Biografias X Biógrafos
25 outubro 2013

Joel Robinson escrita biografiaEstava acompanhando de longe a enorme polêmica sobre as biografias. Mas agora de férias, longe da correria do dia a dia, acabei lendo quase todos os artigos mais interessantes sobre o assunto que fervilha. O grupo denominado “Procure Saber” é formado por nomes que respeito, como: Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Acredito que para muitas outras pessoas esses artistas também estejam relacionados a momentos importantes e músicas memoráveis. Por isso, me senti duplamente surpreso pela polêmica: primeiramente pela ideia proposta, em segundo plano, a ideia vir de um grupo formado por pessoas que eu respeito intelectualmente e artisticamente. Então, procurei formar minha opinião, evitando os extremos e ataques pessoais. Não há decepção de minha parte, há de minha parte - discordância.

Agora, divido com vocês a minha opinião como leitor, sociólogo, livreiro por profissão e interessado nessa conversa. A discussão não é tão simples, pois abrange temas que vão além do gênero literário e envolve padrões estabelecidos até hoje sobre o conceito de público/privado (intimidade), liberdade de expressão e acesso à informação.


A primeira pergunta que me fiz foi: o que está por trás dessa polêmica? José Miguel Wisnik em excelente artigo publicado no jornal “O Globo” dá uma excelente visão:

 

“Sou da opinião de que a produção de biografias não deve ser regulada por um dispositivo de autorização pessoal do biografado ou sua família, como acontece atualmente. Este pode servir tanto para impedir infâmias quanto para travar o processo de conhecimento envolvido no gênero biográfico, e submetê-lo ao arbítrio pessoal dos diretamente implicados. Nada garante, em princípio, que esse arbítrio seja mais justo que o do biógrafo.”


A briga nos bastidores pelo domínio das biografias é forte. Os familiares têm obtido bons resultados. Os herdeiros de Mário de Andrade, Guimarães Rosa e Cecília Meireles conseguiram evitar que suas biografias fossem publicadas. A biografia de Noel Rosa, lançada em 1990, por João Máximo e Carlos Didier, não foi reeditada devido à ação de herdeiros do compositor.

Seguindo a lista de perdas, um dos casos mais toscos contados por Merval Pereira em sua coluna do jornal O Globo foi a do poeta Ledo Ivo que não podia usar nem mesmo em livros as fotos em que aparecia com seu amigo Manuel Bandeira porque os herdeiros queriam cobrar direito de uso de imagem. E eu pergunto: Isso tem cabimento?

Outro caso: Toninho Vaz, autor da biografia de “Paulo Leminski, o bandido que sabia latim”, já em sua quinta edição, foi proibido de reeditá-la pela família do poeta. Eu li essa biografia, resenhada e indicada neste blog, e como leitor e apreciador de boa literatura, afirmo: não identifiquei nenhuma passagem que comprometa a imagem, a obra, a dignidade da vida pessoal, profissional e familiar de Leminski. Ao contrário, em algumas passagens a emoção nos pega facilmente. E a admiração por esse poeta e tantas outras coisas mais – continua intacta para mim.

E qual alegação dos familiares de Paulo Leminski? “Eles não autorizam a inclusão de imagens e poemas de Paulo Leminski, pois são direitos pertencentes às herdeiras, garantidos pela Lei dos Direitos Autorais.”O outro ponto alegado para que não se publique a obra em questão é a ênfase dada ao álcool, as observações exageradas sobre a “falta de banho” (feitas por Toninho Vaz). “Tudo isso serve para criar uma imagem bem negativa do Paulo”. (Fonte: O Globo) Os familiares ainda alegam que a imagem pública de Leminski foi distorcida. Distorcida para quem e por quem? Todas as informações que recebi através da biografia lida serviram para contextualizar o poeta em sua obra, em seu tempo. Leminski foi um poeta que fez da poesia o seu alimento, dedicou-se de corpo e alma a seu trabalho, o que o fez renunciar a sua vida pessoal em alguns momentos. Passou por algumas tragédias e elas influenciaram seu trabalho, sim. Mas nunca parou. O livro de Toninho Vaz poderia ser uma primeira e bela apresentação desse poeta às novas gerações ou aqueles que ainda o desconhecem.

