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Patrimônio

A resenha de hoje foi escrita no dia 19.09.2013. O livro em questão é “Patrimônio - uma história verídica” de Phillp Roth. O motivo pelo qual escolhi este livro deve-se a razão pelo tema abordado do autor e as semelhanças existentes entre eles. Acabei de enterrar meu pai às 15h do dia 19.09.2013 e o que passei existe muita semelhança ao tema do livro. Embora não tenha feito um livro para mostrar como se dá o fim de um pai com Alzheimer, acho que uma resenha e as devidas rememorações cabem aqui nesse post.

O livro menciona a doença e a morte do pai de Philip Roth, Herman Roth diagnosticado com um tumor cerebral, ou seja, um câncer. A família (incluindo Herman) decide contra a cirurgia. Essa é uma experiência muito comum nos dias de hoje. Não falta literatura abordando esse tipo de situação. Filhos de pais idosos tendo que apoiar até os últimos dias seus velhinhos, dando o que de melhor eles podem receber. O livro é mais autobiográfico da experiência de Philip Roth sobre a morte de seu pai, mas é compreensível que o autor torne-se cada vez mais  envolvido na vida de seu pai antes de morrer. O pai moribundo e a mãe já falecida recebem tratamentos distintos.


Philip Roth fez mais do que isso, ele analisa e descreve esse momento com um talento raro, incorporando memórias do passado da família, mas ele tende a se fixar na doença do pai. Philip narra com rara tenacidade como seu pai Herman recebe a noticia. A princípio foi chamado pelos diagnósticos dos médicos como tumor “benigno”. Só depois que foi constatado um câncer, os médicos se propuseram a remover esse tumor através de operações complicadíssimas, dolorosas, complexas e perigosas. Uma operação que duraria quatorze horas sobre um homem de oitenta e seis anos de idade, já prejudicado por um acidente vascular cerebral. O pai como os familiares demoveram. O único procedimento a que Herman Roth se submeteu foi uma operação de catarata, dando a seus últimos dias de vida a visão, a dignidade e uma dose de felicidade mínima.

Essa mesma dignidade que a minha mãe teve ao receber o mesmo diagnóstico de câncer cerebral e optar por não operar, morrendo aos 64 anos. Vendo as humilhações físicas de um corpo que não responde mais. Assim como meu pai morto nessa madrugada, vegetando em uma cama de hospital por um Alzheimer.

A luta que o escritor detalha de uma forma efervescente pode ser resumida da seguinte forma: o esforço para manter a morte do pai como era antes, ou seja, impedir de tornar-se completamente um fenômeno hospitalar. Confesso que no meu caso não tive a mesma sorte, devido a uma pneumonia que meu pai adquiriu em casa e que só poderia ser tratada no hospital e lá ficou por 17 longos dias numa emergência e depois em um C.T.I. onde veio a falecer, portanto devo admitir que falhei. Pois queria que tudo acontecesse em casa como antigamente.

Paro por aqui, prometo não fazer comparações para não aborrecer aos que aqui buscam uma literatura e não confissões de um livreiro.

A grande tarefa que Philip Roth se impôs foi tentar recuperar a dignidade essencial de seu pai das indignidades que uma doença possa infligir, e ele é bem sucedido, graças ao sentimento rústico e impiedosamente realista de seu pai. E de que forma esse realismo aparece? Com a morte de sua mãe que foi enterrada em 1981, seu pai começa a limpar todos os resquícios que lembrasse a sua esposa. Apesar do atordoamento de Philip Roth que tenta impedi-lo, aos poucos vai percebendo que essa profanação da memória de sua mãe é apenas uma expressão dos princípios que nortearam seu pai, ou seja, fazer o trabalho difícil que precisa ser feito.

