Livros > Resenhas

O Diabo no Corpo

Raymond Radiguet (1903-1923) foi um adolescente bonito, visionário e trágico. Para aqueles que não o conhecem, foi um jovem escritor francês de grande precocidade. Começou como poeta aos quinze anos de idade, quando foi descoberto por Jean Cocteau e começou a frequentar, como jornalista, os meios literários. Seu primeiro romance foi exatamente o livro que vou resenhar, “O diabo no corpo”, lançado com grande divulgação e transformado em um grande sucesso. Infelizmente, em 1924, um ano após o sucesso do livro, Radiguet morreu, vítima de febre tifoide.

“O diabo no corpo”, narrado em primeira pessoa, é uma história de adultério e de iniciação amorosa, tendo como pano de fundo histórico a Primeira Guerra Mundial. É a história de amor entre um menino e uma mulher bem mais velha, enquanto o noivo encontrava-se no front durante a Primeira Guerra Mundial. É um romance maravilhosamente amaldiçoado, que captura e machuca da primeira à última linha. Raymond Radiguet mergulha em sua obra-prima (sim, obraprima) sem o desnecessário – e muitas vezes ineficaz – jargão descritivo, geralmente associado a romances semibiográficos.

O livro causou certo rebuliço quando lançado. A ideia de um adolescente mantendo relações enquanto um homem estava em combate levantava suspeitas no pós-guerra de que algumas esposas traíram seus maridos soldados e deram à luz filhos ilegítimos.

O romance começa com o narrador chamado François admitindo que sua história vai gerar uma boa dose de reprovação dos leitores:

“Vou me expor a recriminações. Mas que posso fazer? É minha culpa se completei doze anos alguns meses antes do início da guerra? Sem dúvidas, os transtornos que me trouxe a esse período extraordinário foram um tipo que jamais se experimenta nessa idade; mas como, apesar das aparências, nada forte o bastante para nos envelhecer, ainda criança eu tomaria parte numa aventura em que mesmo um homem se veria em apuro. Não fui o único. E meus camaradas guardarão desse tempo uma lembrança que não é a mesma dos rapazes mais velhos. Que aqueles já indispostos comigo considerem o que foi a guerra para tantos meninos: quatro anos de férias.” (pg 9)

 

É uma abertura fantástica, porque não só inspira você a querer ler, a fim de descobrir o porquê, mas também insinua a personalidade do jovem, pois ele não dá a impressão de que suas atitudes são injustificadas. De fato, o estudante, que nunca é nomeado, confirma rapidamente as suspeitas iniciais sobre a qualidade de seu caráter. Ele afirma que sua sensualidade foi "excitada, em vez de reprimida" pela desaprovação de seus pais, e admite sentir desprezo por seus colegas de classe.

“Até os doze anos não me recordo de nenhum namorico, exceto uma garotinha chamada Carmen, a quem remeti, por um garoto menor que eu, uma carta em que lhe expressava o meu amor. Valia-me desse amor para solicitar um encontro. Minha carta lhe foi entregue pela manhã, antes que ela saísse para aula.” (pg 10)

“...Voltei à sala de aula. O professor, irônico, chamou-me de Don Juan. Fiquei extremamente lisonjeado, sobretudo por ele ter citado o nome de uma obra que me era familiar, mas que meus colegas desconheciam. Seu “Bom dia, Don Juan” e meu sorriso entendido colocaram a classe a meu favor. Talvez já soubessem que eu havia dado a um menino menos adiantado uma carta para entregar a uma “zinha”, como dizem os escolares em sua dura linhagem. Essa criança se chamava Messager; não o escolhi por causa do seu nome, mas, de qualquer modo, o nome inspirava confiança” (pg 11)

François era um jovem egocêntrico. Extremamente inteligente, foi laureado pela escola com a coroa de ouro. Sua mãe resolveu que era cedo demais para o filho inteligente continuar a escola. Afinal, mesmo em casa estudando e lendo por conta própria, fazia seus trabalhos de casa rapidamente, ao passo que seus colegas de classe demoravam dias. Em 1913 e 1914, leu duzentos livros. Por aí, podemos sentir de quem estamos falando.

