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Sergio Y. vai à América

É gratificante acompanhar a produção literária de um escritor. Ou melhor, quando descobrimos um bom escritor para acompanhar. Tive a sorte de ler “Matias na Cidade”, devidamente indicado neste blog há alguns anos, e agora a “sorte” bateu a minha porta, mais uma vez, com: “Sergio Y. vai à América”, segundo livro do escritor e diplomata Alexandre Vidal Porto.

Além de diplomata, Alexandre também é mestre em direito pela Universidade de Harvard e, atualmente, está no Brasil, vindo de Tóquio, onde morou nos últimos tempos.  Um dia desses, tomamos um café na Livraria da Travessa e foi muito bom conversar sobre a história de seu livro, o perfil dos personagens, a escolha dos nomes, as tramas, e, claro, como surgiu a ideia, o que “deflagrou” a construção da história de Sérgio Y.

O livro surgiu através da conexão poética estabelecida entre os escritores Walt Whitman, em seu poema “Crossing Brooklyn Ferry” e o poema de Fernando Pessoa “Saudação a Walt Whitman”. Ambos os trechos citados logo na primeira página. Uma bela premissa.

Mas vamos ao livro...

A história prende o leitor do início ao fim e os personagens são absolutamente factíveis, e não foi à toa que arrebatou o Prêmio Paraná de Literatura. Destaco a escrita elegante e precisa, sem abdicar da necessária sensibilidade para contar uma ótima história. O livro é bom de ler. Os capítulos são curtos e permitem espaços para respiração.


O narrador da história chama-se Dr. Armando, um médico psiquiatra, reconhecido e conceituado no meio. Formou-se em medicina, fez residência médica nos E.U.A. e doutorado na USP. Um homem que abraçou a medicina como poucos, a exemplo de seu falecido pai. Um homem que carregava todas as qualidades profissionais. Armando é viúvo e com uma filha determinada, que sabe o que quer. E é ele que começa a história, nos contando um de seus casos mais intrigantes, talvez o caso que tenha mudado sua vida para sempre:

 

“Quero deixar bem claro que não gostaria, a esta altura da vida expor a intimidade de uma pessoa que confiou sua privacidade a mim. No entanto se comento esse caso clínico e, de alguma maneira, falto ao meu juramento profissional, é pela mais meritória das razões. Meus olhos não foram cegos. Minha língua não calou aos segredos que me foram revelados. Eu sei. Mas tenho princípios. Minha intenção ao contar essa história, nada tem de nocivo. Quero tornar-me um médico melhor e um ser humano mais íntegro. Quero apenas aprender. O paciente sobre quem falarei chegou ao meu consultório recomendado pela diretora da escola em que estudava, minha amiga de faculdade. Em sua mensagem de e-mail, ela me dizia que me procuraria um aluno de 17 anos, “articulado, inteligente e confuso”. Segundo ela, seria um “caso interessante”. Eu levei suas palavras em consideração”. (pg. 17)


Sergio Y.  é o nome fictício de seu paciente real. Seus avós vieram da Armênia e criaram sua fortuna no Brasil. Os traços psicológicos de Sergio Y.  são de uma pessoa infeliz. Tinha o amor dos pais, gozava de uma boa condição financeira. Um rapaz querido pelos amigos, um aluno muito bom. Tudo indicava a felicidade, no entanto, essa felicidade não existia. O que sempre chamou a atenção do Dr. Armando era a sua integridade. A busca pela psicoterapia partiu dele e de mais ninguém. A família era o ponto nevrálgico de sua infelicidade. Não que seus pais fossem “o problema”, mas na relação entre eles faltava aquele "algo mais". Em uma das sessões, mencionou as palavras proferidas pelo avô em seu 103º aniversário. Palavras que se fixaram em sua mente e ficaram guardadas.. E elas diziam:

 

 

“Por isso, a mensagem que eu gostaria de deixar aos mais novos é que acreditem que a felicidade existe. Vão atrás dela, mesmo que para isso vocês tenham de fazer uma coisa nova, que nunca imaginaram fazer. A felicidade vem da coragem de fazer algo novo. A felicidade existe. Eu sou a prova viva disso.” (pg. 40)


As sessões seguiam seu rumo normal até que numa viagem a Nova York, Sergio Y. traz as obras de Fernando Pessoa (bilíngues), explicitando o fascínio pelos heterônimos, ainda com a bolsa do dutty free de presente para Dr.Armando e uma gravura de um navio SS Kursk que fazia a rota de imigração da Lituânia para os E.U.A.

E aí cabe um detalhe importante no livro: as dicas turísticas dadas pelo seu psicoterapeuta, por alguma razão que não irei mencionar, ligaram algumas ideias que estavam descoordenadas na cabeça de Sergio Y. E o mais interessante foi a partir dessa chegada de Nova York que Sergio Y. se deu alta, causando estranheza ao médico e certa irritação, já que ele ainda não estava seguro do que se passava na cabeça de seu paciente. Tudo estava no início.

Alguns anos se passaram, Dr. Armando nunca mais havia tido notícias de seu paciente até encontrar com a mãe de Sergio Y. e ser recebido com os maiores elogios. Sergio Y. se mudara para Nova York onde se diplomara em gastronomia, seus pais que eram ricos patrocinaram o maior sonho de Sergio Y. que era ter o seu próprio restaurante. Estava vivendo o “grande momento de sua vida.” E, segundo sua mãe, Sergio Y. atribuía a seu psicoterapeuta o resultado de toda aquela revolução.

Até que um dia, Dr. Armando se defronta com uma notícia na internet que lhe deixa arrasado. Qual seria a notícia? Quem é Sandra? Quem é Laurie Clay? Afinal, por qual motivo Sergio Y. reescreve sua própria história, assim como a de seu psiquiatra?

Um thriller? Não!  Não é um romance policial. É um romance investigativo feito por um psiquiatra experiente e renomado que deseja rememorar sua trajetória com um de seus pacientes mais interessantes. Em contraponto, Sergio Y., um paciente que se deu alta e seguiu suas próprias escolhas. E essa memória troca carícias com o esquecimento. Aliás, um tema bem contemporâneo.

Sergio Y. Vai à América” vai prender você do início ao fim.. Vamos aprender que muitas vezes, em uma atitude involuntária, podemos salvar vidas ou então acabar com elas. Uma história que nos instiga a viver e, certamente, merece um lugar em sua estante.

 


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


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Sergio Y. vai à América
autor: Alexandre Vidal Porto
editora: Companhia das Letras

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