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Barba ensopada de sangue

Daniel Galera é um autor da nova geração que sem dúvida alguma, será um clássico. É um escritor de mãos cheias e que acaba de ganhar o Prêmio de Literatura de São Paulo, dia 25 deste mês. Parabéns, Daniel! “Barba Ensopada de Sangue” é realmente muito bom, um desses livros que podem enganar o leitor, acreditando que se trata de uma narrativa violenta, mas fiquem tranquilos em relação a isso, embora haja uma relação entre narrativa e título, nada que iniba os leitores avessos a estilos mais violentos. A história é simplesmente ótima. Li duas vezes o livro. Li pela primeira vez para conhecer o autor e sua escrita aplaudida por muitos, e li pela segunda vez porque a história é muito boa mesmo. E repeti.

O que você faria se recebesse do seu pai as seguintes palavras: “Vou me suicidar e quero que, logo depois da minha morte, você sacrifique a minha cadela, Beta.”. Você obviamente vai tentar dissuadi-lo dessa decisão. Mas o pai que passou a vida inteira trabalhando como publicitário sabe de todas as técnicas de persuasão e nada vai demovê-lo da decisão e diz:

 

Trabalhei com persuasão minha vida toda, a persuasão é o maior câncer do comportamento humano. Ninguém nunca devia ser convencido de nada. As pessoas já sabem o que querem e sabem do que precisam. Sei disso porque sempre fui especialista em persuadir e inventar necessidades.” (pg. 32)


Eu pergunto a você leitor: como você sairia dessa emboscada que a vida impôs? Muitos enfrentariam de maneiras distintas apelariam para métodos psiquiátricos, internação, ou outras ideias como religião para que se evite o pior. Mas o suicida tem essa meta muito bem desenhada na mente. Sabe o que vai fazer. Questionamentos como esse são típicos da psicologia suicida. O enfentramento da morte a pretexto da libertação, mais do que coragem exige consciência de que tudo está perdido e não há saídas para garantir que a vida vale a pena ser vivida.

Para os estoicos a morte voluntária não é saída. Na doutrina estoica o postulado é a resignação e o desprezo de todo tipo de sofrer; entretanto, se o sofrimento ou a dor impedem o homem estoico de viver racionalmente, melhor deixar esse mundo. O suicídio nesse caso não é algo irracional, mas ao contrário disso, é um ato de razão vindo de uma avaliação que não encontra no desespero o real motivo. Mas um gesto lúcido, consciente que permite a renuncia da vida em face do sofrimento, das indignidades que se tornaram grandes algozes.

 

 

“Respeito quem investe nisso, mas não estou a fim. Fui feliz até uns dois anos atrás e agora quero ir embora. Quem acha errado que viva até os cem se quiser, desejo sucesso nada contra.”(pg. 30)


Fiquem sossegados que o romance não é uma reflexão sobre suicídio. Não é um romance daqueles que se arrasta na lama da existência de cada um. Longe disso. Fiz essa breve introdução só para mostrar que o livro de certa forma aponta que algumas pessoas carregam a morte na alma de uma forma diferente das outras. E todos os seus atos, mesmo que inconscientemente, registram essa marca dentro de suas atitudes. E para mim o protagonista do livro é um deles. Muito embora o suicídio nunca tenha passado pela cabeça do protagonista, mas sua intuição sobre sua vida e morte nunca passaram despercebidas.

Mas vamos em frente. Garopaba é a nossa próxima parada. Uma cidade de veraneio. Assim como Búzios no Rio de Janeiro, existem duas temporadas. A alta temporada de Garopaba, no verão, a cidade fica lotada de gaúchos, argentinos, uruguaios, paranaenses e até paulistas e a baixa temporada, quando o inverno chega e o comércio praticamente para e a presença de turistas é muito mais esporádica. Garopaba fica em Santa Catarina onde essa demarcação do tempo fica ainda mais marcante. Já que o frio fecha qualquer possibilidade de vida turística. Fora aqueles que moram na cidade.

A história acontece no fim de temporada onde os termômetros ficam ao redor de zero. Tudo é um grande deserto. Os motivos para sair de Porto Alegre e vir morar nessa cidade praiana em pleno inverno obedecem a decepções que o protagonista vai tendo ao longo de sua vida. Abandona a cidade, seus amigos e família e sai numa jornada em busca do isolamento, luto, reflexão. Os motivos obedecem a fatos, traumas e perdas. A primeira delas é o suicídio do pai. A segunda é a namorada que o larga para viver com o seu irmão. E o terceiro motivo é descobrir como seu avô Gaudério desapareceu. Nesse ponto específico a identidade entre o avô e o protagonista parece muito estreita. Já que seu pai, ao contar as histórias dele, percebia essa semelhança entre os dois.