“Foi primitivismo de papai que me chocou. Ali, sozinho, esvaziando as gavetas e armários de mamãe, ele parecia estar sendo tangido por algum instinto que seria natural de um animal selvagem ou num indígena, mas que ia de encontro a todo e qualquer ritual de luto criado pelas sociedades civilizadas a fim de mitigar o senso da perda dos que sobrevivem à morte de uma pessoa amada. No entanto, havia também algo quase admirável naquela determinação cruelmente realista de reconhecer, sem nenhuma hesitação, que ele era agora um velho condenado a viver só e que as relíquias simbólicas jamais substituiriam aquela que fora de fato sua companheira durante cinquenta cinco anos. Entendi que não era por ter medo das coisas dela ou de seu poder fantasmagórico que papai queria enterrá-las também, livrando o apartamento de tudo aquilo o quanto antes, mas porque se recusava a evitar o mais brutal de todos os fatos. ... Fugir do corpo.” ( PP. 25 e 26)

O livro “Patrimônio” apresenta um velho que perde o controle do esfíncter, suja sua casa, suas roupas com suas próprias fezes, inundando todos os lugares onde ele é hospedado. Quem vive uma realidade dessas (e eu vivi literalmente isso) é a chance que temos de encarar as coisas no seu pior. Os leitores podem ter diversas reações para com essas cenas, mas elas afetam emocionalmente na dor.

“A gente limpa a merda de um pai porque ela precisa ser limpa, mas, depois de limpá-la, tudo que se deve sentir é sentido como nunca antes. E nem era a primeira vez que eu compreendia isso: tão logo a gente supera o nojo, ignora a náusea e descarta aquelas fobias fortalecidas como tabus, há muita vida para ser acalentada....

...Levei a fronha fedorenta para baixo e a pus num saco de lixo preto que fechei bem fechado, jogando-o no porta-malas do carro para deixar mais tarde na lavanderia. E agora que a tarefa fora concluída, não podia estar mais clara para mim a razão pela qual aquilo era certo e era o que tinha de ser. Aquilo era o patrimônio. Não porque limpá-lo simbolizasse alguma outra coisa, mas porque não simbolizava nada, porque era nada mais nada menos do que a realidade existencial nua e crua.”( PP.140,141)

Não chega a ser surpresa o legado abrasivo quando lemos “Patrimônio” que Herman Roth legou a seu filho, a firmeza, o realismo cru. A fervura exposta nessas realidades contadas por Philip Roth sobre suas experiências mexem com os sentimentos do leitor, e elas aparecem com humor em flashes irregulares em uma noite negra.

Patrimônio é uma autobiografia de um escritor complexo abordando temas complexos. Seus sonhos registrados em que seu pai aparece criticando-o por ter colocado o terno errado, na verdade Roth nos conduz a interpretação desse sonho sobre alguns erros cometidos por ele no tocante à interpretação desse livro.

“Pela manhã me dei conta de que aludira a este livro, que, confirmando a falta de decoro de minha profissão, eu vinha escrevendo enquanto ele estava doente e morria. O sonho me dizia que, se não nos meus livros ou na minha vida, ao menos em minhas fantasias eu viveria eternamente como seu filho pequeno, com a consciência de um filho pequeno, tal como nelas ele continuaria vivo não apenas como meu pai, mas como o pai, proferindo sentenças sobre tudo que eu faço.

Você nunca deve esquecer-se de nada” (pg191)

Patrimônio foi a resenha que escolhi para homenagear não só o autor por mais essa obra espetacular em forma de biografia, mas para me lembrar do meu pai que acaba de partir no dia 19 de setembro desse ano, sabendo que “continuarei como seu filho pequeno proferindo sentenças sobre tudo que faço eternamente.” E de minha mãe essa que partiu bem mais cedo, sabendo que também serei seu filho com a consciência de um filho pequeno em todos os meus sonhos.”

Patrimônio; um livro maravilhoso que merece um lugar na sua estante.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Biografias


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Patrimônio
autor: Philip Roth
editora: Companhia das Letras
tradutor: Jorio Dauster

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