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Travessuras da menina má

“Travessuras da menina má” foi um dessas leituras em que tive aquela sensação de quero mais.

Quando li a última página, senti uma grande saudade daquela história de amor e dos personagens que vivenciaram todos aqueles momentos. O livro é simplesmente delicioso.

Muitos que acompanham este espaço já devem ter lido. Li recentemente e simplesmente amei. Vocês que já leram sabem do que estou falando.

O romance é conduzido de uma maneira leve, generosa, com momentos engraçados e às vezes trágicos. Llosa é um contador de história que não nos cansa com descrições maçantes. É econômico em sua narrativa. Os detalhes e o conjunto se harmonizam.

Os cenários por ele descritos são cúmplices dessa história. Tudo começa no “verão fabuloso” de 1950, quando Ricardo Somocurcio, um menino peruano de 15 anos de idade, encontra Lily, uma adolescente deslumbrante, que afirma ser chilena, no bairro de Miraflores em Lima, Peru. Eles dançam o mambo naquele “turbilhão demoníaco”, puxando Ricardo para a sua órbita, despertando o seu desejo e escravizando-o. Só ela pode responder ao seu desejo. E por mentir sobre seu nome e sua nacionalidade (que de chilena não tinha nada), com o tempo, Ricardo, ao saber dessa mentira, já estava perdidamente apaixonado.

O feitiço de sua risada maliciosa e o olhar zombeteiro de seus olhos cor de mel escuro capturou seu coração. Ele se apaixona por ela, mas ela lhe escapa, estabelecendo um precedente que será por toda a vida. Até o início dos anos 1960, ele vive em Paris, estudando com afinco para se tornar um tradutor da UNESCO. Lá ele encontra Paul Escobar, um comunista peruano que traz na bagagem alguns guerrilheiros recrutados que estão a caminho de Cuba, via Paris, para treinamento militar. Entre os guerrilheiros trazidos do Peru com destino a Cuba, está a “camarada” Arlette, que na verdade é Lily, a chilena postiça.  

Ricardo encontra-se com ela, desfrutando de um período de felicidade e êxtase quando ela vai a seu quarto, se torna sua amante e está disposta a abandonar a causa revolucionária e viver com ele em Paris. O reencontro é marcado como um sopro de realidade na vida de Ricardo. Mas, infelizmente, é impossível ela permanecer em Paris, devido aos compromissos revolucionários assumidos em Lima de ir a Cuba.

Pouco mais tarde, ele soube, por intermédio de informações pouco exatas vindas de Cuba, que Arlette tornou-se amante do comandante Chacon (um dos líderes da guerrilha peruana). Esmagado e deprimido, Ricardo perde-se em seu trabalho de intérprete da Unesco e inicia um curso de russo. Mas se você pensa que a camarada Arlette, ou Lily, está pensando em revolução, tirem o cavalinho da chuva. Ela vai para Cuba e reaparece de novo, na França, linda e maravilhosa, mas com um novo nome, dessa vez como Madame Arnoux, esposa de um diplomata francês, nome esse extraído do personagem de Flaubert no livro “Educação Sentimental”. Ricardo anseia por ela ardentemente e ela alegremente o rejeita recitando o seu velho refrão: “Quantas breguices você me fala, Ricardito”. E mais uma vez ela desaparece.

Como podemos ver, Lily se transforma em Arlette (revolucionária) e agora se transforma em Madame Arnoux (esposa de um diplomata francês). E reaparece como Mrs. Richardson, esposa de um inglês rico viciado pela paixão aristocrática por cavalos. Seus disfarces chegam ao Japão, onde tem um caso doentio com um gangster que Ricardo supõe que seja da Yakuza, a máfia japonesa. E mais uma vez Ricardo aparece e mais uma vez ficam juntos. Mas não fica só por aí. Isso pouco importa para os sentimentos de Ricardo.

Os sentimentos que nutre por essa perigosa e carismática menina má ultrapassam todas as extravagâncias ao longo da história com suas inúmeras máscaras. Ricardo também se julga um apátrida, sem identidade, e sua máscara é ele mesmo. Não se sente francês e muito menos peruano, apenas um homem sem identidade fixa. A menina má lança uma máscara atrás da outra por uma necessidade de excitação e riqueza que apenas os homens poderosos e perigosos podem oferecer. Mas tudo tem um preço a ser pago. Onde será a próxima vez que o bom menino vai encontrá-la? Ela é má, admirável, ou ambos? Qual será o próximo amante da menina má? Quanto tempo Ricardo conseguirá aguentar todas essas desventuras amorosas? Será que ela voltará?

Para aqueles(as) que conhecem a história, essas perguntas poderão parecer tolas. Mas para os que não conhecem, espero de coração que sirvam de incentivo a ler essa história de amor deliciosa. Vargas Llosa investiga a fundo esse relacionamento disfuncional, passando por todos os momentos históricos importantes onde essa trama se desenrola.

“As Travessuras da menina má” se desenrola em uma série de interlúdios tensos que se movem em vários países em três continentes.

Sem perder o fio da meada, ele nos leva a subtramas maravilhosas. Nós seguimos o lado escuro da vida noturna em Tóquio, encontramos um místico peruano que parece conversar com o mar, acompanhamos a autodescoberta de um menino mudo que aprende a falar várias línguas.

Vargas Llosa tem um fascínio por pessoas comuns, mas cada indivíduo possui uma história escondida pronta para ser desvendada na hora certa, antes de entrar no jogo. Por isso, indico sem pestanejar as peripécias de “As Travessuras da menina má”, que vai fazer você, leitor, rir e chorar.

Um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


< Um pequeno herói Os largados >
Travessuras da menina má
autor: Mario Vargas Llosa
editora: Editora ArteEnsaio

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