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Amor Liquido

Antes de começar a resenha do livro “O amor líquido”, de Zygmunt Bauman, gostaria de narrar um fato. Fui compositor de uma banda chamada “Inimigos do Rei” e compus, se não me falha a memória, no terceiro CD da banda, uma música chamada “Sexta-feira da paixão”. A letra narra a história de um casal que se conhece numa sexta-feira, se casa no sábado e no domingo descobrem que não têm nada a ver um com o outro. Confesso que só vim a conhecer o conceito de “amor líquido” há uns quinze anos aproximadamente. E essa canção, que não obteve êxito nas rádios, foi composta em 1991. Mas acho que a letra capta pelo menos um pouco o espírito desse livro.

Zymunt Bauman (1925-2017) nasceu em Poznan, Polônia. Filho de judeus, em 1939, junto com sua família, escapou da invasão das tropas nazistas e se refugiou na União Soviética. Alistou-se no exército polonês no front soviético. Em 1940, ingressou no Partido Operário Unificado – o partido comunista da Polônia. Em 1945, entrou para o Serviço de Inteligência Militar, onde permaneceu durante três anos.

Estudou sociologia na Academia de Política e Ciências Sociais de Varsóvia. Casou-se com Janina Bauman (também escritora), uma judia de família próspera, que sobreviveu aos horrores da invasão nazista. Viveu com ela até sua morte, em 2009.

Em março de 1968, uma série de protestos de professores, estudantes e artistas, que lutavam contra a censura do regime, culminou com o expurgo antissemita, obrigando muitos poloneses de origem judaica a deixarem o país. Brauman e sua mulher foram expulsos da Polônia. Exilado em Israel, lecionou na Universidade de Tel-Aviv. Em 1971, foi convidado para lecionar Sociologia na Universidade de Leeds, Inglaterra, onde também dirigiu o departamento de sociologia da Universidade até sua aposentadoria, em 1990.

Muitas das obras de vasta produção acadêmica foram traduzidas para o português pela editora Zahar. Em seus livros, Bauman faz uma aguda crítica aos tempos atuais, principalmente às relações entre os indivíduos nas sociedades modernas, nas quais os vínculos tendem a ser menos frequentes e menos duradouros. Uma de melhores definições que traduzem a liquidez é a que diz que "as relações escorrem pelo vão dos dedos".

No entanto, se eu não conhecia o conceito de amor líquido, eu li o livro “A insustentável leveza do ser”, do tcheco Milan Kundera, cuja narrativa ambientada em 1968 na Tchecoslováquia revela os altos e baixos, descobertas e constatações dos quatro personagens que protagonizam a história: Tomás, Teresa, Sabina e Franz. 

Tomás é o protagonista cuja aparência sutil, despreocupada e “solta” o torna o símbolo da “leveza”. A leveza do ser de Kundera, segundo Bauman, nada mais é do que o desdobramento dos “laços líquidos”.

O livro “O amor líquido” começa, logo no prefácio, com uma citação de um grande romance: “O homem sem qualidades”, de Robert Musil. Ulrich, personagem central desse livro, é um matemático, um homem sem uma filosofia central de vida ou diretrizes morais para viver. Ele é indiferente à moralidade e à ética e, como tal, tornou-se um homem sem qualidades.

O modo como Ulrich age é fruto do desenvolvimento da sociedade moderna:  o indivíduo age por si mesmo, em seu próprio nome, sem o apoio da tradição e sem os impasses da coletividade. O herói de Robert Musil não mantém ligações indissolúveis. Conecta-se, mas, sem o compromisso da permanência, vemos o surgimento do de uma subjetividade moderna sem qualidade.

“O amor líquido” fala sobre a evolução da afetividade humana, e o principal herói desse livro, segundo as palavras do próprio Bauman, é o relacionamento humano. A interação, os encontros sem compromisso que desobedecem à lei da gravidade, a ausência de peso. As relações amorosas, os vínculos familiares e até mesmo os relacionamentos em “redes”, segundo Bauman, estão se tornando cada vez mais flexíveis e volúveis.

Nessa obra, Zygmunt Bauman observa que a lei que move os relacionamentos tornou-se um objeto de consumo e com a seguinte ênfase, como ele mesmo define: “O consumo está cada vez mais rápido, fácil e descartável”. O consumidor está sempre com mais fome e sente profunda insatisfação o tempo todo.

Os relacionamentos seguem a lógica das mercadorias, ou seja, se existe algum defeito, podem ser trocadas. Por outro lado, porém, não existe a garantia de que gostem do novo produto. Veio com algum defeito? Troca-se, assim ninguém sofre. No entanto, as consequências desse novo padrão de relação social fragiliza a confiança no próximo. Em outras palavras, poderíamos dizer que os relacionamentos humanos correm o risco de extinção.

Ele também critica a visão de algumas pessoas para quem o amor é investimento, comparável ao investimento financeiro. Ele faz uma comparação de uma ação que compramos e mantemos, ou seja, quanto mais as relações valorizam, mais apostamos.

Em “O amor líquido”, o autor analisa as relações amorosas dentro do que ele chama de “modernidade liquida”, ou seja, tempos em que nada dura, nada permanece, tudo muda muito frequentemente, como as relações que não duram, não permanecem como antigamente.

