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Em cada coração um pecado

Confesso a vocês que li o livro “Em cada coração um pecado”, do escritor Henry Bellamann, meio no escuro. Estava com ele na mão quando minha esposa me disse que seu falecido pai adorava esse livro. No início, hesitei pelo fato de a edição ser muito antiga e as letras serem muito pequenas. Para mim, que tenho problemas de visão, forçar a vista seria um custo alto, mas, quando comecei a folhear, foi como se eu tivesse pegado um avião que antes de voar vai para cabeceira da pista até receber a ordem de comando. E foi assim que a leitura engrenou.

Sobre o autor Henry Bellamann, sei que esta foi a sua obra de maior sucesso. Tanto que a Abril Cultural abraçou a ideia de publicá-lo em 1975. Esse livro transformou-se em filme e adivinhem quem era o ator principal? Ronald Reagan, ainda jovem. Segundo pude pesquisar na internet, esse foi o seu grande filme, que foi indicado ao Oscar quando ele se tornou presidente. O livro e o filme começaram a fazer sucesso a partir de então. Mas cabe aqui uma observação: a Abril Cultural publicou esse livro muito antes de Reagan tornar-se presidente. O que eu quero dizer é que o mérito da publicação não se deveu a nada além de ser uma excelente literatura de grande escritor.

Henry Bellamann nasceu nos Estados Unidos em 1882. Batizado com o nome de Henrinch Hauer, substituiu-o por Henry no início de sua carreira literária, mantendo-o até a sua morte. Seu nome começou a ganhar certo sucesso com a publicação de um pequeno volume de poemas – “A Music Teacher’s Note Book”. A partir do sucesso da obra, o autor alçou voos maiores até chegar ao livro “Kings Row”, cuja tradução optou pelo título “Em cada coração um pecado”, título esse que, a meu ver, é muito mais pungente e que retrata melhor a história do que o título dado pelo próprio autor. Em outras palavras, foi um grande acerto.

Vamos ao livro? O livro conta a história de uma pequena cidade chamada Kings Row, no meio-oeste americano, onde vive um jovem chamado Parris Mitchel, um rapaz órfão de pai e mãe e que foi criado pela avó. A história se dá na virada do século. O romance é, em todos os sentidos, um registro de crescimento – não apenas da cidade e do jovem Parris, mas de um ideal de uma vida ordenada. O herói Parris Mitchel é uma espécie de híbrido na cidade, pois foi criado em um ambiente europeu por uma avó de origem francesa cujo marido era alemão. Sem conhecer o pai e a mãe de origem americana, Parris passa a adolescência falando francês e alemão em casa, tornando-se um excelente pianista clássico. Ele se torna um alien na cidade por seus modos sofisticados, enquanto as outras crianças passam os dias em atividades típicas de suas idades, como brincar nos trens, nos pátios.

Embora Parris seja considerado um pouco estranho pelas crianças da cidade, em vez de ser hostilizado, é bastante apreciado pelas outras crianças por sua maneira fácil e gentil. Esse seu afastamento do convívio com outras crianças prepara o terreno para algumas ações posteriores. À medida que ele vai crescendo, faz amizade com dois meninos da cidade. Um deles é Drake McHugh, um jovem de boa índole, mas sexualmente precoce, órfão criado por parentes ricos. O outro garoto, Jamie Wakefield, é um jovem tímido e gay, cujas inclinações poéticas assediam Parris e o deixam desconfortável, mas que entende a solidão que vive o amigo.

Quando Jamie Parris completa quatorze anos, tem sua primeira experiência sexual com uma garota chamada Renee, que é espancada pelo pai imigrante quando este sabe das relações sexuais com Parris, e ela acaba saindo da cidade para sempre. Nessa parte do livro, outros adolescentes vão aparecendo na vida do protagonista, entrando no foco. O retardado Benny Singer, Fulmer Green, o valentão da cidade, Vera Lichinski, a menina prodígio do violino, Randy Monaghan, a garota bonita e espirituosa que literalmente pensa fora da caixinha.

Nesses anos de adolescência, com a saída de Renee (o grande amor de sua vida), aparece outra personagem bastante significativa. Seu nome é Cassandra Tower, filha de um médico excêntrico, Dr Tower. No entanto, o pior já estava começando a dar sinais de acontecer quando ele soube por terceiros que sua avó estava morrendo. Sua avó havia pedido que o Dr Tower – que deixara de exercer a profissão – preparasse Parris para que ele pudesse estudar medicina em Viena. Parris estudava loucamente, até que ele inicia um romance clandestino com Cassandra, sua colega de escola e filha do Dr Tower, o que ocorre antes de ela sair da escola pois o pai, Dr Tower, não queria que ele convivesse com os demais alunos. Ele havia saído também para quer fosse estudar com um preceptor, ou seja, um professor encarregou-se de sua educação em sua própria casa, evitando o contato desnecessário em sala de aula, para não perder o foco com os outros colegas.

Cassandra e Parris viviam um tórrido romance enquanto Parris tinha aulas com o pai da moça. Mas foi quando uma sucessão de eventos acontece, dando uma virada na vida de Parris: a morte da mãe de Cassandra, em seguida a morte de sua avó, e logo em seguida a grande tragédia, o Dr Tower mata sua filha Cassandra e se mata em seguida. Parris lê o diário do médico e deduz que seu respeitado e temido mentor há algum tempo mantinha um relacionamento incestuoso com Cassandra. Parris, de coração partido e perplexo com as três mortes, parte para Viena.