Aprecio biografias. Quando quiser fábulas recorrerei a Charles Perrault.

Em 1986, artistas e intelectuais protestaram contra a censura do filme “Je Vous Salue Marie”, de Jean Luc Godard, e Roberto Carlos mandou uma carta ao então Presidente Sarney parabenizando-o pela proibição. Resgato esse fato por ver, mais uma vez, a censura sendo utilizada em nome do bem, como ferramenta moral, tentando direcionar o que se deve ver e pensar. Isso sempre me assusta.

Voltando às biografias, em 2007, Roberto Carlos impediu a venda de sua biografia escrita por Paulo Cesar Araujo. Esse mesmo Roberto Carlos que proibiu o livro “Jovem Guarda: moda, música e juventude” de Maíra Zimmermanm. Agora, Roberto Carlos faz parte do grupo “Procure saber”, endossando a proibição das biografias não autorizadas. E me pergunto: por que Roberto Carlos sempre aparece nesses “momentos”? No caso dele, vejo um motivo especial: “muitas emoções”.

Eu entendo a preocupação dos biografados quanto à veracidade das informações levantadas e as inverdades que possam ser lançadas por uma biografia oportunista. Mas existem leis que protegem e permitem ao biografado, anônimo ou pessoa pública, o direito de se manifestar caso constate a injúria, difamação e uso de informação falsa. Existem leis no Brasil que punem aqueles que ferem a personalidades de terceiros. Há mecanismos que inibem a prática de maus profissionais.

Por exemplo, a biografia de Guilherme de Pádua (assassino da atriz Daniela Perez) foi citada por Caetano Velloso como um exemplo da necessidade da prévia censura. Glória Perez impediu a publicação da biografia escrita por esse assassino, evitando que a perda de sua filha fosse narrada pelo próprio. Alguém discorda de Glória Perez? Claro que não! Ninguém está triste ou indignado por ter perdido a oportunidade de ler essa obra oportunista, comercial, sem escrúpulos e de péssimo gosto. Portanto, há biografias e biografias. É isso que precisamos entender.

Sou livreiro há 10 anos e posso dizer: nunca me pediram a biografia de Guilherme de Pádua. Citar essa biografia é um argumento totalmente despropositado e passional. Não defendo aqui assassinos, mas advogo pelo direito de escritores, biógrafos e historiadores sérios continuarem a exercer suas pesquisas e a oferecer ao público leitor material sobre nossas personalidades, registrando nossa história.

O professor Francisco Bosco, filho do compositor João Bosco, (e amigo de um mestre maravilhoso, talvez o maior que já tive, Roberto Corrêa dos Santos), levanta alguns argumentos a favor da censura às biografias. Em seu artigo no jornal O Globo, ele diz:

 

 

“Recentemente, uma nova biografia sobre Marx afirma que o filósofo teria tido um filho não assumido com a empregada que trabalhava em sua casa. É um fato — se for mesmo um fato, como tudo indica — significativo e de interesse geral: o influente pensador da luta de classes comportando-se como um senhor de engenho. No mínimo, ensina alguma coisa sobre as contradições entre teoria e práxis. Agora imaginemos que Marx estivesse vivo. Pergunto: que ele seja uma “figura pública” deve implicar que o Estado assegure o direito a que ele tenha sua vida devassada e devastada em nome do interesse coletivo?”


Quantas biografias sobre Marx existem publicadas no mundo? Milhares. Diversas, em todas as línguas, por diferentes biógrafos e abordagens. Saber sobre sua vida é tão fascinante quanto sua obra, concordando ou não com suas ideias. Se Marx teve um filho secreto com uma empregada ou com uma prostituta nada disso denigre sua vida e obra. Ele está acima dessas discussões menores. E vou além: nenhum intelectual sério se debruça sobre a obra de Karl Marx para discutir suas aventuras extraconjugais. Para esse tipo de curiosidade, temos revistas e blogs de fofocas. Não creio que Marx se deixasse abater por esse tipo de ilação.