François não estava nem aí para o que o leitor viesse a achar dele. Seus desejos e impulsos sexuais, embora não especificamente denominados como tais no início do livro, tornaram-se muito mais comuns entre os personagens literários ao longo das décadas. Quando ele conhece Marthe Lascombe, de 18 anos, filha de um amigo da família, o noivo dela está no front. François tem um relacionamento com ela, e primeiramente a sedução começa quando François pergunta sobre seus gostos literários.

“Procurei descobrir suas preferências literárias. Fiquei contente por ela conhecer Baudelaire e Verlaine, e encantado com sua maneira de gostar de Baudelaire, que não era, no entanto, a minha. Aqui eu discernia um elemento de revolta. Seus pais acabaram por admitir seus gostos. Apenas por afeição, e nisso Marthe os desprezava. Seu noivo, nas cartas, falava-lhe das leituras e, se lhe aconselhava alguns livros, proibia-lhe outros. Havia proibido Flores do Mal . Desagradavelmente surpreso em sabê-lo noiva, exultei ao saber que desobedecia a um soldado tolo o bastante para temer Baudelaire.” (pg 25)

“... “Marthe não me intimida”, repetia para mim mesmo. ”Logo, apenas seus pais e o meu pai me impedem de me inclinar e beijar o seu pescoço.”

Dentro de mim, um outro menino se alegrava com aquele desmancha-prazeres. Ele pensava:

“Que sorte não me encontrar só com ela! Porque não ousaria beijá-la e não teria desculpas”

Assim blefa o tímido” (pg 27)

François percebe que vai parar de amar essa mulher quando ela envelhecer. O narrador lhe dá tudo aquilo que seu noivo negava: um buquê de flores aqui, um Rimbaud emprestado para ela ler. O narrador presenteia Marthe não por amor, mas pelo desejo de controlar as emoções dela. Para isso faz com que ela jure lealdade a ele o tempo todo.

Quando Marthe vai comprar móveis para a casa que ela vai dividir com o marido, François contradiz suas escolhas; quando ela sugere que gosta de uma determinada peça, ele sugere o oposto e, no final do dia, a menina “intimidada” começa a duvidar de si mesma e de seus próprios gostos.

Essa é uma cena do livro bem poderosa, porque mostra  a facilidade e a sutileza com as quais os indivíduos, mesmo  adolescentes, podem ser  manipuladores afetivos sem que nenhuma violência física ou ameaça seja feita. Elas simplesmente cedem.

François está focado em seus sentimentos e emoções. Só ocasionalmente ele demonstra preocupação com Marthe e, mesmo assim, tende a ser de curta duração. No entanto, não há dúvida de que ele tem alguns conflitos internos. Mas nada demais, François muitas vezes parece uma mistura de ingenuidade e hedonismo.

François quer mostrar a todos o seu relacionamento com Marthe, mas há um lado dele que diz para escondê-lo. Ele elogia o amor, mas mesmo assim dá um tom bem adulto, que os profissionais de saúde mental o chamariam de um manipulador afetivo. Ele não está inconsciente no jogo. Afinal, como François nos diz: “A felicidade é egoísta”.

Ele brinca de casinha com uma mulher que nunca poderá ser mais que uma amante para ele. E assim está seguro enquanto ronda o perigo quando ela se reencontra com Jacques (seu noivo), que consegue uma dispensa para vê-la.

Mas ela está presa a um amor adolescente. Bem, fico por aqui. "O diabo no corpo” é um livro honestamente cruel. E é bem capaz de que você goste desse absurdo intencional de Raymond Radiguet. Esse livro merece um lugar de honra na sua estante.


Data: 07 maro 2019 (Atualizado: 07 de maro de 2019) | Tags: Guerra


< A dupla chama: amor e erotismo Missa Negra - Religião Apocalíptica e o Fim das Utopias >
O Diabo no Corpo
autor: Raymond Radiguet
editora: Penguin, Companhia das letras
tradutor: Paulo Cesar de Souza

compartilhe