Livros > Resenhas

Estranha presença

Para quem não conhece a escritora Sarah Waters algumas informações precisam ser feitas. Nascida em Neyland, Pembrokeshire, País de Gales em, 1966, foi eleita como uma das 20 melhores escritoras britânicas em janeiro de 2003, quando ganhou o prêmio no British Book Award. Em 2006 e 2009, ela ganhou o prêmio como escritora do ano na reunião anual do prêmio Stonewall. Foi eleita membro da Royal Society of Literature em 2009. Portanto, podemos dizer que Sarah Waters não é uma “estranha presença” no mundo da literatura, é uma escritora que nos seus poucos anos de vida já é reconhecida como uma das grandes.

O livro “Estranha presença”, de Sarah Waters, é um romance perturbador. Possui elementos góticos em seu enredo, a ponto do leitor chegar a sentir alguns calafrios na espinha na medida em que a história se desenvolve. Mas antes seria bom explicar o que é um romance gótico. Esse tipo de romance procura despertar o terror. O termo gótico tem a ver com o cenário, e nesse caso é um imenso casarão de uma arquitetura complicada, com aspectos ameaçadores, onde se desenvolvem histórias violentas, torturas psicológicas e por aí vai. E no caso específico desse romance, trata-se de uma mansão construída no século XVIII, mas com  histórias vividas em pleno século XX.

Antes que qualquer dúvida apareça, o romance não é sobre uma casa mal assombrada. O tema não é este. Ele evoca o que aconteceu a uma classe social depois da segunda guerra mundial. Um tempo de turbulências em que a classe trabalhadora alimentava suas mais altas expectativas. Era um momento de transformação, mas, para algumas classes sociais, o que aconteceu foi uma mudança para pior. O que sobrou? Uma velha mansão “Hundreds Hall” em ruínas; uma família lutando para chegar a um acordo com o pós-guerra, a vida e a falta de dinheiro, somados à decadência perversa; sobrou também o poder corrosivo do ressentimento de classe; bem como os danos causados ​​pela guerra.

Roderick, um dos filhos da matriarca, Sra. Ayres, foi ferido na segunda guerra – ele era piloto de avião – e as feridas mal curadas deixaram além de cicatrizes, um legado de "problemas nervosos" nele. Fora a gestão totalmente louca da mansão, feita pelo próprio, tudo isso indica que algo não anda muito bem em sua “psique”. As dificuldades financeiras e a incapacidade de manter a casa em uma condição confortável o fizeram vender suas terras e os objetos de valor contidos na mesma, o que mostra todo o desgaste de Roderick.  Sua tarefa autoimposta, diga-se de passagem, é a de manter a fé em seus antepassados. Incapaz de subir escadas sem dor, por causa das pernas esquálidas, ele combina quarto e escritório em um grande salão, dormindo em meio às contas atrasadas.

Sra. Ayres – a matriarca - vive em meio à decrepitude.  Lúcida e conformada,  convive com sofás flácidos, paredes descascadas, tapetes puídos e uma casa se corroendo na sua frente.
Como se vê, a psique dos que habitam esta mansão está crivada de ambivalências e dúvidas, desgastada pela frustração; por isso todos se sentem sufocados. Eles falam a língua suave da classe alta  possuidora das boas maneiras, mas são incapazes de enfrentar os seus egos danificados, ou de contemplar sua capacidade de causar danos uns aos outros.

Carolina, a filha mais nova, é simples e chama a atenção pela altura e pela  inteligência refinada. Ela é quem segura todas as atividades dentro da casa. A Sra. Ayres ainda guarda uma beleza distante e bonitos olhos escuros, mas guarda em seu coração segredos inconfessáveis. E quais seriam esses segredos?

A mansão “Hundreds Hall”  é importante nesse livro, e o narrador dr. Faraday – que conheceu a casa em sua opulência ainda menino, trinta anos antes, quando sua mãe tinha sido empregada de lá – sugere em uma sindicância após acontecimentos trágicos no final do livro haver algo de  sobrenatural  na casa. Dr. Faraday é um personagem emblemático desta história, pois vive o dia a dia dessa família em decomposição. Médico sem dinheiro e sem amor, apreensivo sobre as mudanças que vê na prática médica, e que faz sobre si mesmo uma avaliação muito pessimista sobre seu futuro. Seus pacientes vivem em favelas rurais, pois nunca foi aceito pela nobreza local. Ele é um homem que carrega conflitos e é incapaz de erradicar dentro de si seus desapontamentos com o passado. Seus pais deram tudo para que ele se formasse, mas não puderam ter nada em troca em função de seus maus momentos.