Eu cito outro exemplo em contraponto ao de Marx: “Confissões”, a autobiografia de Jean-Jacques Rousseau, escrita pelo próprio, na qual ele admite e relata deslizes de sua conduta, como o abandono de seus quatro filhos em um internato, a traição cruel a sua grande companheira e o relato de um perfil paranoico em diversas ocasiões. Rosseau não teve escrúpulos ou reservas para falar sobre si. Nunca temeu a opinião alheia. E ninguém deixou de admirar sua obra e o legado cultural, concordando ou não com sua linha de pensamento, devido a sua vida pessoal conter passagens como as citadas acima.

E os exemplos acima nos fazem pensar sobre o que o público deveria conhecer ou não sobre Marx e Rosseau. Ora, vamos permitir que os leitores, fãs e interessados tirem suas próprias conclusões, formem suas próprias opiniões e determinem para si o que consideram relevante ou não. Por que omitir e tentar manipular informações? Que universo fantasioso pretendemos construir sobre nossa história ao evitar que algumas verdades sejam ditas ou dúvidas levantadas?

Mas as figuras públicas não querem ter suas vidas privadas expostas e solicitam o direito não somente a sua privacidade, mas ao direito a delimitar o que será escrito e divulgado sobre suas vidas. E assim, os leitores, pesquisadores e as novas gerações irão receber biografias “maquiadas”. O público não quer biografias chapa marrom e nem chapa branca. O público quer construir sua própria opinião, com boas biografias.

Existe algo que não fecha nessa discussão entre público e privado. Peguemos o exemplo da exposição pública de Caetano Veloso, no caso dos Black Blocs. Caetano abençoa um grupo que invade e quebra o patrimônio “público” e “privado”, se expõe voluntariamente nas redes sociais em crítica  a uma “esquerda enlatada”. E após tanta exposição reclama para si o direito à privacidade? Se Caetano se expõe dessa maneira tão “libertária” - e tem todo o direito de fazê-lo - o que me causa estranheza é seu comportamento nada “libertário” diante das biografias, e vir a público pedindo a não invasão de sua vida privada - e libertária. Sinceramente há algo nessa conta que não fecha.

Colocar nas biografias não autorizadas a culpa exclusiva da invasão de privacidade de uma figura pública é dar a um gênero literário uma força que ele não tem. Com a tecnologia e a internet como meio, todos nós – anônimos e celebridades – estamos expostos aos mesmos riscos. E a paz das figuras públicas e comuns se tornou uma janela devassada por celulares de plantão.

Quanto à questão financeira, não conheço nenhum biografo bem sucedido, que tenha enriquecido com esse gênero. Apontem-me apenas um. Nem os artistas que lançaram suas próprias biografias podem falar sobre cifras invejáveis.

E enquanto discutimos a publicação ou não de biografias relevantes, o atual campeão de vendas de biografia é o Bispo Edir Macedo, com sua trilogia “Nada a Perder 1” e “Nada a Perder 2: meus desafios diante do impossível”, com milhões de cópias vendidas, só no primeiro livro. (Fonte: Revista Veja). Isso é assustador. A biografia mais lida no Brasil é sobre um pastor fundador de uma igreja (Igreja Universal), envolvido em vários escândalos, acusado de estelionato, charlatanismo e com vasta folha corrida na justiça. É claro que isso não deve constar em sua biografia, afinal, a biografia de Bispo Macedo é autorizada e aprovada pelo próprio. Não seria interessante ter uma outra versão sobre esse homem tão religioso? Mesmo que não autorizada?

Estamos colocando em risco a perda de nossa memória cultural, o registro da presença e participação de personalidades relevantes em nossa história em nome de questões menores e pessoais ao coibirmos o trabalho de profissionais sérios. Ao editarmos as histórias da vida de nossos escritores, artistas, músicos, compositores, políticos, arquitetos e tantos outros, estamos editando a nossa história geral, seremos um país de “únicas versões”, sem direito a comparações e escolhas. E teremos de acreditar numa única voz, sem direito à dúvida.

