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Homem Invisível

O Livro “Homem Invisível” chegou às minhas mãos muito bem recomendado. Muitos leitores, por quem eu tenho um enorme respeito, garantiram-me de que se tratava de um clássico americano de altíssima qualidade. E respondo a todos a esses amigos com milhões de agradecimentos. O livro é simplesmente ótimo. O tema descriminação racial já foi abordado de diversas formas em livros e no cinema. Mas este livro tem uma abordagem totalmente diferente de todas que eu já vi e admirei.

Bem, para começar, o livro “Homem Invisível” recebeu o prestigiado National Book Award, foi muito elogiado por escritores como Saul Bellow dentre outros.

Uma brevíssima apresentação do autor para aqueles que não o conhecem. Ralph Wando Ellison nasceu em Oklahoma City, Oklahoma. Lewis Ellision, seu pai, batizou o filho em homenagem ao famoso poeta e filósofo americano Ralph Waldo Emerson. Foi músico, trompetista, um Jazzman. Ellison se mudou para Nova York para estudar escultura mas, mais uma vez, abandonou seus planos. Ele já havia lido as obras de Ernest Hemingway, George Bernard Shaw, e TS Eliot, que o impressionou profundamente. Lutou na Segunda Guerra. E desde que se mudou para Nova York nunca saiu do Harlem.

Antes que alguém pense que o livro tem como base alguma semelhança com autores com Edgard Allan Poe ou Philip Dick . Ralph Ellison começa o livro com as devidas explicações:

 

“Sou um homem invisível. Não, não sou um fantasma como os que assombravam Edgar Allan Poe; nem um desses ectoplasmas de filme de Hollywood. Sou um homem de substância, de carne e osso, fibras e líquidos – talvez se possa até dizer que possuo uma mente. Sou invisível, compreendam, simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Tal como essas cabeças sem corpo que às vezes são exibidas nos mafuás de circo, estou, por assim dizer, cercado de espelhos de vidro duro e deformante. Quem se aproxima de mim vê apenas o que me cerca, a si mesmo, ou os inventos de sua própria imaginação – na verdade, tudo e qualquer coisa, menos eu.” (pg. 25)


Homem Invisível é a história de um homem negro com nível universitário, um jovem lutando para sobreviver e ter sucesso em uma sociedade racialmente dividida que se recusa a vê-lo como um ser humano. O livro é uma narrativa em primeira pessoa e traça a jornada física e psicológica do narrador sem nome. O livro está situado nos períodos a era pré direitos civis, quando as leis de segregação proibiam os negros americanos de desfrutar os mesmos direitos humanos básicos com os brancos. O romance abre na Carolina do Sul, embora a maior parte do livro aconteça mais ao norte em Nova York.

No prólogo, o narrador encontra-se escondido no subterrâneo. E o que vem a ser esse esconderijo? Na verdade o espaço subterrâneo está na mente e na gênese da escrita irmanado. O buraco do subsolo pode ser comparado às escuras e secretas profundezas da mente, palco transitório de um estado de isolamento. Mas será igualmente o lugar da ressurreição, pois a viagem do mundo subterrâneo é uma das imagens arquetípicas para a experiência que precede outra vida que ainda está por vir. O “Homem Invisível” encontra-se no seu refúgio, está em trânsito em um estado de hibernação para outro nascimento de um novo homem e de uma nova prática.

O livro é uma rememoração do narrador com seus 40 anos. Ele se lembra de uma época em que era um jovem ingênuo, ansioso para se tornar um educador de renome e orador.

O narrador começa sua história, recordando seu discurso de formatura do colégio, o que atraiu atenções, principalmente do superintendente escolar branco que o convida para dar o mesmo discurso em um hotel local para cidadãos brancos da cidade. Mas quando chega ao hotel, o narrador é forçado a participar de uma luta de boxe com os olhos vendados com seus colegas de classe, um evento que era considerado como uma espécie de “despedida de solteiro.”