Quando chamado para visitar pela primeira vez uma paciente na “Hundreds Hall”, ele acredita que sua sorte virou. Mas não encontra a dona da casa, e nenhum dos seus filhos. Encontra apenas Betty, uma empregada que reclama de dores abdominais; Dr. Faraday suspeita que tudo não passe de fingimento, mas se ocupa em ouvir as reclamações dela, seus medos, suas saudades de casa, seu isolamento no quarto do porão e o medo que sente do casarão. O Dr. Faraday, no entanto, interpreta suas reclamações como ignorância, e segue adiante.

Cada desastre confuso, cada choque do destino, é tratado com humor negro pela autora, e muito chá para acalmar os nervos de quem lá habita. Manchas começam a aparecer nas paredes parecendo queimaduras. Sinos para chamar os empregados ressoam sem ninguém chamá-los, o telefone toca no meio da noite sem ninguém na linha. Um dispositivo de comunicação do século XIX – um tubo que liga o berçário abandonado à cozinha – começa a soar, assustando as empregadas domésticas. Uma casa que parece saber de todas as fraquezas da família.

Não há uma explicação coerente. Há perguntas sem respostas e muitas coisas mal explicadas. Mesmo as explicações racionais do Dr. Faraday, que explicam em parte os mistérios, não são mais suficientes. As racionalizações do médico vão se tornando inconsistentes na medida em que ele mesmo suspeita de sua estranheza, jogando a culpa na fadiga, no stress, ou nos barulhos produzidos do encanamento da casa. As coincidências do aparecimento de seres invisíveis no quarto de Roderick junto com o acidente que provocou o desfiguramento de uma criança, por um cachorro inofensivo da casa, tudo isso são sinais de que nada vai tão bem quanto parece.

A história avança e o nosso narrador vai se irritando em ter que dar explicações racionais para acontecimentos bizarros. Suas explicações aparecem em cada página nos obrigando a ser crédulos e imaginativos na aceitação, ou não, de seres sobrenaturais. Pelo amor de Deus – ouvimos o grito do leitor – acorda cara, olhe atrás de você! Não viu que a escritora está armando algo pra cima dessa família?  O narrador é complacente, talvez sofra de autoengano, e as páginas continuam sendo viradas mais rápido e mais rápido.

Faraday é um homem racional, mas mesmo ele tem dificuldades para explicar o que está acontecendo. Como os eventos parecem despontar para um desfecho trágico e arrepiante, ele é atraído ainda mais para a vida dos Ayres.  Esta casa vai tornar-nos todos loucos, diz ele, e ele comenta em seu depoimento a justiça que “a casa tinha um ar desconcertante palpável de estresse e tensão”. As páginas continuam a serem viradas de forma cada vez mais rápidas.
Mas lembre-se, caro leitor, que apesar das coisas impressionantes que vão acontecendo, o tempo da casa é lento, é do século XVIII. E tudo  acontece seguindo esse ritmo.

Este é um livro sobre uma forma decadente de vida. Aristocracia versus meritocracia. É através dos olhos de Faraday que vemos o colapso desta família. Uma neblina escoa através da narrativa, é o que sentimos quando vemos a sombra dentro de nossa psique, a versão em preto e branco espelhada em nossa autoilusão.

“Eu estou começando a pensar que minha família deve ter algum tipo de maldição” – diz a Sra. Ayres ao Dr. Faraday. Como Sarah Waters evoca um sentido de montagem de ameaça e histeria você tem que concordar com ela. Este é um território, que a escritora se move com muita intimidade. Parece que o espírito mal assombrado que ronda essa mansão é o espírito do esnobismo. Será? Waters não dá respostas definitivas sobre as ocorrências dentro dessa mansão. Ela apenas nos sugere que existe apenas algo estranho que opera na fronteira do sobrenatural e dos distúrbios psicopatológicos. Suas alusões, suas implicações reúne-se  no espaço na mente em algum lugar onde podemos ouvir assobios suaves, ou ver sedas fantasmáticas.

Seja lá o que for, posso afirmar que o livro é ótimo e prende: na medida em que a leitura avança, mais rápida ela fica, apesar do tempo da casa ser do século XVIII.

Um assustador romance gótico.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Terror


< Uma história de amor real e supertriste Solar >
Estranha presença
autor: Sarah Waters
editora: Record
tradutor: Ana Luiza Borges

compartilhe