 

 

“Compara o rosto da fotografia com o rosto que vê no espelho e sente um calafrio. Do nariz para cima, o rosto na fotografia é uma cópia mais morena e um pouco mais envelhecida do rosto do espelho. A única diferença digna de nota é a barba do avô, e apesar dela tem a sensação de estar vendo uma foto de si próprio.”(pg.26)


Não só o pai do protagonista vê essa semelhança física entre os dois, toda a cidade de Garopaba encontra-se incomodada com a presença do forasteiro que guarda semelhanças com o avô e quer revirar o passado; mas Santina, namorada no passado de Gaudério quem vai revelar o mistério envolvendo a morte dele ao ver o protagonista dirá:

 

 

“Meu Deus, é a cara de Gaudério.” (pg.303)


Uma cidade que se comporta de forma pouco hospitaleira devido à procura e à investigação de passados incômodos, de histórias sinistras de passados sendo desenterrados. Não temos dúvidas que a tensão do enredo já está construída.

O pai na véspera do suicídio faz uma revelação importante sobre o avô Galdério. Um homem de paixões violentas, que ao ficar viúvo foge para uma aldeia de pescadores onde desaparece aparentemente assassinado pela comunidade em um ato de vingança coletiva.  Sua história transcorre paralelamente com a história do avô.

O nosso protagonista é um triatleta formado em educação física em Porto Alegre. Chega à Garopaba, aluga um apartamento a beira mar e vai morar com a fiel companheira, a cadelinha do pai, Beta. Consegue um emprego em uma academia local e acaba sendo uma referência a todos os tipos de competidores que vinham à Garopaba treinarem para disputar competições internacionais e nacionais. Os meses de frios eram excelentes para grandes exercícios nas praias desertas.

Era assim que ganhava a vida em Garopaba em pleno inverno. Mas, se por um lado carregava no corpo a sua força, por outro lado, possuía uma doença neurológica que o impedia de memorizar rostos. Uma pequena amnésia. Para sair desses momentos que muitas vezes causavam-lhe embaraços, desenvolvera uma técnica de pegar um detalhe de alguém o menor possível para uma futura identificação.

 

 

 “Porra, pai. Como assim mataram o vô? O teu sorriso é igual ao do teu vô, sabia? Não. Não sei como era o sorriso dele. E não sei como é o meu também. Eu esqueço.” (pg.18)


No entanto, estabelece relações normais e afetivas com moradores oriundos de todos os segmentos sociais desse balneário. Uma garçonete e seu filho pequeno, os alunos de natação, um budista, uma secretária de uma agência de turismo. Personagens que irão orbitar a vida do protagonista ajudam a construir a narrativa.

Seu avô, um homem de poucas palavras, acabou assassinado em um vilarejo de pescadores em Santa Catarina e nesse cotidiano gelado com termômetros chegando quase a zero graus, devido ao vento do mar a história do seu avô vem surgindo aos poucos.

Narrativas imprecisas, onde todos evitam dar maiores esclarecimentos. Um homem sedutor, temido que enfrentava aqueles que se colocavam em seu caminho. Um homem disposto a brigar que enfrentou rivais de todos os tipos e venceu. Era uma pessoa conhecida pelo mito que criou em torno de si próprio. Todos conheceram seu avô menos o protagonista. Com o passar do tempo, histórias sinistras vindas do passado são conhecidas. Certo clima de suspense atiça a curiosidade do leitor. Afinal o que aconteceu? Qual a causa para que todos evitem esse tema? O que está por trás de tudo isso? A resposta que todos querem dar é:

 

 

“Se ninguém lembra não aconteceu?” (pg.157)


Pois bem, não seguirei. Vou parar por aqui. Como gosto sempre de repetir. Sigam sem medo. O romance é ótimo. Não gosto de estragar o prazer dos outros. Lembrem-se de que isso aqui é apenas uma resenha. “Barba Ensopada de Sangue” de Daniel Galera merece ser lido. Um livro que merece um lugar de destaque em sua estante.

 


Data: 08 agosto 2016 (Atualizado: 08 de agosto de 2016) | Tags: Romance


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Barba ensopada de sangue
autor: Daniel Galera
editora: Companhia das Letras

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