Por falar em políticos, muitos defendem a privacidade desses homens e mulheres que enriquecem com o dinheiro público, e defendem a ideia de que os mesmos devem ser avaliados e julgados unicamente por seus feitos públicos e não por sua vida pessoal. Discordo plenamente. O homem público tem sua origem na sua estrutura pessoal e ética que deverá se estender à vida política. Para ganhar votos, eles se valem de modelos de integridade pessoal e familiar para traçar seu caminho, vendem uma imagem de credibilidade para chegar aos cargos que ocupam e fazem questão de exibir um perfil pessoal digno, equilibrado,com família e filhos. Se tão honestos, qual o receio das biografias? Vamos preservar o direito a discordar, discutir, processar, ganhar e perder. Não é por democracia e transparência que passamos mais de 20 anos lutando – e cantando?

Ainda nesse cenário político, um caso curioso ocorreu com a Chefe de Gabinete do ex-Presidente Lula, chamada Rosemary Noronha - que frequentava a intimidade, como poderíamos dizer, “funcional” do Presidente. Rosemary foi indiciada por formação de quadrilha, tráfico de influência e corrupção passiva pela própria Polícia Federal. Ela ameaçou falar e foi blindada com os melhores advogados do Brasil para que não falasse nada além dos crimes de que foi acusada. Para alegria de muitos sua intimidade não virá a público. A privacidade de Lula e Rosemary está garantida. E o contribuinte? Um dia, Lula e Rosemary poderão ganhar uma biografia falando sobre suas vidas. E se for autorizada, serão retratados como personalidades fortes e humanas, acima de qualquer suspeita. Será uma biografia bem escrita, autorizada e não confiável. É isso que queremos?

Concluindo, me surpreende por estar discutindo aqui no Brasil o direito à livre informação em um mundo onde a ideia de compartilhamento faz parte de nossas rotinas. O que vejo não são pessoas preocupadas com suas privacidades, mas a necessidade de determinar o que outro irá pensar sobre ela, uma tentativa de orientar e manipular a crítica sobre suas próprias histórias.

Que cada um escreva sua própria história como a quiser contar. E que os pesquisadores, historiadores e escritores também possam escrever e nos oferecer outras fontes para comparação e discussão. Que as inverdades sejam punidas, mas o acesso à informação e à liberdade de expressão jamais sejam suprimidos das nossas estantes de casa, das prateleiras das livrarias, das vidas de tantos que ainda estão aprendendo a formar sua própria opinião sobre as coisas e precisam de material e não de uma única versão calculada, editada e publicada. Em outras palavras, biografias sem photoshop, sem retoques de imagem.

Termino citando Rosseau, um trecho de seu livro “Confissões”. Uma personalidade mundial que não teve receio de se expor, simplesmente por saber que sua obra e legado sempre foram mais importantes para o mundo do que sua pobreza humana:

 

 

“Soe quando quiser a trombeta do juízo final: virei, com este livro nas mãos, comparecer diante do soberano Juíz. Direi altivo: “Eis o que fiz, o que pensei, o que fui. Disse o bem e o mal com a mesma franqueza. Nada calei de mau, nada acrescentei de bom; e se me aconteceu usar algum ornato indiferente, não foi para preencher um vácuo da minha falta de memória. Talvez tenha imaginado ser verdadeiro o que eu acreditava que o devesse ser, porém jamais o que eu soubesse ser falso. Mostrei-me tal qual era: desprezível e vil quando eu fui; bom e generoso, sublime quando o fui; desnudei meu íntimo, tal como tu viste, Ente Eterno. Reúne ao meu redor a turba inumerável dos meus semelhantes; que eles ouçam as minhas confissões, que gemam com as minhas indignidades, que corem com as minhas misérias. E que, por sua vez, cada um deles descubra seu coração aos pés do seu trono, com a mesma sinceridade; e após, que um só deles te diga, se o ousar: Fui melhor que aquele homem.” (Livro Primeiro - Confissões, Jean Jacques Rousseau - Editora Edipro)

 




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