Durante a sua ausência, a cidade de Kings Row experimenta um boom econômico bastante enganador. À medida que o século gira, a cidade se agita. Os amigos de Parris se tornam adultos e começam suas carreiras. Drake, o grande amigo e confidente de Parris, começa a flertar com Louise. Louise é filha do Dr. Gordon, o médico mais proeminente da cidade, e acaba se apaixonando por Drake. Enquanto Randy Monagohan (a menina que pensa fora da caixinha) desenvolve um certo afeto por Drake.

Um dos momentos mais fortes do livro é quando Drake está cheio de planos de investimento, e acaba perdendo toda a sua herança para um banqueiro inescrupuloso e corrupto. Quando ele mal se recupera desse terrível incidente, resolve trabalhar em um ambiente totalmente inóspito e acaba sofrendo um acidente no pátio do trem. Dr. Gordon, médico respeitável, opera Drake sem anestesia, deixando-o aleijado e desfigurado. Drake, considerdo por Dr Gordon um devasso por suas transgressões morais, estava no radar do médico praticamente desde o momento em que começa a demonstrar interesse por sua filha, Louise. Louise, percebendo que o pai amputou as duas pernas de Drake sem necessidade, entra em crise.

Mas Randy Monaghan (a menina que pensa fora da caixinha) sempre amou Drake. E agindo por amor e não por pena, Randy se casa com Drake e tenta dar-lhe um impulso na vida.

Enquanto isso, Parris, que está em Viena quase terminando seu curso de psiquiatria, se comunica constantemente com Randy e acaba dando conselhos profissionais sobre a melhor forma de ajudar Drake.

Quando Parris termina o curso, volta para Kings Row e acha que ele e a cidade mudaram. Ele mais cosmopolita, e Kings Row mais provinciana. Ele assume uma posição no manicômio da cidade e passa grande parte de seu tempo livre com Randy e com Drake.

Sua volta veio cercada de problemas, como Benny Singer (o menino retardado) e o valentão Fulmer Green, que vivia perseguindo Benny e o maltratava, acabou sendo morto por Benny e este condenado à forca. Parris também descobre que o doutor Gordon (aquele que operou Drake) tinha uma propensão messiânica à cirurgia sádica. Parris tentava administrar esse problema.

“A sociedade nas suas cristalizações podia naturalmente exercer sobre os indivíduos e as coisas as mais cruéis e as mais insensíveis das operações. Em tais casos o conformar-se com as circunstâncias parece ser o único caminho para a salvação. Conformar-se – sim, e ser ou tornar-se medíocre. Era o caminho do deserto. Para ir com o bando não se devia usar sinais ou caracteres diferentes, pois era arriscar-se a ser feito em pedaços. Devia, em tais casos, ser mais fortes do que os outros. Quem é fraco morre. Quem é diferente tem de fazer face aos raivosos que nos rodeiam e atacam sem piedade. Parris recordou-se de que já na escola essas antigas leis da selva se exerciam.” (pg 502)

... E em seguida Parris recordou-se de alguns conceitos que não havia compreendido no momento, e expressos como se se segue:

 “... Em meio do contínuo furacão de destruição e morte nascem de tempos em tempos homens que resolvem esta desordem, Criam uma outra visão do incêndio e do pó causados pela catástrofe. Esses himens são os poetas, os músicos e os artistas do palco. É assim que eles procedem como réplica às torpezas do mundo.” (pg 502)

Outros personagens que não estão envolvidos diretamente na trama aparecem e tornam-se importantes. O padre católico Donovan, que abre e fecha o romance, desempenha um papel crucial do alter ego de Parris. Padre Donovan, o místico que administra as almas. Parris, o racionalista que administra as mentes. No entanto, ambos aprendem o mesmo design filosófico. Herr Beldorf, mestre em música clériga, cria para Parris a dicotomia entre disciplina e emoção. Miles Jackson, editor do jornal, ajuda Parris a entender o papel do artista na sociedade. E as conversas de Parris com o doutor Tower, que formam o núcleo filosófico do romance, cobrem os problemas desconcertantes de conhecimento, pensamento e responsabilidade. Cada um dos personagens e episódios em Kings Row contribui para o crescente conhecimento de Parris sobre como o homem pode se localizar no tempo e no espaço, a fim de assumir o controle da própria vida.

Para aqueles que tiveram a oportunidade de ver “Blue Velvet”, de David Lynch, quando lerem “Em cada coração um pecado”, terão a oportunidade de se verem atraídos por uma atmosfera bizarra criada por Henry Bellamann, que injeta em sua história o sentimento de que há algo a ser descoberto em meio a tantos enigmas e símbolos na cidade de Kings Row. Doenças mentais, psicanálise precoce, relações de gênero, segredos e hipocrisias das pequenas cidades, tudo isto está no livro. Que aborda ainda temas como vingança sádica, incesto, homossexualidade, suicídio. Temas que ainda eram tabus na literatura americana no início do século XX, mas não eram desconhecidos.

Indico sem pestanejar o livro “Em cada coração um pecado”, do escritor Henry Bellamnn, como um livro que merece um lugar de destaque na sua estante.


Data: 30 setembro 2019 (Atualizado: 30 de setembro de 2019) | Tags: Romance


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Em cada coração um pecado
autor: Henry Bellamann
editora: Abril Cultural
tradutor: Clovis Ramalhete, João Távora

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