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O Túmulo de Lênin - os últimos dias do Império Soviético

John Reed escreveu um dos grandes clássicos do jornalismo do século XX, “Os dez dias que abalaram o mundo”, que foi um best-seller arrebatador sobre a Revolução Russa de 1917. O livro retrata a tomada de poder dos bolcheviques, a emocionante queda do Czar (nas palavras de John Reed). Todos inebriados com a inteligência de Lênin e Trotsky, intelectuais apaixonados e revolucionários de classe média que tentavam traduzir essa nova visão de mundo, a teoria comunista, em sua visão de uma nova sociedade. John Reed soube como ninguém captar esse momento. John Reed escreveu as cenas com uma velocidade incrível, que acabaram confiscadas, mas liberadas graças aos seus advogados. John Reed voltou para a União Soviética, onde veio a falecer. Foi o único americano enterrado com honras nesse país. Além de escritor, era militante do Partido Comunista dos trabalhadores americanos. Ele e sua esposa Louise Bryant ficaram juntos até a sua morte.

Começo essa breve introdução para falar de outro livro: “O Túmulo de Lênin, os últimos dias do Império Soviético”, do jornalista David Remnick. O livro, na verdade, é um relançamento. Vou ser bem sincero com todos vocês: não conhecia o livro na época de seu lançamento em 1993. E me pergunto agora: onde estava com a cabeça por ter passado por esse livro sem tê-lo notado? Mas há males que vêm para o bem. Meu consolo é que pelo menos eu li agora, justamente quando se comemora os cem anos da revolução soviética.

O livro é simplesmente maravilhoso. Se o jornalista John Reed testemunhou o nascimento da Revolução, David Remnick testemunhou o colapso do Império Soviético quando trabalhava no Washington Post, juntamente com sua esposa Esther Fein, que trabalhava pelo New York Time. Netos de judeus russos que foram perseguidos na época de Stalin, conseguiram fugir para a América.

A volta à terra dos seus ancestrais aconteceu na época em que Gorbachóv começou a usar a palavra russa Glasnost , cujo significado, transparência, sinalizava um giro de 360 graus rumo à democracia. A partir daí, Remnick transforma-se numa testemunha ocular de uma luta notável entre as forças do passado e a visão do futuro. A herança russa permitiu ao jornalista explorar o passado, o presente e o futuro de um modo que poucos ocidentais jamais imaginaram. Remnick morou em Moscou a partir de 1985 e desenvolveu uma rede social com amigos e colegas soviéticos. Através dessa rede, ele é capaz de fornecer ao leitor um vislumbre da vida média dos povos soviéticos. Como jornalista, ele entrevista alguma das figuras mais influentes na União Soviética moderna e outros remanescentes desprezíveis da era Stalin.

A narrativa do livro começa abordando as escavações dos cadáveres do corpo de oficiais poloneses, abatidos no infame massacre de Katyn. Com a colaboração de muitos no Ocidente, os soviéticos negavam havia muito tempo a autoria desse hediondo assassinato em massa, ocorrido em 1940. Os ossos que foram desenterrados em 19 de agosto de 1991 são uma metáfora para a história que se erguia do túmulo que o regime bolchevique havia tentado esconder, com pouco sucesso, por setenta anos. Esse retorno da história que Remnick faz é o subtexto principal que Mikhail Gorbachov estava disposto a recuperar, ou seja, a memória da violência stalinista, a primeira camada de sujeira que estava enterrada nas catacumbas dos arquivos da KGB.

Após alguma hesitação no início de seu tempo no poder, Gorbachev decretou que o tempo tinha vindo preencher os "pontos em branco" da história. Ele não ousou criticar Lênin, o semideus do Estado. Mas, apesar da hesitação de Gorbachev, o retorno da memória histórica seria a sua decisão mais importante, que precedeu todas as outras, pois sem uma avaliação completa e implacável do passado – uma admissão de assassinato, repressão e falência – uma mudança real, muito menos revolução democrática, era impossível. O retorno da história à vida pessoal, intelectual e política foi o início da grande reforma do século XX e, se Gorbachev gostou ou não, o colapso do último império na terra aconteceu.

Gorbachev ele mesmo estava ainda convencido do que ele chamou de "justiça da escolha socialista". Ele continuou a ver Lênin como seu modelo intelectual e histórico. Não há absolutamente nenhuma evidência que sugira que Gorbachev estava fora para minar, muito menos destruir, os princípios básicos da ideologia ou estado da União Soviética.

