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Romeu e Julieta na Aldeia

Na história da literatura mundial as histórias de amor trágicas têm enorme apelo e marcaram gerações durante séculos como, por exemplo, o conto de “Píramo e Tisbe.” Este conto inspirou William Shakespeare a elaborar a sua mais famosa obra, “Romeu e Julieta.” “Tristão e Isolda”, “Abelardo e Heloisa”, de Jean Jacques Rousseau, que inspirou “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, “Ana Karenina” de Tolstoi. Em cada época há uma forma de viver e morrer em nome do amor.

O livro de que falaremos hoje é de Gottfried Keller, “Romeu e Julieta na Aldeia.” O título do livro prepara o leitor para guerra entre famílias, amor frustrado, e morte trágica, mas a palavra “aldeia” dá outro enfoque ao conto original de Shakespeare. Esta história, de fato foi baseada não em Shakespeare, mas em uma reportagem de jornal. A ênfase nessa história não está colocada na paixão propriamente dita, e muito menos na inimizade familiar, mas nas condições sociais e psicológicas que impedem um casal destituído de qualquer bem material de se casarem. Keller posiciona esses elementos necessários dentro de sua visão particular da vida da aldeia. A aldeia em questão é imaginária, pertencente à Suíça e fazem parte dos contos do povo de Seldivila escritos pelo autor.


Vamos ao livro? O livro começa de uma forma bem forte. Duas crianças, protagonistas do romance, durante uma brincadeira, são tomadas por um impulso de uma curiosidade mórbida, rasgam uma boneca a fim de examinar-lhe o interior. Uma brincadeira típica de crianças que, na voz do narrador assume contornos estranhos. A anatomia da boneca é associada à humana, e animal. E essa brincadeira na verdade é uma atividade cirúrgica e por que não dizer um quase homicídio cruel. A cena narrada tem o seu clímax quando as crianças, após deceparem a cabeça da boneca, enterram uma mosca em seu interior, e passam a ouvir os zumbidos como se a cabeça falasse. Keller nos mostra a rusticidade numa crítica à psicologia da vida da Aldeia. No entanto, essa passagem “grotesca” é usada por Keller para pontuar o destino que traz a partir dessa brincadeira um sentimento embutido entre essas duas crianças e onde essa história vai desembocar. Talvez essa passagem – esse é o meu ponto de vista – seja uma metáfora do destino desses dois jovens.

A alquimia que resulta da brincadeira revela, além da incongruência de suas combinações, a incoerência da própria realidade. A atividade lúdica de Sali e Vrenchen é capaz de trazer à tona aquilo que são as fendas e as feridas desse lugar. Eles subvertem a experiência pela maneira como procedem com o boneco, ou seja, “existe um segredo enterrado”. (Walter Benjamin citação de Marcus Vinícius Mazzari pg136) E qual é o segredo? Não vou dizer. Sorry.

A história centra-se nas qualidades mais escuras da alma humana e não há nenhuma esperança de redenção, mas a linguagem que o autor emprega se por um lado é profundamente desanimadora, por outro lado, é bastante poética. E é nessa tensão que o realismo da história aparece de forma seca e detalhada.

Foi Walter Benjamin quem primeiro saudou o escritor suíço, pintor e político Gottfried Keller (1819-1890) como uma figura de proporções homéricas - uma homenagem tanto ao seu âmbito temático, seu estilo, sua criatividade e sua atenção aos detalhes.

Romeu e Julieta na Aldeia” mostra uma variação incomum e convincente do grande tema de Shakespeare, que transpõe para o jogo em uma aldeia e mostra a deterioração das duas famílias e as consequências fatais para qualquer crença na harmonia social que devem ser mantidas.

Em uma manhã dois agricultores Manz e Marti estão arando a terra localizada em uma colina acima do rio que passa por Seldivila. Entre eles há uma camaradagem de trabalho, além de uma boa vizinhança dar o tom da história. O dono daquelas terras havia morrido há muito tempo. As duas famílias estão separadas por uma propriedade média cujo dono é um falecido.  No entanto, um violinista escuro sem certidão de nascimento, portanto, sem direito à cidadania e considerado apátrida se parece com o antigo dono daquelas terras. Na verdade era o neto. As semelhanças eram muito próximas.

Muito embora esse violinista tenha recebido o batismo e, sendo um cristão legítimo, não tinha direitos por não constar o seu nome no registro civil da cidade, e consequentemente não pertence a essa comunidade. E isso significava para esse violinista a sua desgraça e sua maldição. Mas a sua música continua e as cordas de seu violino friccionadas pelo arco de madeira sobre as cordas fazem a trilha sonora dessa história.

Essa apropriação indébita que os camponeses (Manz e Marti) farão dessa propriedade, a partir dessa rapinagem - segundo Walter Benjamin - é o acontecimento central da novela. Paro por aqui.

O livro “Romeu e Julieta da Aldeia” foi transformado em ópera por Frederick Delius, e alcançou um imenso sucesso. O livro é mais um acerto da Editora 34, a tradução de Gottfried Keller é outro acerto. Vale a pena ler o pósfacio de Marcus Vinícius Mazzari, as ilustrações são de Karl Walser e comentários de Robert Walser valem a pena serem lidos. Um livro para todas as idades. Um livro que merece um lugar de destaque em sua estante.

 


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


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Romeu e Julieta na Aldeia
autor: Gottfried Keller
editora: Editora 34
tradutor: Marcus Vinicius Mazzari

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