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Reflexões do Gato Murr

O livro “Reflexões do Gato Murr”, de Hoffmann, da Editora Estação Liberdade, traz uma apresentação excelente de Maria Aparecida Barbosa, que nos ajuda a entender a obra do autor. Recomendo a leitura. No meu caso, que conheço muito pouco de Hoffman, deu-me a luz necessária para me guiar na história.

Ernst Theodor Amadeus Hoffmann foi um artista multifacetado (caricaturista, advogado, pintor, músico, bem como um maravilhoso contador de histórias). Seu trabalho concentra-se no choque entre a realidade banal cotidiana e o sonho, o reino da fantasia, reino da magia e das visões fantasmagóricas.

O reconhecimento dessa realidade, que poderíamos dizer como sobrenatural, levou Hoffman a compreender a importância do inconsciente (uma região pouco conhecida na época em que viveu) e ser seduzido por fenômenos mentais perturbadores, como a divisão da personalidade, o sonambulismo e um mundo povoado por espíritos, por forças boas e malignas, por forças estranhas e misteriosas, nem sempre favoráveis, capazes de jogar arbitrariamente com a vida e as ilusões dos homens.

“Reflexões do Gato Murr” tem a alternância desses dois mundos (real e fantasmagórico). E o autor potencializa esses mundos em seu nível mais alto.  O desejo de misturar o real e o fantástico, juntamente com uma dose suficiente de sátira, representa a marca da estética hoffmaniana.

Vamos ao livro? Esse romance reúne episódios, personagens e ideias que remontam à infância e à juventude de Hoffmann, bem como seu início na composição musical e criação literária. Uma das figuras centrais é Johannes Kreisler, que está presente no trabalho de Hoffmann desde 1810, em várias outras histórias, embora suas características não sejam idênticas às das histórias anteriores. 

“Reflexões do Gato Murr” é a dupla biografia de dois artistas: o gato que dá nome ao livro, um felino literário e esteticamente sofisticado e autodidata; e o músico Kreisler, protótipo do torturado artista romântico conturbado. Dois artistas bem diferentes.

Murr não hesita em aceitar os condicionantes sociais de uma perspectiva burguesa em sua biografia. Em grande parte, o músico Kreisler faz parte da história de Hoffmann, um funcionário público que galgou altos postos como jurisconsulto. Um homem que foi educado para ser um cidadão prussiano, educado para ser pontual e correto, conforme descrevem os seus biógrafos. Observando a sua história pessoal e a sua obra literária, parece difícil imaginar Hoffmann vivendo esse papel.

O músico Kreisler tem a pretensão de alcançar o ideal da arte suprema fora da atmosfera opressiva da realidade em que os dois se encontram. Hoffmann reflete aqui sobre o conflito entre arte e a vida, um dos problemas característicos do mundo moderno.

Em sua autobiografia, vemos que o estilo do gato Murr segue uma narrativa parecida a de Jean Jacques Rosseau, em seu livro “As Confissões”. Com admirável transparência o autor expõe seus pensamentos e suas experiências de vida tais quais de fato se deram... ou tais quais sua memória afetiva as registrou de forma a fazer o leitor crer-se seu amigo confidente e participe de sua genialidade

O que lemos no texto de Murr é interrompido em vários momentos para abrir caminho para o fragmento correspondente dos fatos de Kreisler.  Essas histórias são contadas paralelamente, no ritmo com que nos acostumamos, e é isso que provoca o riso do leitor, espanto e, por vezes, uma preocupação que, século mais tarde, Sigmund Freud chamaria de sinistro.

As duas histórias parecem desconexas, mas elas acabam se juntando graças ao personagem Mestre Abraham, um mágico e também alquimista, que aparece como mestre de Murr em uma história e como tutor, mentor e figura-chave na história de Kreisler.

Na verdade podemos ver dois mundos separados: o mundo do realismo urbano na história de Murr e o mundo da magia e fantasia nas seções de Kreisler. Enquanto o gato é um personagem erudito, amante, carinhoso, Kreisler é briguento, temperamental e hipocondríaco.

O livro também apresenta um diálogo curioso entre dois tipos de sensibilidade contrastantes: de um lado, o Iluminismo; e do outro, o Romantismo, um movimento intelectual em que o passado tem uma grande importância, em face de uma modernidade radical.

E como conseguimos perceber isso? Primeiramente vemos que a biografia de Murr é feita de maneira linear, típica da prosa iluminista. Urbana, com uma predileção pelo heroico. A voz autoral de Murr é uma reminiscência do espírito sustentado por Rousseau, Diderot, Voltaire, Pascal, entre outros. Outra característica da prosa de Murr é a autocomplacência de um gato muito vaidoso, cuja falsa modéstia é encantadoramente divertida. Muito fiel à voz provável de um gato falante.

A biografia de Kreisler tem um lado romântico, em total contraste ao ambiente urbano vivido por Murr. A narrativa de Kreisler está ambientada em uma paisagem pastoril, idílica, descrita por montanhas elevadas, bosques frondosos, rios caudalosos e lagos profundos. Sua narrativa está cheia de estados elevados e incontroláveis da alma.

Vítima de sua arte, Kreisler é um homem atormentado por espíritos das trevas que tantas vezes tem o poder sobre ele, afundando suas garras impiedosamente em sua sensibilidade. O mestre Abraham descreve-o como alguém que lida com coisas superiores.

A música que, para os românticos, era a forma de arte suprema e mais elevada, sozinha era capaz de descrever espíritos malignos ou de evocar espíritos poderosos que despertam medo, horror e todos os tormentos do desejo desesperado na humanidade e de expressar estados da alma inacessíveis à razão e à linguagem.

“– Se é um pecado – disse ele muito tranquilamente, olhando nos olhos de Cyprianus –, se é pecado louvar o Poder Eterno com a linguagem que Ele próprio nos concedeu, a fim de que o dom celestial revele em nosso peito o fervor da devoção e evidencie a fé. Se é pecado alar-se com as seráficas asas do canto, transcendendo o terreno e aspirando ao supremo com amor e devota saudade, então o senhor tem razão, reverendo senhor. Se é assim, sou um grande pecador” (pg423)

Alguns conceitos como música, loucura, amor, culpa ou perfeição ocupam um espaço considerável dentro da configuração estética de Hoffmann nos espíritos dos grandes heróis do autor, como Shakespeare, Mozart, Beethoven.

A biografia de Johannes Kreisler, no livro, aparece de uma forma caótica, sem uma cronologia definida, por meio de uma sucessão de narradores, que, de suas diferentes perspectivas, chocam-se, nublando a figura do músico. Não temos uma visão clara do músico, talvez devido à impossibilidade de narrar a vida de um indivíduo de maneira clara e unívoca. Elementos surpresas dominam os eventos e o estilo de narrativa responde fielmente a essas incertezas. Só há uma forma de integrar o ser humano ao ambiente por ele criado: o reino do fantástico.

As vozes dos narradores são inteiramente separadas, mas, ainda assim, tecem-se juntas num contraponto formalmente organizado para criar um todo rico e harmonioso.

Fico por aqui. Caso estejam procurando um grande livro, indico sem pestanejar “Reflexões do Gato Murr”, de Ernst Theodor Amadeus Hoffmann, um livro que merece um lugar de honra na sua estante.


Data: 21 janeiro 2019 (Atualizado: 21 de janeiro de 2019) | Tags: Mistério


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Reflexões do Gato Murr
autor: Ernst Theodor Amadeus Hoffmann
editora: Estação Liberdade

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