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O Tempo dos desenraizados

O livro “O Tempo Dos Desenraizados”, do escritor Elie Wiesel, explora, de forma inovadora, a memória em face das atrocidades cometidas pelo regime nazista nos anos 1930 e 1940. Nesse livro vemos uma narrativa lenta, mas ao mesmo tempo esmagadora, de um homem chamado Gamaliel Friedman, que era um menino na época do Holocausto e agora, nos anos 1990, reside nos EUA, servindo-se do paradigma de um indivíduo em exílio perpétuo, ou seja, o refugiado que nunca se sente em casa, em lugar nenhum.

O romance é também sobre memória. Neste caso, Gamaliel flutua através de sua história pessoal, recordando-se de seus fracassos como marido (sua mulher se suicidou) e de suas filhas, que nutrem pelo pai um ódio doentio. Sua sobrevivência na Segunda Guerra Mundial deve-se a uma cantora de cabaré chamada Ilonka. Os pais de Gamaliel foram mandados para Auschwitz. E, graças ao amor filial que Ilonka lhe devotou, conseguiu sobreviver à catástrofe.  

O romance começa na atual Nova York, onde conhece uma mulher sem nome que só fala húngaro, acamada num hospital. Quem seria essa mulher? Ele tem a esperança de obter essa resposta em cada ida ao hospital. Suas inúmeras visitas a essa mulher que fala húngaro são intercaladas por memórias, histórias de amor e perdas. A apatridia (ou seja, a ausência de elo legal entre o Estado e o indivíduo) de Gamaliel é de certa forma a raiz de toda a sua miséria.

Gamaliel Friedman é um judeu que nasceu na Checolosváquia, e teve que fugir para a Hungria. Quando as perseguições chegaram a Budapeste, seu pai foi preso e morto, sua mãe desapareceu e acabou deixando seu filho com a cantora de cabaré Ilonka.

Quando a guerra terminou, conseguiu autorização para morar em Paris. Esperou por Ilonka em Viena, perdeu o contato. Morou em Paris por um longo período e, mais tarde, mudou-se para Nova York.

Gamaliel carrega em seus ombros o suicídio de sua mulher, suas filhas o desprezam e acaba trabalhando como ghost writer (escritor fantasma), uma profissão que despreza por se considerar o fantasma de escritores sem talento.

Seus únicos consolos são os seus manuscritos do Livro Secreto e seu pequeno grupo de amigos de judeus apátridas. Elie Wiesel entrelaça suas memórias ardentes com os problemas atuais de Gamaliel. Agora em seus anos de crepúsculo passa seus dias trocando memórias com cinco homens, cujas experiências o ajudam refletir sobre a sua própria vida. Em um momento desconcertante, uma médica chama Gamaliel em húngaro num lar de idosos local. Quem será essa mulher? Como ela estaria relacionada com Gamaliel? Poderia ser Ilonka?

Apesar de ser uma ficção, o romance lida com eventos históricos através de seus personagens. Wiesel continua a dar testemunho de suas próprias memórias e sentimentos de exílio. E o romance vai se construindo através de memórias e flashbacks.

Wiesel justifica sua escrita como forma de pagar uma dívida com aqueles que não sobreviveram. Sua argumentação é de que está cumprindo uma obrigação à história e a uma comunidade que precisa se lembrar do passado a fim de evitar repeti-lo

“...como pedir-lhes que deixassem em paz ‘a memória’, já que os mortos haviam levado a chave ao se desfazerem na fumaça”. (pg 213)

Ao escrever “O Tempo dos Desenraizados” Wiesel enfatiza como dar testemunho e ajudar tanto a testemunha como o coletivo a que esse indivíduo pertence, produzindo uma cura que constrói uma identidade comum e um coletivo, ou seja, memória de um acontecimento histórico.

“Gamliel entrega-se então ao fluxo das lembranças, com a dolorosa sensação de que a infância se apaga na bruma dos anos passados na Checoslováquia, e mesmo na capital húngara. Como fazer para retê-las? O cansaço toma conta dele. Inexplicavelmente, sua breve visita ao hospital deixou-o mentalmente esgotado. Dor de cabeça, dor no coração, disparado, as pernas pesadas. Um momento de fraqueza? A velhice chegando? O tempo ainda está fresco, mas ele transpira. Os dias se alongam, preguiçosos, mas os anos passam depressa; daqui a pouco vão começar a volatizar-se. Mas eles têm seu peso, e ele sente cada mais pesado. Impossível descartar-se ou mesmo livrar-se disso, compartilhando, digamos com uma pessoa amada. A ideia não pode ser dividida nem multiplicada. Só para com a vida. E o resto também. Nascido da argila, o homem a ela retorna. É este o verdadeiro mistério: os sonhos mais belos, as mais grandiosas conquistas acabam na poeira muda e indiferente. (pg 96)

“O Tempo dos desenraizados”, de Elie Wiesel, é um livro que nos faz questionar a identidade daqueles que foram expulsos da Europa e que sofreram os horrores do holocausto, sem cair na mera denúncia, mas trazendo uma reflexão absolutamente atual não só sobre os tempos sombrios da Segunda Guerra, mas sobre os tempos de hoje. Um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.


Data: 10 novembro 2016 (Atualizado: 10 de novembro de 2016) | Tags: Drama


< O Homem sem doença Enclausurado >
O Tempo dos desenraizados
autor: Elie Wiesel
editora: Record
tradutor: Clóvis Marques

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