Livros > Resenhas

Crime e castigo

Confesso a todos vocês que o livro de que falaremos hoje foi um dos livros que mexeram comigo em todos os aspectos. Não houve um dia em que meus pensamentos e meus sonhos, durante a leitura, que durou uma semana, não estivessem relacionados com os personagens em questão.

 

Vou contar a todos vocês que em determinado momento da leitura, quando fantasmas eram mencionados pelos personagens do livro, senti a presença deles perto da minha mesa de cabeceira durante a madrugada, a ponto de acordar e perguntar por eles. Não senti medo. Só queria saber o que eles queriam e o que faziam do lado da minha cama. Mas nenhuma resposta me foi dita. Apenas a presença registrada. Muitos de vocês duvidarão desse meu relato. É um direito de cada um. Mas os meus amigos de trabalho ouviram de mim, durante o processo de leitura, tudo isso que estou narrando a vocês. Minha mulher, que dorme a meu lado, foi testemunha de tudo isso que lhes falo. É a mais pura verdade.

 

Vi o semblante de Raskolnikov, pálido, vestido com seu indefectível sobretudo descolorido pelo excesso de uso. Vi Sônia, uma das personagens, nos meus sonhos quando acabei de ler a última página.

 

Um livro feito para aqueles que gostam de uma literatura de ponta. Sei que muitos de vocês já devem ter lido “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski. Para aqueles que não leram, posso dizer que é uma dessas obras que deixam marcas profundas no leitor. Para iniciar esta leitura, você deve adquirir certa concentração para sentir essa história penetrar nos recônditos mais longínquos de sua imaginação.

 

A tradução de Paulo Bezerra é simplesmente maravilhosa. Diretamente do russo. E a introdução que ele faz do livro nos ajuda a mergulhar nessa história. Vamos a ela?

 

No século XIX, os escritores estavam cada vez mais distantes do romantismo, tinham uma abordagem mais realista.

 

A Rússia e a França lideravam essa nova abordagem mais realista na literatura. Dostoiévski e Gustave Flaubert foram os precursores desse movimento. Dostoiévski, além de ser um grande escritor, era um leitor prodigioso, sempre atento aos conceitos filosóficos do seu tempo.

 

Nietzsche, por exemplo, era um leitor de Dostoiévski.  Não foi à toa que foi considerado um escritor e filósofo por excelência. Seus personagens sempre foram movidos por emoções internas poderosas, sendo investigados no final de sua vida.

 

As publicações de Freud sobre alguns estados psicológicos ganharam repercussão após a morte de Dostoiévski. Existem alguns intelectuais que dizem que Dostoiévski estava bem à frente de Freud como psicanalista. As descrições realistas das emoções internas são realistas e verdadeiras, ao revelar o desespero humano com tantas minúcias.

 

A história de “Crime e Castigo” é sobre o protagonista Raskonlnikov, um ex-aluno brilhante, que por razões econômicas não pode mais estudar e por razões de penúria luta para se manter na cidade de São Petersburgo. À medida que o seu desespero vai aumentando, surge uma ideia: matar a velha Alyona Ivanovna, que lhe aluga um quarto fétido e era uma agiota. E o ameaça colocá-lo para fora se ele não lhe pagar o que deve. Seus pertences mais valiosos foram colocados como pagamentos de suas dívidas. E agora não sobra mais nada. O que fazer? Raskonlnikov, quando ainda era estudante, havia publicado um artigo interessante em que expunha a sua teoria do “homem extraordinário”. E o que está por trás desse artigo, qual o pensamento que guia seu raciocínio? Simples. “O homem extraordinário” é aquele que, pelo imenso valor que possui para a humanidade, tem o direito de passar por cima das leis morais para realizar aquilo que pretende. Esse “homem extraordinário” não está submetido a leis que governam os outros mortais, pois está acima delas. Em outras palavras, Napoleão derramou rios de sangue para consolidar a civilização burguesa, e a história o absolveu. Raskolnikov sente-se pertencer à raça dos Napoleões e racionaliza para tirar um obstáculo de seu caminho.

 

