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As vinhas da ira

"As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, foi um livro que marcou época. O livro quando publicado causou um imenso mal-estar na América. Um livro selvagem. O livro é considerado sua obra-prima, e recebeu o Prêmio Pulitzer de ficção. Steinbeck é um dos autores mais profícuos do século XX. Foi humilhado pelo New York Times quando venceu o Prêmio Nobel de literatura em 1962. O motivo deve-se à crítica que ele fazia ao materialismo americano. E sua obra foi muito bem recebida em países comunistas e nos países escandinavos, justamente aqueles países que criticavam o modo de vida americano. A fama de comunista acabou sendo uma acusação totalmente infundada, principalmente na época do Macartismo.

Nascido em Salinas, na Califórnia, Steinbeck estudou Ciências Naturais na Universidade de Stanford, mas não levou os seus estudos adiante, pois sempre se considerou um escritor. Durante seus longos anos universitário, acompanhou migrantes que atravessavam Salinas e escreveu artigos sobre eles. Mas “As Vinhas da Ira” revelou-se radicalmente diferente. Diferente, como? Simples. Steinbeck mudou-se para os acampamentos dos migrantes e penetrou naquele universo. Quando concluiu o seu livro, foi acusado de “comunista” e “judeu” atuando para interesses comunistas sionistas. O livro foi queimado em praça pública, banido das escolas, bibliotecas. Foi atacado pelo Congresso, e o sucesso posterior do livro na Rússia corroeu ainda mais a sua reputação da época da Guerra Fria em diante.

Foi em 1929 que “As Vinhas da Ira” foi escrito, ou seja, em plena depressão econômica. Ao migrar para os acampamentos, vivia a vida de seus personagens. Para escrever o livro, ele se mudou para Oklahoma, juntou-se a alguns migrantes e viajou com eles até a Califórnia.

“As Vinhas da Ira” começa com Tom Joad, o personagem principal, pedindo uma carona para casa após ter sido libertado da prisão estadual. O motivo da prisão foi um assassinato em decorrência de uma briga em um bar, por autodefesa. Por essa razão, recebeu a pena de sete anos.

Ele pega uma carona que o deixa na estrada que levava à sua casa. Tom caminha em direção à sua casa quando ele encontra com um homem chamado Jim Casy, um antigo pregador que havia perdido a ligação com a Igreja. Jim acaba se juntando a Tom Joad no caminho para sua casa. Quando eles chegam à casa, eles têm a impressão que estão no deserto. A antiga casa estava simplesmente desaparecendo, abandonada. Até que eles encontram Muley Graves, um vizinho da família que informa que os familiares de Tom estão na casa do tio John. Acabam dormindo na antiga casa de seus pais, agora abandonada. No dia seguinte pela manhã, caminham até a casa do tio John. Quando eles chegam à casa, percebem que todos estão preparados para sair. A família explica a Tom que os bancos e as grandes empresas fecharam todas as fazendas e a maioria dos agricultores está indo em direção à Califórnia na esperança de encontrar trabalho. A família vendeu todos os seus pertences e obtiveram alguns dólares, o suficiente para fazer uma viagem longa. Jim Casy, o ex-pastor, acaba se juntando.

Quando tudo está pronto, um pequeno incidente ocorre. O avô Joad tem um ataque de pânico, e a família precisa drogá-lo para acalmá-lo e seguir viagem com todos. Logo no início da jornada, por causa de um acidente vascular cerebral, o avô acaba morrendo. Encontram uma família chamada Wilsons e os ajudam consertando o carro quebrado. Os Joads e os Wilsons viajam para a Califórnia juntos. Quando chegam ao destino, a senhora Wilson fica doente e precisam parar a viagem. Os Joads ajudam a família Wilsons e seguem viagem. A próxima perda nessa viagem é a avó, que, muito em função da morte de seu marido, fica cada vez mais doente.  Sua filha acaba assumindo sua avó Joad. O motivo é mais do que óbvio: se eles parassem no deserto, as chances de sobreviver seriam  zero. Mesmo doente, a avó prosseguiu a viagem. E acabou morrendo. Quando eles chegaram a uma estação, a avó já estava morta, e acabam enterrando-a como indigente na estrada, porque o dinheiro já está no fim.

Finalmente, eles chegam a um acampamento de migrantes. Nenhum homem consegue encontrar trabalho. Para completar o desespero, um homem com uma limusine chama os trabalhadores para trabalhar, mas o convite não fala em preço da mão de obra. Um clima pesado começa a atingir a todos. Ninguém aceita o convite. Como vingança, o xerife da cidade ordena que todos saiam do acampamento naquele momento. E vou parando por aqui.

Posso dizer que esse romance é tão importante que o protagonista virou música: “The Ghost of Tom Joad”, de Bruce Springsteen. Essa música, de grande sucesso, dá uma ideia bastante clara da influência que o livro exerceu nos corações e mentes dos artistas, escritores, e leitores americanos até hoje.

O enredo do romance de Steinbeck, “As Vinhas da Ira”, facilmente pode ser relacionado com muitas referências bíblicas, principalmente do Velho Testamento, pois algumas passagens têm relação com a história da Bíblia, o que dá ao livro  um estilo diferente e original.  “As Vinhas da Ira”  menciona  a tempestade de poeira ocorrida em 1900 e a árdua jornada da família Joad e de muitas outras em direção à Califórnia, o que podemos relacionar com a travessia do deserto pelos judeus, narrada na Bíblia.  Steinbeck usa a poeira como uma alusão ao deserto do Egito e ao povo judeu que seguiu Moisés.

Dust Bowl significa tempestade de areia, um fenômeno climático que atingiu a América, e Oklahoma em particular, na década de 1930 e durou quase dez anos. Essas tempestades causaram graves problemas à atividade agrícola.

No livro, Steinbeck usa o caminhão para representar a arca, enquanto a família representa os animais. A segunda referência à arca de Noé é revelada no final da novela, com as chuvas que caem, que repesentam o dilúvio.

A mudança dos Joads de Oklahoma para a Califórnia é uma outra alusão. Steinbeck descreve como os Joads viajam na rota 66, sendo seguido por muitos outros agricultores procurando a terra fértil que a Califórnia tinha para oferecer. Isso se refere ao povo judeu movendo-se fora do Egito para a terra prometida na Bíblia. Os judeus estavam sofrendo opressão e escravidão no Egito, então eles fugiram para encontrar uma vida melhor e liberdade. Essa alusão também infere que os Joads eram escravos de suas terras inapropriadas para o cultivo devido à poeira causada pela poeira, e agora eles são livres.

“As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, é um livraço. O livro deixa marcas indeléveis no espírito de quem lê. Um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.                                                                                                      


Data: 07 agosto 2017 (Atualizado: 07 de agosto de 2017) | Tags: Romance


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As vinhas da ira
autor: John Steinbeck
editora: BestBolso
tradutor: Ernesto Vinhaes | Herbert Caro

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