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Resposta certa

Para quem procura um livro leve, inteligente e um humor simplesmente delicioso - Resposta Certa, do autor David Nicholls, é o antídoto contra o R.E.I - Rancor Endêmico Improdutivo contra o mau humor. Não é uma comédia estilo besteirol, faz rir de uma outra forma, e coloca uma questão que considero muito pertinente: conhecimento e saber são elementos que  juntos podem produzir coisas maravilhosas. Mas, quando o conhecimento está "solteiro" da sabedoria, torna-se uma perfeita idiotice. Mas, não fica por aí não. Toca em assuntos pertinentes. Um livro delicioso para quem está entrando para universidade, ou para aqueles que querem se lembrar de algumas situações ou tipos comuns.

Ao contrário de seu último livro publicado no Brasil, Um Dia, já resenhado neste blog e apenas para lembrar: uma relação repleta de desencontros e diferentes expectativas, com Emi, carente de baixa auto-estima, e Dexter, o bonitão, arrogante e autoconfiante. "Um dia", afazendo um trocadilho, depois de caminhos distintos, eles conseguem viver o "princípio, meio e fim" de um amor iniciado na universidade. Mas, Resposta Certa vai para um caminho oposto.

Vamos à história?

Brian Jackson ganhou uma bolsa da universidade aos 18 anos de idade – ele está convencido que agora é um adulto pronto para vida. Com 18 anos, deixa sua cidade natal, Southend, Inglaterra, sua mãe viúva e seus dois melhores amigos para ir a esse lugar "sagrado", reduto de "intelectuais" - a universidade. Pertencente à classe operária, vai para uma universidade frequentada por outros tipos de pessoas e camadas sociais bem mais abastadas.

Brian Jackson é um personagem amável e torcemos por ele, mas ele se sabota, falta-lhe sorte nas pequenas coisas, por exemplo, escolher um restaurante para um primeiro encontro ou simplesmente escolher um corte de cabelo, ou escolher um amor verdadeiro, ou obter uma boa educação. Seu gosto intelectual é absolutamente inadequado, o que o leva a se distanciar de seus amigos e de sua família, particularmente de sua mãe.

No entanto, é um sujeito doce e romântico como Kate Bush, e a música que ele simplesmente adora. Clique sobre e depois de ouvir, você entenderá um pouco mais o nosso rapaz.

Ouviu? Deu para "sacar" mais ou menos o que eu quero dizer? É tudo meio "torto".

A partir de sua escolha musical, podemos chegar um pouco mais perto de seus gostos e de sua personalidade. Nada contra Kate Bush, mas a sua obsessão é que o torna engraçado. Uma tendência a fazer referências literárias a ela e uma sensação verdadeiramente de risos após suas gafes, trazem consequências hilariantes.

Brian sempre tenta as escolhas mais difíceis em busca de uma identidade própria, visando se sentir acolhido na universidade. No entanto, sua acne, seu sentido dúbio e sem graça de humor - que tornam-se engraçados para o público que o lê - mas que parece fazerem as meninas olharem para o nada quando o encontram, sua inexperiência sexual, seus companheiros de apartamento, que são meninos de escolas particulares ligados em esportes – nada disso o ajuda. Em a Resposta certa a identidade é um dos temas que corroboram para uma reflexão entre a montagem de uma personalidade e a opção por "ser" o que se é. Brian reflete sobre isso dizendo:

 

O problema é que estou começando a desconfiar que essa concepção de que há um verdadeiro Eu sábio, inteligente, engraçado, delicado e corajoso correndo por aí em algum lugar é meio uma falácia. Como o abominável Homem das neves: se ninguém nunca viu, por que alguém deveria acreditar que existe de verdade? (pg.155)


Ele adora televisão e espera participar de um programa chamado "Desafio Universitário", um de seus programas preferidos, que lhe remete às lembranças de seu pai, já falecido: de assistir televisão juntos. A ambição de Brian sempre foi aparecer nesse programa. Seu pai teria muito orgulho, caso estivesse vivo, em vê-lo nesse quiz show.

Que tipo de programa é esse? Conhecimentos gerais com perguntas do tipo: "Qual é o nome da classe de compostos orgânicos com fórmula geral R-Oh, na qual R representa um grupo de alquilas formado por carbonos e hidrogênio, e OH representa um ou mais grupos de hidroxilia?" ou "O amante de Porfíria, em que o protagonista estrangula com uma trança de seu cabelo, é um poema narrativo de qual poeta vitoriano?"

A obra apresenta uma escrita  animada, inteiramente  na primeira pessoa de Brian, a construção é bem acelerada e há uma abundância de diálogos simplesmente impagáveis. Brian conhece e de imediato se apaixona loucamente por Alice, que acaba fazendo parte do grupo representando a Universidade para participar desse "Quiz Show universitário".

Entre tantas possibilidades, tentivas e erros, Brian, nosso rapaz, se apaixona por Alice Harbinson. Um pouco sobre ela: estuda artes cênicas e têm um grande ego, além de domínio total sobre aqueles com quem mantêm relacionamentos. Um vasto currículo sexual, com os mais variados tipos, é uma loira voluptuosa e inatingível. Ela faz parte do tipo de garota que todos os homens querem, independentemente de como assumidamente genérica ela seja. E ela convida Brian para passar o fim de ano com seus liberais pais vegetarianos, o que o leva a um encontro, no mínimo extravagante, jantando com o pai e a mãe de Alice totalmente nus à noite.

Em suas tentativas desesperadas de obter a sua atenção, ele se transforma em um tolo completo de si mesmo na frente de toda a escola e, claro, na frente de Alice, agora o amor de sua vida. Assim começa uma série de eventos humilhantes na carreira de Brian, na universidade, e sua jornada para conquistar o amor de Alice, ou talvez até mesmo a sua atenção.

Um ponto que  me chamou a atenção sobre o romance foi o fato de que os personagens são muito realistas. Acho que todos nós conhecemos alguém na faculdade que nos lembram Patrick, que se acham importantes e pomposos, capazes de seduzir Alice facilmente. Todos nós já encontramos um teimoso, um tipo "cínico-socialista" como Rebecca, uma judia cáustica, militante de esquerda que surge na vida de Brian. A atração existe, mas torna-se uma tentativa frustrada de sedução devido a fixação Brian por Alice Harbinson.

Mas na vida tudo tem um limite e quando chegamos a conclusão que esse limite deve ser ultrapassado, chegamos a Resposta Certa.

Eu adorei o ritmo da história. Não é um Philip Roth, nem um Dostoievski ou Proust. Estamos diante de uma história que todos nós podemos nos identificar e nos relacionar de forma simples e direta.

Se o seu objetivo de entretenimento é simplesmente ter um livro nas mãos como companhia ao final de um dia de trabalho duro, quando tudo que se deseja é uma história leve, inteligente e divertida: Resposta certa. Este será o seu livro de cabeceira. Depois, empreste para algum amigo, daqueles que devolvem livros, e guarde esse autor na sua estante.

 


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


< O sentido de um fim A outra volta do parafuso >
Resposta certa
autor: David Nicholls
editora: Intrínseca
tradutor: Claudio Carina

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