com as virgens para matá-las depois. A crueldade (como a de Deus com Adão) é fruto de uma traição: a primeira esposa do sultão Shanyar era uma adúltera. A salvação? A palavra, o verbo. Sherazade narra para evitar a morte. Cada história é o princípio de uma nova.

“As mil e uma noites” é fruto de uma grande história, interrompida no princípio da noite com a promeça de uma continuação, no dia seguinte, a um leitor ávido. Sherazade é uma ledora, porque estende o fio entre o leitor e o texto. É uma excelente ledora, pois seduz o ouvinte com seu dom de contar histórias e, mais ainda, a com o amor que tem pelo texto. Amor genuíno de leitor. O ledor que ama o texto conquista um círculo de ouvintes.

Ser ledor é reencontrar a voz primordial. No caso de um leitor cego, a voz do ledor some e, magicamente, as vozes do autor e do narrador do livro aparecem na cabeça do leitor cego. Leitores cegos não são leitores comuns, como bem observa Denise Schettine. Eles precisam de ledores. Vozes únicas, particulares e especiais, que emergem da escuridão e dão o tom da conversa, de intimidade, de aproximação com os livros compartilhados. Esses ledores têm uma grande missão, são focos de luz sem os quais o mundo de papel estaria perdido para alguns cegos.

Jorge Luis Borges, como todos sabem, ficou cego, voltou-se inteiramente para a tradição oral e para a poesia clássica. A litertatura tornou-se a sua principal saída e, nesse poema Poema de los dones, retrata essa relação entre a literatura e a cegueira:

“Ninguem derrame a lágrima ou reprove

Esta declaração magistral

 De Deus, que com perfeirta ironia

 Me deu de uma só vez os livros e a noite.” (pg 178)

Ao contrário de João Cabral de Melo Neto, que não se conformou com a perda da visão e evitou a presença do ledor por não ter a mínima paciência e nem ouvido para a escuta. Sua relação era com o olhar mais as palavras.

Fico por aqui. E convido a todos a deliciar-se com a narrativa fluida de uma jornalista, de uma doutora em literatura que sabe dialogar e se comunicar como ninguém com o leitor. Denise Schettine tem a delícia da palavra em seu texto. Estabelece um diálogo entre autores e leitores fundamentada em estudiosos como Roland Barthes, Hans Robert Jauss e muitos outros.

“Os olhos da imaginação” independem da visão externa. Esses olhos podem, sim, ser usados por autores cegos. Existe uma sensibilidade totalmente diferente. Enquanto o leitor comum se distrai levantando os olhos para uma paisagem ou uma cena, o cego fixa-senum ponto de luz para absorver melhor o conhecimento. Parecem estar sempre em êxtase em seus mundos. “Ler e escrever no escuro – A literatura através da cegueira” é um livraço. Um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.

Cegueira, Jorge, Luis Borges, João Cabral de Melo Neto, Hans Robert Jauss, Roland Barthes, Ledores, Narradores, Sherazade, Mil e uma noites , Amor aos livros, James Joyce, Homero


Data: 27 junho 2017 (Atualizado: 27 de junho de 2017) | Tags: História


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Ler e escrever no escuro - A literatura através da cegueira
autor: Denise Schittine
editora: Paz e Terra

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