O narrador vai se lembrando de seus dias fatídicos, quando um proeminente Sr. Norton o chama para ser o seu motorista. Em determinado momento, seguindo suas ordens ele resolve ir a um bairro negro. Conhece Jim Trueblood, um trabalhador que conta o estupro realizado com sua filha seguido de detalhes. O narrador fica atônito com essa revelação. Sr. Norton sai daquele lugar e passa mal. E a odisseia do narrador que estava prestes a ter um fim, acaba tendo outro ainda mais aterrorizante ao parar o carro em busca de ajuda num lugar de baixa reputação frequentado por negros.

Acaba expulso por um negro de alta patente da universidade (Dr. Bledsoe), julgado sumariamente por ter revelado ao proeminente homem branco a realidade da experiência negra. Sai da universidade com cartas de recomendação para procurar emprego junto a um tal Sr Emerson. E fica a pergunta: Não seria Ralph Waldo Emerson? “Nature” seu primeiro livro, publicado anonimamente em 1836, mostra seu pensamento e sobre o sentido ideal de vida que, segundo ele, só poderia ser alcançado mediante a introspecção. E fugir das convenções pré-estabelecidas.

O narrador, como já disse, sempre relata sua história na primeira pessoa, é um elemento obscuro para o leitor, pois nunca revela seu nome, mas o nome de sua universidade é revelado, da Irmandade (que é o Partido Comunista). O narrador é apenas uma voz e nunca surge como presença. Essa obscuridade enfatiza seu estatuto de “homem invisível.”

Durante grande parte da história, principalmente quando ele se junta a Irmandade, o narrador nos passa um ser inocente e inexperiente. Ele está sempre propenso a pensar o melhor das pessoas, mesmo quando as pessoas não lhe dão motivos para serem pensadas dessa forma. O narrador está escrevendo como um livro de memórias, não está vivendo a fervura do momento. Ele está olhando para trás em suas experiências, mas o personagem não tem sabedoria para poder entender o que está de fato acontecendo. A inocência do narrador o impede de identificar o comportamento errático dos outros. Ele concorda em atuar como porta voz negro da Irmandade, o que permite que à Irmandade usá-lo.

Ralph Ellison usa o irmão Jack, o líder da Irmandade, para apontar o fracasso das ideologias abstratas para resolver a situação real dos negros americanos e outras vítimas da opressão. Em um primeiro contato, Jack é um sujeito idealista e amável. Mas a medida que a história avança, o narrador percebe que o líder Jack é visto não como pessoa, mas como ferramenta para os objetivos da Irmandade. Jack, que tem um olho de vidro, mostra que sua cegueira simboliza a mesma cegueira da irmandade.

Rás (o destruidor), um dos personagens memoráveis dessa novela, é uma figura poderosa que parece encarnar os temores de Ellison para o futuro da batalha pelos direitos civis nos Estados Unidos. O nome de Rás significa “príncipe”, em uma das línguas faladas na Etiópia. Essa simples alusão captura a essência do personagem: um nacionalista negro apaixonado, obcecado com a ideia de raça; é um líder carismático que tem uma espécie de poder divino na história, mesmo que no seu discurso não exista nada de sábio. Um combatente, que se arma ideologicamente da violência como ferramenta de luta. E o narrador se opõe a tais noções. É bom lembrar que Malcolm X, até o final dos anos 60, era um defensor desse tipo de ideias, muito semelhantes a Rás.

Bem, a resenha já está enorme. Mas que uma coisa fique clara. A resenha não chega nem a milionésima fração da qualidade do livro “Homem Invisível.” Você, leitor, vai se defrontar com uma história de perder o fôlego. E conhecerá um dos gigantes da literatura norte americana e sua visão de mundo. Um livro que não pode deixar de ter em sua estante.

 


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


< Noite do Oráculo Noites Brancas >
Homem Invisível
autor: Ralph Ellison
editora: José Olympio

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