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A tempestade

Mantendo as leituras de Shakespeare como temos feito, hoje falaremos da peça “A Tempestade” desse autor. A edição que tenho é simplesmente excelente e ao mesmo tempo é de luxo, as páginas são de papel tipo escrita areia, ou seja, muito próximo ao papel de seda. Infelizmente essa coleção da editora Nova Aguilar está esgotada. Acreditem: consegui comprá-la no sebo da rodoviária de Teresópolis. Aliás, volta e meia aparecem verdadeiras pérolas nesse sebo, como a coleção de teatro de Bernard Shaw, que adquiri para desespero de minha esposa, que não sabe o que fazer com tanto livro em nossa casa.

A tradução de “A Tempestade” é de Bárbara Heliodora, que faz uma excelente introdução, o que me norteou a leitura, comprovando a delícia e o zelo dessa edição. Primeiramente, vamos ao contexto da história. A peça baseia-se na literatura de viagens da época, no caso em uma tempestade perto do que hoje conhecemos como Bermudas − a ilha em questão tem outro nome na peça. Ao que parece, o projeto colonial inglês parecia estar na mente de Shakespeare ao longo da história, e também o ensaio de Montaigne “Canibais” acerca do Novo Mundo. Esse ensaio, traduzido para o inglês em 1603, analisa os costumes da tribo dos Tupinambás e deve ter sido lido pelo autor. O nome de um dos personagens da peça, Caliban, parece derivado de “canibal”.

Há controvérsias de que “A Tempestade” teria sido a sua última peça escrita, mas existem alguns estudiosos de Shakespeare que dizem que “Henrique VIII” teria sido a última. Vamos a história?

A peça é uma história de vingança, romance e magia. E tudo começa com uma tempestade que atinge um navio que transporta Alonso, Fernando, Sebastião, Antonio, Gonzalo, Stephano e Trinculo, que estão a caminho da Itália depois do casamento da filha de Alonso, Claribel, com o príncipe de Túnis, na África. O naufrágio é iminente, todos começam a temer por suas vidas. Um relâmpago atinge o navio, rachando-o. Todos se preparam para afundar.

Ao longe, Próspero e Miranda (sua filha) assistem ao naufrágio. Eles estão na costa da ilha. Miranda pede ao pai que os salve. Implora para que aquelas pobres almas não sejam destruídas em vão. Ela pede, pois sabe que foi o próprio pai e o servo Ariel que afundaram a embarcação graças a seus poderes mágicos. O pai acalma a filha dizendo para que ela não se preocupe, pois tudo ficará bem, sem antes revelar para a filha um pouco sobre sua própria história, ou seja, seu passado. Um passado mal contado, pois ele nunca havia contado tudo o que ocorrera.

 

Em “A Tempestade” o leitor será informado logo de início que todos os inimigos do personagem central, Próspero, estarão à sua disposição a partir do naufrágio, que tanto ele como sua filha Miranda presenciaram, ou seja, ele quer infligir aos seus desafetos que estavam a bordo daquele navio a sua visão de justiça na ilha onde naufragaram. Em outras palavras, a sua ilha. Mas para você, leitor, que quer saber a razão dessa vontade de justiça, vamos começar dizendo o seguinte: o imbróglio dessa história envolve uma usurpação do trono de Próspero por seu irmão, Antônio, com a ajuda do rei de Nápoles, Alonso, e a busca de Próspero para restabelecer a justiça. Tudo isso é o que vai dar o tom dessa peça.

Próspero e sua filha (ainda pequena) Miranda, foram deixados à sua própria sorte, mas Gonzalo, por um gesto de “piedade”, deixou alguns suprimentos e os livros de Próspero, que são a fonte de sua magia, poder e saber. A filha e o pai conseguem sobreviver numa ilha, onde viveram por doze anos. Próspero detém o conhecimento da necromancia, ou seja, poderes mágicos.