Nesse relato, Gorbachev torna-se quase uma figura da tragédia shakespeariana como o sistema que ele tentou salvar do colapso em um processo político que ele iniciou sem entender. Remnick é ambíguo sobre o papel de Gorbachev no golpe de 1991, se não totalmente duvidoso de que ele era uma vítima e não um conspirador. Em contraste com Gorbachev, estão os dissidentes em geral, mas Andrei Sakharov em particular e políticos reformistas como Boris Yeltsin, que, quaisquer que fossem suas falhas pessoais, demonstraram enorme coragem moral e física nos últimos dias do império soviético. Remnick nos entregou uma grande história e ele soube dramatizá-la soberbamente. É um dever ler esse livro, principalmente aqueles que desejam compreender o século XX.

A Glasnost começou a estimular um debate histórico genuíno e ao mesmo tempo revelava a profundidade dos ressentimentos e os ódios históricos no império de Stalin. Nos primeiros anos da Glasnost, a imprensa liberal deu o sinal da graça e insinuava a conexão entre os setenta anos de domínio do Partido comunista e o estado desastroso do país.

O aparato do Partido Comunista era uma gigantesca máfia que o mundo jamais conheceu. Preservava seu monopólio do poder com um consenso e uma constituição impostos e sustentava-se com a força da KGB e da polícia do Ministério do Interior. O partido depositava dinheiro no exterior e liquidava os recursos nacionais – incluindo as vastas reservas de ouro do país – de maneira tão óbvia que, logo após o fiasco do golpe de agosto, seu principal funcionário financeiro lançou um olhar para o futuro e resolveu se jogar do alto da sacada em direção à morte. Uma corrupção, principalmente sob Brejnev, com um cunho utópico. A Glasnost significava isso também.

Os sindicatos eram uma farsa. Em vez de proteger os trabalhadores, eles asseguravam sua passividade e obediência ao partido. Tinha sido esse o intento de Lênin, que declarou que os sindicatos de trabalhadores de estilo ocidental eram “tacanhos” e “egoístas”, “engessados” e “mesquinhos”, pequenos burgueses. O sindicato sob o socialismo, dizia ele, eram “correios de transmissão” do partido.

Desde a infância do movimento bolchevique, a corrupção permeia o governo e o partido comunista. A relação de Lênin com o partido comunista é estreita; o terror e a violência como meio de controlar a população e proteger-se era a sua palavra de ordem. Durante a era de Stalin, a arte do terror é levada a novas alturas. Milhões de soviéticos são brutalmente assassinados e presos em campos da Sibéria. Durante anos que se seguiram ao reinado de Stalin, alguns detalhes sobre a campanha de terror de Stalin começam a surgir entre o público em geral, mas, a maioria do povo soviético permanece na escuridão sobre a própria história trágica.

 Gorbachov começa a mostrar o seu lado liberal e dá sinais de que a situação na União Soviética vai melhorar. Instalou a Glasnost e a Perestroika, suas políticas que ficaram famosas visando ao aperfeiçoamento econômico e a abertura do governo. Mas à medida que o tempo passa e o progresso é lento, o herói começa a perder o seu brilho aos olhos das pessoas comuns e de parte dos que o apoiavam, principalmente os intelectuais que esperavam uma mudança radical. Encurralado entre o movimento democrático e o partido comunista, Gorbachov comete erros graves de julgamento e quase destrói a possibilidade de mudanças.

A luta interna entre os comunistas e os democratas na União Soviética chega a um ponto crítico em agosto de 1990, quando o próprio círculo interno de Gorbachev tenta um golpe de estado para acabar com a era da Glasnost e devolver a União Soviética ao seu modo de vida anterior.

Remnick pinta o retrato do colapso do império tão vívido quanto o de um pintor realista carregado com a paixão de informar e iluminar. Isso oferece o melhor registro de um repórter, que foi capaz de dar plena expressão às suas ideias e que tinha a energia para escrever “O Túmulo de Lênin, os últimos dias do Império Soviético” como uma grande epopeia.

Talvez no momento mais crítico de todo esse processo de transformação social fica o registro de David Remnick, que lê numa faixa carregada por trabalhadores: “Trabalhadores de todo mundo, perdoem-nos”.

“O túmulo de Lênin: os últimos dias do Império Soviético” de, Remnick, é um livro fundamental para entender o centésimo aniversário da Revolução de 1917 em 2017. Um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.


Data: 10 abril 2017 (Atualizado: 10 de abril de 2017) | Tags: Fatos reais


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O Túmulo de Lênin - os últimos dias do Império Soviético
autor: David Remnick
editora: Companhia da Letras
tradutor: Jose Geraldo Couto

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