Segundo Bauman, isso se dá por vários fatores e um dos principais fatores para a mudança das relações entre os homens é a era da informação e da internet, que trouxe uma espécie de interação superficial entre as pessoas, na qual o virtual passou a ser mais importante – por ser mais confortável do que a realidade – do que o real. Não há mais que se preocupar quando nos desconectamos de alguém. Bloqueia-se em um primeiro momento ou deleta-se no fim.

Bauman fala sobre a dificuldade atual de termos uma comunicação afetiva, num mundo onde tudo é feito às pressas, onde tudo se volta para o consumismo, onde tudo é passageiro, a necessidade de solidificar relações está suspensa. Não há tempo para isso, relações são complicadas, e a atualidade mostra que podemos ser superficiais com elas, um passo a mais à perigosa zona de conforto que nos protege do real. Quando um relacionamento entre dois indivíduos é governado pelo desejo, aplica-se o modelo de compras.

Bauman faz outra dura revelação em seus estudos, que diz respeito aos filhos, ou seja, a procriação, que é um dos investimentos mais onerosos nos dias de hoje, ainda que muitas vezes as crianças se tornam objetos de consumo emocional.

Para tentar explicar a relação amorosa em “O amor líquido”, Zygmunt Bauman utiliza duas categorias de relação: afinidade e parentesco. Afinidade, ao contrário das relações de parentesco, é algo que é escolhido, que pode culminar em uma afinidade. Só que hoje essa afinidade se precariza numa sociedade em que tudo pode ser descartável. O parentesco é algo mais profundo, são os laços de sangue que transcendem o biológico, é algo que a cultura impõe.

Quando as relações apresentam dificuldades, nos mantemos distantes delas. E é nessa superficialidade que navegamos. As relações sólidas estão cada vez mais raras e mais fracas. Quando aparece um problema, a relação simplesmente se desfaz, simplesmente se quebra. Não há movimentos de resgate, não há recuperação. É fácil assim.

Assumir um compromisso é difícil para muitas pessoas. Por trás disso, está um senso de responsabilidade e transcendência pessoal que elas não estão dispostas a assumir. É possível que haja até mesmo o fator "medo" e imaturidade pessoal, em que não é possível conceber uma relação sólida, autêntica e estável, com um projeto futuro.

O individualismo procura apenas satisfazer as necessidades pontuais com um começo e um fim. Daí a ideia de "amor líquido", emoções que não podemos recordar e que nos escapam rapidamente das mãos, até desaparecer completamente.

Outro ponto abordado por Bauman, entre outros, diz respeito à cidade como produtora de mixofilia, que é o prazer de estar em um ambiente estimulante, e de mixofobia, que é o seu oposto, ou seja, é o medo de misturar-se. A cidade estimula a mixofilia assim como a mixofobia. Bauman defende o espaço público como a essência do cosmopolitismo e abertura para com o diferente. As praças, as ruas, os jardins da cidade são espaços onde os diferentes convergem.

No capítulo 4, em que fala sobre “o convívio destruído”, segundo o autor, as cidades tornaram-se centros de insegurança e degradação geral. Em vez de serem palcos agregadores onde o território é partilhado, a cidade tornou-se algo fragmentado em que o medo acaba gerando a mixofobia. Sobre a Europa, que é o palco de suas observações, Bauman menciona a questão dos refugiados e o renascimento da xenofobia, do racismo e o fechamento social. O medo do estrangeiro, visto como desconhecido e perigoso, em vez de assimilado como algo positivo de conhecimento recíproco, torna-se exclusão.

Hoje, vemos o crescimento da ultradireita na Europa e com apoio eleitoral massivo, que culpam os imigrantes por sua relutância em se integrar aos padrões nativos. As políticas culturais de assimilação, na perspectiva clássica do Estado-Nação, estão totalmente inadequadas ao momento que vivemos. A globalização fez com que as distâncias se encurtassem a cada dia por evoluções tecnológicas. O grande perigo é a autoexclusão, o que equivale a dizer o autoguetizamento.

Em “O amor líquido”, Bauman introduz essa discussão sobre as tendências de mixofilia e mixofobia, que, em sua visão, são dois conceitos centrais para se estudar a liquefação social. É um grande desafio cultural nos dias de hoje. Os preços são eloquentemente altos. A paronoia da mixofobia tem o seu preço. As ruas estão cada vez mais vazias, e vemos o medo vencer.

Fico por aqui e indico com a maior segurança o livro “O amor líquido”, de Zygmunt Bauman, cujo tema se destina a todos os solitários, amedrontados ou inquietos com os problemas gerados pelo afeto nessa época em que vivemos. Destina-se àqueles que sofrem com as fragilidades dos laços humanos gerados pela vida cotidiana. Destina-se a todos aqueles que confiam que as soluções estão em nossos atos, na casa, no bairro, enfim na cidade que habita em cada um de nós. Um livro que merece um lugar de honra na sua estante.


Data: 09 outubro 2018 (Atualizado: 09 de outubro de 2018) | Tags: Uncategorized


< Norwegian Wood
Amor Liquido
autor: Zygmunt Bauman
editora: Jorge Zahar
tradutor: Carlos Alberto Medeiros.

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