Ele possui uma imensa biblioteca sobre assuntos relativos à magia. Foi devido a essa devoção ao estudo e aos livros que Próspero teve os meios para educar e criar sua filha Miranda numa ilha. Para que vocês tenham uma ideia da importância dos livros, faço uma citação da peça de um diálogo entre três personagens: Stephano, Ariel, e Caliban, que estabelecem a seguinte conversa referindo-se a Próspero, “o senhor da ilha”.

 Caliban

“Como eu já disse, ele tem o costume

De cochilar de tarde nessa hora

Há de poder espirrar o seu cérebro.

Mas antes tira os livros. Com uma acha

Amassa o crânio, ou rasga com pancada,

Ou corta a goela com a faca. Só lembra

De pegar primeiro os livros; sem estes

É um tolo igual a mim; sem mais espíritos

Para mandar – todos eles o odeiam,

Igual a mim. É só queimar os livros

Ele tem utensílios – como os chama –

 Para arrumar se um dia tiver casa.... ( Ato III cena II pg Pg 1559)

 

Caliban no diálogo acima mostra que ele é também um dos antagonistas dessa história, ele é descrito como 'um escravo selvagem e deformado'. Ele é filho de uma bruxa nomeada Sycorax e considerada como o próprio diabo, que habitava a ilha antes da chegada de Próspero. Caliban é certamente uma figura monstruosa. Ele tem seus problemas com Próspero e a razão é simples: segundo Caliban, a ilha é dele, por herança. Em outras palavras Prósper está (segundo Caliban) repetindo o que fizeram com ele. No diálogo acima, Caliban, juntamente com Stephano e Trinculo, conspiram para matar Próspero.

Caliban é da terra, seus discursos se voltam para as fontes oriundas do pântano, brejos. Enquanto o outro espírito, Ariel, é um espírito mais arrojado, tem uma dignidade e sua liberdade, servindo de bom grado a Próspero. Caliban sempre se recusou se curvar diante de Próspero.

A ilha quase desabitada apresenta a sensação de possibilidade infinita para quase todos que lá aterram. Próspero achou, em seu isolamento, um lugar ideal para educar sua filha. Sycorax, a mãe de Caliban, trabalhou sua mágica lá depois que ela foi exilada da Argélia. Caliban, uma vez sozinho na ilha, foi transformado em escravo de Próspero e lamenta que ele tenha sido seu próprio rei.

Após o naufrágio, do outro lado da ilha, Alonso, Sebastian, Antônio, Gonzalo e outros dão graças a Deus por terem sido salvos. Próspero chama o seu servo Ariel (que é um espírito), que revela que fora ele que trouxera a tempestade, afundara o navio e trouxera todos os tripulantes a salvo para ilha. Mas todos separados em pequenos grupos.

Ariel, é o espírito invisível, entra tocando música e cura o ferido Ferdinand, uma das vítimas do naufrágio. Miranda (filha de Próspero) encontra com Ferdinand, filho e herdeiro de Alonso. Ferdinand, ao contrário do pai, é um ser tão puro e ingênuo quanto Miranda. Ele se apaixona por ela à primeira vista e feliz se submete à servidão para ganhar a aprovação de Próspero.

Ferdinand foi o único homem que Miranda tinha visto ao longo desses doze anos, além de Caliban e seu pai. Próspero está feliz em ver que seu plano para o futuro casamento de sua filha está funcionando a pleno vapor, mas decide que o provável matrimônio deveria, mesmo que temporariamente, sofrer um atraso a fim de evitar que esse relacionamento se desenvolva muito rapidamente.

Para isso, ele acusa Ferdinand de apenas fingir ser o príncipe de Nápoles e o ameaça de prisão. Quando Ferdinand desembainha sua espada, Próspero o encanta e o leva para a prisão, ignorando os gritos de misericórdia de Miranda. Ele então envia Ariel em outra misteriosa missão, mas todos estão preocupados com o destino de Ferdinand.