“- Por que você, meu caro, apareceu tão de repente... O que está acontecendo? – perguntou ela, olhando para o penhor. - É uma cigarreira de prata: eu não lhe falei da outra vez? Ela estendeu a mão. - E por que é que você está tão pálido? Veja como as mãos estão tremendo! Tomou banho, meu caro? - É febre – respondeu com voz entrecortada. – Fica-se pálido a contragosto... quando não tem o que comer – acrescentou ele, mal pronunciando as palavras. Mais uma vez as forças o abandonaram. Mas a resposta pareceu verossímil; a velha pegou o penhor na mão. - Um objeto... uma cigarreira... de prata... dê uma olhada. - Que coisa, como se não fosse de prata... E como você amarrou! Procurando desamarrar o cadarço e voltando para janela, no sentido da claridade (todas as janelas estavam fechadas, apesar do abafamento), ela o deixou inteiramente por alguns segundos e lhe deu as costas. Ele desabotoou o sobretudo e soltou o machado de laço, mas ainda não o tirou por inteiro, ficando apenas a segurá-lo com a mão direita por cima da roupa. Os braços estavam terrivelmente fracos; ele mesmo os sentia a cada instante cada vez mais entorpecidos e duros. Temia soltar e deixar cair o machado... num repente foi como se a cabeça começasse a rodar. - O que foi que ele enrolou aqui! – gritou a velha irritada e mexeu-se na direção dele. Ele não podia perder nem mais um instante. Tirou o machado por inteiro, levantou-o com as duas mãos, mal se dando conta de si, e quase sem fazer força, quase maquinalmente, baixou-o de costas na cabeça dela. Era como se nesse instante tivesse lhe faltado força. A velha, como sempre, estava de cabeça descoberta. Os cabelos claros com tons grisalhos, ralinhos, habitualmente besuntados de óleo, formavam uma trança à moda rabo de rato e estavam presos a um resto de pente de chifre que se destacava na nuca. O golpe acertara em plenas têmporas, para o que contribuía a sua baixa estatura. Ela deu um grito, mas muito fraco, e súbito arriou inteira ao chão, mas ainda conseguiu levantar ambas as mãos até a cabeça. Em uma das mãos ainda continuava segurando o “penhor”. Então ele bateu duas vezes com toda a força, sempre com as costas do machado e nas têmporas. O sangue jorrou, como de um copo derrubado, e o corpo caiu de costas. Ele recuou, deixou-a cair e no mesmo instante abaixou-se para lhe olhar o rosto; estava morta. Tinha os olhos esbugalhados, como se quisessem saltar, e a testa e todo rosto franzidos e deformados pela convulsão. Ele botou o machado no chão, ao lado da morta, e no mesmo instante atirou-se ao bolso dela, procurando não se sujar do sangue que escoria – àquele mesmo bolso direito de onde ele havia tirado a chave da última vez. Ele estava em plena consciência, já não sentia mais perturbação mental nem vertigem, no entanto as mão ainda continuavam a tremer” (pg 91, 92)

 

Raskolnikov mata Alyona Ivanovna, a velha agiota; mata e rouba. Por acidente, acaba matando também a irmã da velha agiota, Lisavieta.  E não sente nenhum arrependimento no ato do assassinato. Afinal, para ele não houve crime, ele não matou um ser humano, matou um “princípio”. No entanto, vemos no livro que ele aos poucos vai caindo numa ciranda de culpa e insanidade crescente.

 

Nietzsche concluirá (ao ler Dostoiévski), sobre a teoria do “homem extraordinário” de Raskólnikov, que o homem sob o domínio da moral se enfraquece tornando-se doentio e culpado. A moral socrática e cristã é a moral dos fracos. Os verdadeiros sentimentos morais estão na Grécia Antiga, do tempo das tragédias e das epopeias, pois, segundo ele, era o tempo dos verdadeiros valores aristocráticos, quando a virtude residia na força e na potência. Essa era a virtude admirada pelos deuses.

 

Esse é o “homem extraordinário”, o “além do homem” (Ubermensch), “super-homem”, que Nietzsche identifica em personagens como Napoleão, Lutero, Goethe.  O que podemos dizer é que um líder tem que ter vontade de potência.  Raskolnikov, que se presumia um super-homem, se transforma em um joguete das situações. E ele vai tomando a consciência de que seu crime não é extraordinário, sua culpa o iguala aos outros homens. Quando Raskolnikov explica para Sônia a causa do seu crime, diz:

 

“Eu... quis ousar e matei... eu só quis ousar, Sônia, eis toda a causa....” (pg 427) “Eu simplesmente matei; matei para mim, só para mim: agora, quando a eu vir ser benfeitor de alguém ou passar a vida inteira como uma aranha, arrastando todos para a rede e sugando a seiva viva de todos, isso, naquele instante, deve ter sido indiferente para mim!... (pg 427).

 

Nietzsche nos apresenta algo diferente das conclusões de Dostoiévski. Enquanto o primeiro não se rende a leis morais, muito menos a remorsos, esse homem nietzschiano ratifica a sua própria vontade. Raskolnikov não consegue abandonar a moral.

 

“Foi a mim que matei, não a velhota! No fim das contas eu matei simultaneamente a mim mesmo, para sempre!... (pg 428).

 

Vou parar por aqui. Esse livro é essencial para aqueles que gostam de uma literatura policial com um roteiro bem mais complexo.

 

Vocês estão diante de um livro extraordinário.

 

Para aqueles que querem viajar na insondável alma humana, é um livro perfeito. Tudo isso faz com que este livro mereça um lugar de honra na sua estante.


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


< Gisele Bündchen Hereges >
Crime e castigo
autor: Fiódor Dostoiévski
editora: Editora Agir

compartilhe

     

você também pode gostar

Podcast

Arroz de Palma

Resenhas

O Oceano no Fim do Caminho

Resenhas

Os irmãos Tanner