Enquanto isso, do outro lado da ilha, Antônio convence Sebastian de que este será rei de Nápoles se matar Alonso. Sebastian acha uma ideia atraente e, no momento em que desembainham suas espadas para matá-lo, quem surge? Ariel faz com que Gonzalo acorde com um grito. Todos acordam, e Antônio e Sebastian com as espadas na mão inventam uma história para se safarem da traição. Ariel retorna até Próspero enquanto Alonso e seu grupo continuam a procurar por Ferdinand.

Caliban e Próspero, como já disse, não vivem em harmonia, pelo contrário, se odeiam. Enviado para transportar madeira, Caliban observa a chegada de Trinculo, um bobo da corte perdido na ilha depois do naufrágio. Caliban pensa que Trinculo é um espírito enviado por Próspero e se esconde debaixo de um manto. No mesmo momento chega Stephano, um mordomo bêbado perdido na ilha também. Logo, todos começam a beber: Caliban, Trinculo e Stephano.

Completamente bêbados, Ariel aparece de forma invisível e os provoca forçando-os a lutarem uns contra os outros, imitando suas vozes e provocando-os. Em determinado momento, Caliban propõe que eles matem Próspero, levem sua filha e estabeleçam Stephano, o bêbado, como rei da ilha, no que ele concorda e vão à procura de Próspero para matá-lo. No entanto, Ariel aparece mais uma vez tocando sua flauta e seu tambor como se fizesse a trilha sonora do assassinato.

 Próspero começa a ser mais complacente em relação a Ferdinand e o recebe em sua família como o futuro marido de Miranda. Pede que Ariel chame os espíritos. Eles chegam assumindo as formas de Ceres, Juno e Iris e celebram os ritos nupciais e a generosidade da terra. Uma dança de ninfas segue, mas é interrompida quando Próspero se lembra de que existe um complô de Caliban, Stephano e Trinculo para matá-lo.

Ariel e Próspero preparam uma armadilha pendurando roupas bonitas de Próspero para que sejam vistas pelos assassinos potenciais.. Stephano, Trinculo e Caliban entram à procura de Próspero e, ao encontrar as roupas bonitas, decidem roubá-lo. Eles são imediatamente atacados por um bando de espíritos em forma de cachorros e cães de caça, impulsionados por Próspero e Ariel.

 Próspero, mais uma vez, usa Ariel para trazer Alonso e os demais. Ao encontrá-los, confronta Alonso, Antônio e Sebastian com sua traição, mas os perdoa. Preocupados com o paradeiro de Ferdinand, que se perdera na tempestade, Próspero mostra Ferdinand e Miranda jogando xadrez. Cabe a pergunta: qual o objetivo do xadrez no final dessa história? Simples. Prospero capturou o Rei Alonso e o repreendeu-o por sua traição. Ao fazê-lo, Prospero casou Ferdinand, com sua própria filha, o que assegura uma harmonia na sucessão no ducado de Nápoles. Alonso e seus companheiros sentem-se aliviados e gratos ao verem Ferdinand e Miranda, jogando xadrez e suavemente falando de amor, totalmente ausentes do mundo em torno deles. Próspero deu o cheque mate.

Mas fico por aqui. Tem mais muito mais. O que tentei foi fazer um pequeno resumo dessa grande história chamada “A Tempestade”, cuja leitura vale a pena. E o que fiz aqui, principalmente para aqueles que por ventura queiram ler, é dar um caminho para que esse percurso seja curtido pelos leitores. Nada mais do que isso. Por isso, indico “A Tempestade”, de William Shakespeare, como uma história que merece um lugar de honra em sua estante.


Data: 27 agosto 2018 (Atualizado: 27 de agosto de 2018) | Tags: Teatro


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A tempestade
autor: William Shakespeare
editora: Nova Aguilar
tradutor: Bárbara Heliodora

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